Crítica | Um Crime para Dois

Um Crime para Dois (versão preguiçosa do título original), produção da Paramount que planejava lançá-la nos cinemas, foi mais uma vítima da pandemia de Covid-19, tendo seus direitos vendidos para o Netflix e, claro, a subsequente estreia na plataforma de streaming. No entanto, diferente de outras obras que tiveram destino semelhante, essa “correção de rumo” pode fazer mais bem do que mal para a comédia romântica protagonizada e produzida por Issae Rae (O Ódio que Você Semeia, Insecure, A Fotografia) e Kumail Nanjiani (Silicon ValleyDoentes de Amor e, em breve, Os Eternos), já que o material poderia perder-se entre lançamentos maiores nas telonas.

Não que a produção mereça particular destaque ou atenção, pois o novo filme de Michael Showalter, em apenas seu segundo trabalho de direção para o cinema, é apenas, com boa vontade, simpático e não necessariamente por causa dele. Afinal, o grande – e quase único – elemento de relevo da obra é mesmo a dupla protagonista que estabelece conexão imediata no divertido e rápido preâmbulo que mostra como eles se conheceram e que nos leva a uma elipse para o presente em que percebemos imediatamente que o relacionamento está longe de ser o que era antes. Rae e Nanjiani tiram leite de pedra, pois o roteiro de Aaron Abrams e Brendan Gall é ralo em comicidade e extremamente burocrático e manjado em termos de narrativa, o que transforma Um Crime para Dois em um veículo de qualidade duvidosa para o estrelato dos dois.

Na história, Leilani (Rae) e Jibran (Nanjiani), um casal prestes a se separar que está a caminho de uma festa, atropela um ciclista que, ato contínuo, continua a aparentemente fugir de alguém que logo eles descobrem quem é, colocando-os em uma situação impossível. Usando o preconceito racial – e pitadas de sarcasmo – para fazer com que Leilani e Jibran façam de tudo para descobrir o que aconteceu sem procurar a polícia, o longa vai colocando os dois em situações cada vez mais bizarras que tentam arrancar risos do espectador unicamente com esse artifício.

Ainda bem, portanto, que os dois atores principais acabam conseguindo ir além e entregam personagens que embutem o humor em sua própria construção, sem depender de corporalidade ou de gritarias, o que por vezes leva a algumas risadas breves, mas que conseguem pelo menos nos fazer pensar sobre o que esperar de relacionamentos. Esse é, aliás, o segundo e último destaque do filme: apresentar uma visão bastante verdadeira sobre a vida a dois, ainda que não haja nem sequer de longe a tentativa de se aprofundar no assunto. O velho contraste entre o início de namoro – apaixonado, físico, repleto de novidades, deslumbrado – e a vida estabelecida de um casal – cheio de discussões acaloradas por assuntos pequenos, silêncios aparentemente constrangedores e uma alegada monotonia – é o que de melhor o roteiro faz, com conclusões bastante óbvias, mas cuja exposição e realce são importantes especialmente em obras direcionadas ao público mais jovem para que a fantasia de relacionamentos constantemente movimentados seja substituída pela realidade… realidade essa que costuma ser muito mais verdadeira, perene e bonita do que a juventude afobada imagina.

Mas esses aspectos, infelizmente, são poucos demais para tirar Um Crime para Dois daquela “meiuca” razoavelmente genérica capaz de divertir muito levemente ao longo de sua duração (que, ainda bem, é modesta), só que não levando mais do que alguns segundos de tela preta nos créditos para ser esquecida. Certamente tem o seu valor pelas atuações de Rae e Nanjiani e pela questão da evolução (ou não) de relacionamentos amorosos, mas o assunto e os atores mereciam mais do que um filme que consegue ser mais eficiente como peça publicitária do Lyft do que como comédia romântica para além do básico. No entanto, talvez justamente por ter toda a “cara de obra para streaming“, o filme encontre mais sobrevida na telinha do que teria nos cinemas.

Um Crime para Dois (The Lovebirds, EUA – 22 de maio de 2020)
Direção: Michael Showalter
Roteiro: Aaron Abrams, Brendan Gall (baseado em história de Aaron Abrams, Brendan Gall e Martin Gero)
Elenco: Issa Rae, Kumail Nanjiani, Paul Sparks, Anna Camp, Nicholas X. Parsons, Kyle Bornheimer, Barry Rothbart, Catherine Cohen, Andrene Ward-Hammond, Robert Larriviere, Lisha Wheeler, Shannon Nicole, Moses Storm
Duração: 86 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.