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Crítica | Um Dia de Cão

por Leonardo Campos
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Um Dia de Cão é um filme que ressoa no contemporâneo, tamanha a sua intensidade ao tratar da mídia, da violência e de questões sociais e parecer muito ainda muito atual após quatro décadas de seu lançamento, em 1975, momento histórico acirrado para os estadunidenses, mergulhados nas tensões dos movimentos contrários ao Vietnã, além do amargo sabor do Watergate e da renúncia de Richard Nixon. Tal como o momento atual na dinâmica geopolítica, as pessoas estavam mergulhadas numa forte crise de insegurança, pois era uma fase de carência no que diz respeito aos processos de representação. Os cidadãos não se sentiam acolhidos, os desdobramentos da globalização reafirmavam a mola opressa favorável aos grandes conglomerados econômicos em detrimento das chamadas minorias e a crença nas instituições declinavam vertiginosamente. Diante do exposto, somos presenteados por um extenso estudo de personagens, diálogos politizados e uma representação espetacular da mídia jornalística, ao longo dos 124 minutos desta aula sobre o domínio da dramaturgia cinematográfica, material com potencial para debates sociológicos, filosóficos, psicológicos, antropológicos e outros campos de atuação da cientificidade humana, vibrante em Um Dia de Cão.

Foi nesse caldeirão de tensões que o cineasta Sidney Lumet dirigiu cuidadosamente esse clássico moderno hollywoodiano, escrito por Frank Pierson, dramaturgo embasado no artigo de P.F. Kluge e Thomas Moore, dupla inspirada numa história real, incomum e tragicômica, ocorrida no Brooklyn em 1972. Logo na abertura, somos expostos ao conjunto de cenas de um dia quente em Nova York, metrópole agitada, exposta em fragmentos e acompanhada pela canção Amoreena, de Elton John, única música do drama que dispensou textura percussiva em prol de um aprofundamento maior no realismo. É uma faixa que também toca no carro de Sonny Wortzik (Al Pacino), homem com planos mirabolantes ao lado de seu “comparsa” Sal (John Cazale), a personificação da ambiguidade e da incerteza psicológica na pele um personagem. Há um terceiro elemento que compõe o grupo, Stevie (Gary Springer), individuo que foge depois que percebe não ter força para dar conta do projeto de assaltar um banco para que Wortzik possa roubar o dinheiro necessário para a operação de transição de seu amor, Leon (Chris Sarandon).

Assim, o evento que deveria durar apenas alguns minutos se arrasta por longas horas dentro da agência bancária que se transforma em palco para situações bizarras, gerenciadas cirurgicamente pela direção eficiente do cineasta Sidney Lumet, um experiente contador de história que se fez durante a era posterior ao declínio dos grandes estúdios hollywoodianos. Para a composição da narrativa, o veterano contou com a direção de fotografia de Victor J. Kemper, eficiente na captação de imagens internas, no cenário transformado em um cubículo que mal continha as tensões internas e externas dos personagens em conflito. Cuidadosamente erguida, a cenografia de Robert Drumheller, gerenciada pelo design de produção de Charles Bailey, emprega ao desenvolvimento de Um Dia de Cão o tom realista ideal para que as figuras acossadas desenvolvessem o melhor de seus potenciais dramáticos. Da voz de assalto ao público formado externamente, a dupla de criminosos fica entre a bandidagem e o heroísmo, com a mídia externa sedenta por uma explosão pulsante ao longo de todo o filme.

Trajados pelos figurinos supervisionados por Anna Hill Johnstone, os protagonistas vão além do gesto na representação dos anos 1970. Das calças aos adereços, os personagens refletem com exatidão a época em que estão mergulhados. Do lado de fora estão o agente Moretti (Charles Durning), responsável pelas negociações, bem como as donas de casa curiosas, o grupo de estudantes que furam aula, os caminhoneiros passantes e outros observadores que se amontoam para assistir ao espetáculo da vida cotidiana, ali num momento incomum. Os jornalistas posicionados esperam o pior dos resultados, ansiosos pelas imagens que prometem manter a próxima edição do jornal aquecida e interessante. Um garoto entregador de pizzas aproveita o pequeno momento para dançar diante das câmeras, numa busca pela notoriedade de uma vida condenada ao comum, ausente de maiores privilégios. Compõem o ambiente externo a mãe de Sonny, interpretada por Judith Malina, ao telefone com o filho, e os policiais chamados para reforço dos coordenadores da ação que tem tudo para terminar tragicamente.

A narrativa, conectada com os elementos que regem o realismo, foi construída também no improviso. Havia uma estrutura basilar, mantida fielmente, mas ao passo que as filmagens avançavam, atores improvisavam e os seus diálogos adentravam o texto oficial, bem como situações que aconteciam inesperadamente e eram acatadas pela produção. Denúncias permeiam todo o texto narrativo de Um Dia de Cão, desde a história em si, uma crônica sobre oportunidades, opressão e a panorâmica apresentação dos resultados de uma sociedade erguida pela desigualdade, ao entoar de “Attica! Attica!” pelo personagem de Al Pacino, uma referência ao movimento policial ocorrido num centro de correção que não deu certo como o esperado e ocasionou a morte de 42 pessoas. A polícia, desmoralizada na época, é alvo da crítica do filme que não perde a oportunidade de crítica o Estado e a própria sociedade civil, tudo isso sem aderir ao panfleto, uma opção viável e legítima de posicionamento, mas que aqui poderia sublimar a qualidade do discurso cinematográfico em algo gritante (e confuso, barulhento) demais.

Expostas as questões estéticas e estruturais sobre Um Dia de Cão, um filme que ousou ao abordar um ponto de vista homossexual ainda não concebido pelo cinema até então, torna-se importante também compreender as questões de ordem interpretativa, vinculadas aos mecanismos que engendram a mídia jornalística na situação ilustrativa da narrativa, isto é, a cobertura de um assalto pela primeira vez na televisão. Ao aderir a proposta de um cenário externo ao esquema de estúdios, a produção permite a permeabilidade necessária entre o lado de fora e o ambiente interno, espaços que se complementam nesta trajetória sobre como estamos constantemente em defasagem emocional e numa busca por heróis que respondam aos nossos anseios cotidianos. Um Dia de Cão faz uma análise panorâmica deste cenário ideal para observações antropológicas sobre como estamos conectados com mecanismo mitológicos para a compreensão da nossa própria existência, em especial, dentro do angustiante capitalismo industrial que fere individualidades, demarca territórios confortáveis para uns e acossa outros.

Os heróis nos ajudam na ordenação do caos e explicam a procura por identificação, inerente a nós, seres humanos em processo de desenvolvimento constante. Sonny Wortzik funciona como um grito de liberdade, mesmo que temporária e fora dos padrões “éticos”. É a personificação da revolução que pulsa dentro de todos que buscam “um basta” para tantas questões que acompanham a humanidade há eras e não parecem alcançar a mudança almejada. Tudo isso, contemplado pela mídia, o quarto poder, onipresente no tecido social costurado diariamente em nossas vidas. Ela dita regras e conduz massas, para o bem ou para o mal, com possibilidade de investigar, denunciar, acusar, condenar e executar, tal como podemos observar em Um Dia de Cão e ainda mais no contemporâneo, versão vertiginosa do caos apresentado durante o filme. Responsável por alterar as experiências dos indivíduos, a mídia ao longo do tempo mudou a maneira como encaramos temporalidades, a percepção do mundo e a natureza social de nossas vidas numa era de representações definidas pela permeabilidade da indústria cultural. Sonny, Sal, os policiais e demais personagem representam tipos, aderidos ou rejeitados pelos espectadores.

Ademais, Um Dia de Cão nos permite refletir a mídia por vias diversas, sem ficar necessariamente no bojo das discussões negativas sobre como as influências do jornalismo podem prejudicar o olhar diante das informações sobre acontecimentos reais. Não podemos, no entanto, nos prender ao ideal de jornalismo ativo exclusivamente otimista, focado na ideia do cidadão ator-receptor de fenômenos sociais. Observado diacronicamente, o drama dirigido por Sidney Lumet nos permite reforçar que é preciso o constante senso crítico diante do exercício de qualquer expressão midiática da informação. Cada caso reflete uma condição e nem sempre podemos observar de maneira geral situações que pedem interpretações com variantes. Não há uma receita específica para contemplação do real e sua transformação em notícia. Temos algumas diretrizes, padrões, mas no contexto contemporâneo de relativização das coisas, precisamos investir em abordagens interdisciplinares para observação deste campo de ação necessário para a humanidade tecer a sua história, tal como proposto na abertura desta breve reflexão sobre o impactante discurso deste clássico do cinema moderno.

Um Dia de Cão (Dog Day Afternoon) – EUA, 1975.
Direção:  Sidney Lumet
Roteiro: Frank Pierson, baseado no artigo de P. F. Kluge e Thomas Moore
Elenco: Al Pacino, Amy Levitt, Beulah Garrick, Carmine Foresta, Carol Kane, Charles Durning, Chris Sarandon, Chu Chu Malave, Dick Anthony Williams, Dominic Chianese, Estelle Omens, Floyd Levine, Frank Piazza, Gary Springer, James Broderick, Jay Gerber, John Cazale, John Marriott, Judith Malina, Lance Henriksen, Lionel Pina, Marcia Haufrecht, Marcia Jean Kurtz, Penelope Allen, Philip Charles MacKenzie, Ron Cummins, Sandra Kazan, Sully Boyar, Susan Peretz, William Bogert
Duração: 125 min.

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