Crítica | Um Dia de Chuva em Nova York

Um Dia de Chuva em Nova York quase se tornou um filme perdido. Após as acusações de abuso sexual feitas por Dylan Farrow contra Woody Allen retornarem à mídia, a Amazon decidiu cancelar o lançamento do longa e encerrou um contrato que mantinha com o diretor para a realização de mais três filmes. Até que um acordo com distribuidoras permitiu que a película fosse exibida fora dos Estados Unidos. Não entrarei no mérito se devemos separar ou não a obra do artista, mas o fato é que Allen entrega um filme próximo dos seus últimos trabalhos, ou seja, com momentos que justificam o status de grande diretor que adquiriu e outros que exemplificam a perda da qualidade das obras recentes.

O filme apresenta o jovem casal formado por Gatsby (Timothée Chalamet) e Ashleigh (Elle Fanning). Os dois planejam uma viagem romântica a Nova York após a garota receber um convite para entrevistar o famoso diretor de cinema Roland Pollard (Liev Schreiber). No entanto, a aproximação de Ashleigh com figurões do cinema mudam o roteiro da viagem, obrigando Gatsby a aproveitar sozinho a cidade, o que resulta em encontros com amigos do passado, familiares e com a irmã de uma antiga namorada, Chan (Selena Gomez).

Desde os primórdios do cinema estadunidense, um dos grandes clichês do gênero romance é a chuva que molha a cidade momentos antes do casal principal dar o primeiro beijo ou se relacionar sexualmente, servindo como ferramenta para criar uma atmosfera de desejo. Como o título sugere, Allen se apropria desse conceito para debater aparências de pessoas supostamente românticas ou de casais felizes na fachada.

Perceba como Gatsby, quando perguntado se ama Ashleigh, gagueja durante a resposta e diz que sim, mas porque ela é uma pessoa adorável e bonita, jamais afirmando com certeza. Ou como Roland, um intelectual do cinema, recorre às estratégias mais clichês possíveis para paquerar a jovem. Outro exemplo está na cena que Gatsby encontra seu irmão e a noiva, descobrimento que, por trás da imagem feliz do casal, há uma enorme frustração.

Ou seja, a mensagem aqui está em como uma parcela grande da sociedade vê no amor uma obrigação e certas pessoas como um “partido” irrecusável, exemplificado na cena que o irmão de Gatsby diz que ele deve se casar com a namorada simplesmente porque ela é bonita, pouco importando o sentimento da relação. Para Allen, porém, o romance surge do inesperado e da atração intelectual.

Essa linha do roteiro funciona com precisão uma vez que o arco de Gatsby é justamente o do amadurecimento emocional e descobrimento do próprio romantismo, fugindo das aparências da família e assumindo a própria narrativa. Portanto, a temática jamais soa vazia, fazendo-nos passar pela mesma jornada do protagonista.

Já a direção faz o papel de criar uma atmosfera romântica, iluminando personagens com cores quentes, mas também de desejo, com o uso do vermelho pela direção de arte e figurino, estratégia que visa ressaltar como atração física e amor se confundem. Enquanto isso, a edição acerta ao intercalar os blocos de Gatsby e Ashleigh de maneira equilibrada, resultando em um ritmo agradável.

Porém, os problemas em Um Dia de Chuva em Nova York começam ao analisarmos Ashleigh. Enquanto Gatsby possui camadas e nuances, ela é o estereótipo da garota jovem, bonita e ingênua, que não percebe os flertes dos homens ao redor. Além disso, a personagem desequilibra o humor do longa, protagonizando cenas que apostam no bobo para fazer graça, como, por exemplo, os soluços dela momentos antes de sair com um galã de Hollywood.

Mesmo que fosse necessário um par problemático para que o protagonista amadurecesse, o roteiro, escrito por Allen, transforma Ashleigh em uma personagem exageradamente rasa. Já Chan, que poderia ser uma figura feminina marcante na obra, se resume a uma provocadora que parece existir para estimular a intelectualidade do personagem masculino, situação que acontece em outros filmes do diretor. No fim, temos Gatsby, um personagem interessante e bem desenvolvido, mas Ashleigh e Chan, que não recebem o melhor tratamento por parte do filme.

Isso se reflete, por exemplo, na performance do elenco. Timothée Chalamet personifica uma versão jovem de Woody Allen com charme, investindo em momentos de ironia inteligente e uma melancolia bem humorada. Já Elle Fanning tenta construir uma personagem ingênua, mas erra no tom, e Selena Gomez pouco faz com Chan, parecendo apenas uma versão de si mesma.

Um Dia de Chuva em Nova York traz reflexões inteligentes sobre amor e romance, mostrando como muitas pessoas aceitam relações por status, valorização da imagem pessoal e obrigação perante a sociedade. Porém, o enfraquecimento das personagens femininas impede que a obra ganhe substância.

Um Dia de Chuva em Nova York (A Rainy Day in New York) – EUA, 2019
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Elenco: Timothée Chalamet, Elle Fanning, Selena Gomez, Jude Law, Diego Luna, Liev Schreiber, Rebecca Hall, Griffin Newman, Kelly Rohrbach, Suki Waterhouse
Duração: 92 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.