Crítica | Um Dia de Fúria

Quem nunca teve vontade de exigir um preço justo em um supermercado? Ou, cobrar que o lanche servido em uma lanchonete fosse apetitoso como no anúncio? A rotina nos grandes centros urbanos parece moldada para enlouquecer o trabalhador, com o trânsito, barulho, serviços ruins e trabalhos estressantes. Portanto, no longa Um Dia de Fúria, é satisfatório ver o protagonista largando o carro a caminho do serviço e decidindo “eu vou para casa”. Quem nunca sonhou com isso? Ou seja, é fácil se identificar com a jornada de William Foster (Michael Douglas).

No entanto, o diretor Joel Schumacher constrói uma bem estruturada armadilha para o espectador. Superficialmente, William é um típico cidadão comum, trabalhador e pai de família. Aliás, é brilhante a escolha do roteiro de adiar o máximo possível a apresentação do nome do personagem. O texto está interessado naquele tipo de cidadão e não tanto no homem em si. Com o decorrer da narrativa, as camadas do personagem são descascadas e surge um ser violento, preconceituoso e intolerante. O cidadão de bem se revela um extremista. Aquele que melhor dialoga com o público é, na verdade, o vilão da história, sendo uma estupenda crítica social realizada através da construção do protagonista.

Dito isso, o roteiro de Ebbe Roe Smith mostra-se brilhante na construção de um fascista contemporâneo, ressaltando todo o perigo que esse tipo de pessoa representa. Vale ressaltar que, quando chamo William de fascista, não estou divagando sobre ele. O próprio texto estabelece isso na emblemática cena em que o protagonista visita uma loja de armas e é protegido pelo dono, um colecionador de itens nazistas. Através dessa estratégia, o roteirista destaca como o fascismo ainda existe na sociedade atual, exemplificando como, com uma certa dose insatisfação, um cidadão comum pode se tornar extremista. O trabalho de Michael Douglas também merece aplausos na construção do personagem, fortalecendo o arco de loucura do protagonista, interpretando-o com um olhar penetrante e semblante intransigente. 

Porém, William também é vítima de algumas situações. A identificação do público com certas cenas ocorre porque o protagonista realmente aponta problemas sociais pertinentes e a obra utiliza a jornada dele para realizar alguns comentários. Repare que uma criança o ajuda a manusear uma bazuca pela primeira vez, perguntando em seguida: “qual filme está filmando? ”. Em outra parte, a filha do personagem assiste a um desenho em que um gato tenta matar um rato com um porrete. Esses momentos revelam o culto à violência dos Estados Unidos, atingindo, inclusive, o público infantil. O efeito disso é óbvio: o surgimento de pessoas violentas. Desde a época do velho oeste, os atiradores eram cultuados como heróis, não à toa, o clímax de Um Dia de Fúria se assemelha aos términos de westerns, com um duelo entre mocinho e bandido, mostrando como a relação dos americanos com a violência é antiga.

Nesse debate sobre a sociedade, entra a brilhante ambientação criada por Schumacher, retratando o ambiente urbano como um lugar hostil, estressante e caótico. Ao priorizar planos médios, o diretor cria uma ligação entre os personagens e o ambiente que os rodeia, permitindo que a direção de arte, com seus espaços coloridos por tons exageradamente quentes, como o vermelho e o laranja, ressalte o perigo urbano. No terceiro ato, o roxo aparece na paleta de cores, ressaltando a falta de sanidade de William.

Além disso, outra estratégia visual inteligente é retratar a cidade frequentemente em obra, como na tomada inicial, destacando como as grandes metrópoles estão sempre mudando, mas jamais melhorando, como se fosse um processo interminável. Visando ressaltar esse caos urbano, o trabalho de som acerta ao ressaltar ruídos de máquinas, carros e gritos de pessoas. Já a trilha sonora, composta por James Newton Howard, recorre bastante ao violino, para destacar a face vilanesca do protagonista, e apresenta faixas com vários instrumentos de sopro, como o trompete, remetendo ao jazz, para evocar a atmosfera urbana.

Os problemas de Um Dia de Fúria surgem ao analisarmos o policial Martin Prendergast, interpretado com carisma pelo sempre ótimo Robert Duvall. Apesar de justificar seu papel dentro da narrativa, participando do conflito final, o arco de Martin se distancia de William, abordando questões familiares, desviando o foco do longa e falhando ao tentar aprofundar outros temas. Ademais, a resolução dos dilemas do policial é tão evidente e simplista que se apaga diante das reflexões sociais do longa. Além disso, o roteiro peca ao trazer algumas cenas que não levam a lugar algum, como aquela que o protagonista metralha uma cabine telefônica, ressaltando uma raiva de William que já estava bastante clara.

Mesmo com falhas, tudo o que Um Dia de Fúria se propõe a debater sobre a sociedade funciona. Valendo-se de uma ambientação excelente e um roteiro extremamente provocativo, Schumacher reflete sobre os supostos “cidadãos de bem”, pessoas tão perdidas dentro de suas próprias ilusões que ainda não perceberam que são os vilões da história.

Um Dia de Fúria (Falling Down) – EUA, França e Reino Unido, 1993
Direção: Joel Schumacher
Roteiro: Ebbe Roe Smith
Elenco: Michael Douglas, Robert Duvall, Barbara Hershey, Tuesday Weld, Rachel Ticotin, Frederic Forrest, Lois Smith, Joey Hope Singer, Raymond J Barry, D. W. Moffet, Steve Park, Kimberly Scott, James Keane
Duração: 113 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.