Crítica | Um Crime Perfeito (1998)

Disque M Para Matar é a inspiração para o desenvolvimento de Um Crime Perfeito, suspense dos anos 1990 com clima sensual, atmosfera envolvente, mas com desenvolvimento que deve bastante ao ponto de partida, pois deixa de lado a possibilidade de abordar elementos fascinantes do gênero suspense, tudo em prol da facilitação narrativa para uma parte, quase a maioria, das plateias contemporâneas que imploram pela explicação minuciosa de detalhes. Devo dizer, no entanto, que atender aos anseios das pessoas que conhecem a produção clássica é algo bastante complicado, pois mesmo em torno dos filmes menos interessantes de Alfred Hitchcock, há uma aura brilhante que torna o seu legado intocado e as suas releituras indignas de chegar aos pés do “original”.

Conforme as informações de bastidores, bem como o nosso próprio processo analítico, Um Crime Perfeito nunca se colocou como uma refilmagem de Disque M Para Matar, mas apenas a inspiração contemporânea, com mais reviravoltas para impedir que as pessoas já conhecedoras da história antecessora desvendem de cara o que acontecerá no desfecho. Desta forma, a narrativa se esforça e consegue alcançar os seus próprios méritos. Creio que seja filme de suspense que evita os “segredos” entre culpados e inocentes para desde o seu começo estabelecer uma situação e nos fazer observar os seus desdobramentos.

Assim, Um Crime Perfeito funciona como narrativa que manipula a tensão, traz atores em desempenhos dramáticos inspirados, além de apresentar uma condução estética sofisticada, elemento magnetizante para nós, espectadores curiosos com o desfecho de uma narrativa com proposta tão mirabolante. Ao longo dos seus 107 minutos, acompanhamos uma história com altas doses de cinismo, perversidade e desejo, elementos emulados do terceiro filme em cores de Hitchcock. Dirigido por Andrew Davis, cineasta que teve como direcionamento o roteiro de Patrick Smith Kelly, a narrativa nos apresenta Emily Taylor (Gwyneth Paltrow), uma mulher que trabalha como tradutora da ONU. Ela é poliglota, tendo como cargo a assistência da embaixatriz estadunidense nas Nações Unidas. Casada com o executivo Steve Taylor (Michael Douglas), Taylor não vive os seus melhores dias como esposa. O casamento não vai bem, tal como a vida financeira de seu marido, um homem que passa por uma grave crise nos negócios, pois as perdas no mercado atual são maiores que os saldos positivos.

Problemas, desde já, prometem emergir, principalmente depois que ele descobre o seguro de 100 milhões da esposa. Para arquitetar os seus planos diabólicos, ele inicia o passo a passo para o assassinato de Taylor dentro do apartamento de luxo em que vivem. Entre eles há David Shaw (Viggo Mortensen), um pintor conhecido do casal, morador do Brooklyn. Na linha dos temas hitchcockianos, o filme mesclará crueldade, assassinatos, dinheiro, traição, dentre outras palavras-chave apresentadas por meio de uma narrativa mais gráfica que os filmes clássicos do mestre do suspense, limitado, na época, pelos códigos restritivos da censura diante da indústria cinematográfica. Assim, os planos de Steve Taylor parecem bem arquitetados, mas as coisas parecem que não saem como o estabelecido e o filme, ainda em sua metade, nos faz trafegar pelas descobertas dos protagonistas diante de suas decisões questionáveis e mentes instáveis.

O clima soturno é estabelecido por diversas escolhas estéticas, dentre elas, os enquadramentos de Dariusz Wolski, adornados, na edição de Denis Virkler, pela condução musical de James Newton Howard, uma espécie de orquestra para as mentes instáveis. A justaposição destes setores é complementada pelo design de produção meticuloso de Philip Rosenberg, atento às demandas dos interiores onde vivem os personagens, tanto os integrantes da elite como o lar do fotógrafo que representa o contraste da sofisticação do apartamento dos protagonistas. Há de se destacar também a iluminação proposta pela direção de fotografia de Wolski, bem coerente com os perfis sociais e psicológicos das “criaturas” em constante conflito, apresentados em imagens repletas de pontos de contraste entre luz e sombra.

A quantidade de cenários, por sinal, é bem maior que a abordagem do filme de Hitchcock, afinal, os tempos são outros. Como a peça teatral que serviu de inspiração possuía poucos cenários, o cineasta decidiu por seguir o mesmo padrão. Isso não impediu a produção de apostar em câmeras ágeis e com sensação de profundidade. No caso de Um Crime Perfeito, há cenas externas, ambientação do espaço profissional, pluralidade de lares, em suma, câmeras que contemplam espaços que designam agilidade, para plateias mais ágeis e inquietas. Ainda na seara das comparações, podemos observar a altura do toque do telefone como uma referência pontual para determinados elementos do filme clássico, presentes na inspiração de 1998, parte do pacote do design de som também eficiente do filme.

Os figurinos de Ellen Mirojnick também estão adequados, num trabalho de grande responsabilidade, pois é importante reforçar que em Disque M Para Matar, Edith Head adotou a proposta de representar a evolução da personagem de Grace Kelly de acordo com o seu estado emocional, transmitido para as cores. Inicia-se o filme e podemos perceber cores vibrantes, em constante diálogo com a alegria estonteante da esposa que logo mais, descobre ser parte dos planos de vingança de seu marido, algo que culmina num festival de roupas opacas, bem como maquiagem bem discreta. Em Um Crime Perfeito, a estratégia não chega a ser central como no filme clássico, mas conforme apontado, o setor cumpre bem o seu papel de caracterização da dimensão física de seus personagens.

Em Disque M, Tony Wendice (Ray Milland) é quem faz o personagem equivalente ao Steve Taylor interpretado por Michael Douglas. Ele descobre a infidelidade da sua esposa Margot (Kelly), amante de Mark Holliday (Robert Cummings). No clássico, estamos em Londres, não em Nova Iorque. Há o contrato para o assassino matar a sua esposa, mas as coisas não saem como o previsto e é daí que os conflitos começam a se embaralhar ainda mais. Tal como o filme que lhe serviu de inspiração, Um Crime Perfeito é uma história sobre várias coisas, mas dentre elas, a jornada de um homem que deseja se safar das consequências de seus atos. Será possível ou o destino é impiedoso para quem acha que o crime compensa?

Um Crime Perfeito (A Perfect Murder, Estados Unidos, 1998)
Direção: Andrew Davis
Roteiro: Patrick Smith Kelly
Elenco: Gwyneth Paltrow, Michael Douglas, Viggo Mortensen, David Suchet, Sarita Choudhury, Michael P. Moran, Novella Nelson, Constance Towers, Will Lyman
Duração: 105 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.