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Crítica | Um Dia, Um Gato

por Luiz Santiago
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estrelas 4

Os anos 1960 trouxeram para o cinema um criativo fôlego nas produções de todo o mundo. Do Japão a Cuba, as cinematografias nacionais tornaram-se exemplos vigorosos de experimentação e alinhamento da política ao produto cinematográfico. Expressivos no mundo inteiro, os chamados “Cinemas Novos” constituíram um filão artístico muitíssimo representativo para a história da sétima arte. Além disso, as produções de caráter crítico tornaram-se comuns e cada continente teve um filme ou cineastas que se destacaram por obras que equilibravam poesia, experimentalismo e crítica social ou profunda análise da alma humana. Na República Tcheca, um dos muitos exemplos desse período é o filme Um Dia, Um Gato (1963), dirigido por Vojtech Jasny.

A história se passa em um vilarejo que recebe uma comitiva circense, da qual fazem parte um mágico, um gato que usa óculos e a própria Juventude. O tal gato possui poderes mágicos e, quando seus óculos são retirados, o felino passa a enxergar as pessoas pelas cores que lhes definem a personalidade: os mentirosos são roxos, os ladrões são cinzas, os falsos são amarelos e os apaixonados são vermelhos. Na primeira apresentação do mágico ao público do vilarejo a Juventude retira os óculos do gato e a plateia, espantada por ver as pessoas tingidas de diversas cores, foge do local. No pandemônio, o gato escapa. Caberá ao um professor local e sua turma da terceira série encontrar o animal antes que ele caia nas mãos de homens inescrupulosos daquela localidade.

A obra traz consigo um ar inocente que jamais é encoberto pela crítica feita às aparências e ao conservadorismo. Além disso, pode-se ver algo muito comum nas produções do Leste Europeu: o contato do homem com a materialidade, característica que acrescenta ao filme ares de conto de fadas, fábula, história infantil, e isso tudo é ainda intensificado pela música que, mesmo em excesso e não muito bem adequada a algumas cenas, encanta o espectador e finaliza o clima sobrenatural e bucólico da fita.

A figura do professor-diretor do Colégio, única pessoa na cidade que tem licença para matar animais e que mantém um museu de bicho empalhados, é a transposição do poder do Estado para a localidade. Com efeito, o personagem é a maior autoridade que vemos no filme, embora outros setores burocráticos e insinuações hierárquicas possam ser vistos no discurso de apresentação do filme, que é encabeçado pelo capelão do vilarejo, um imigrante grego de muitas histórias.

Os efeitos especiais são um espetáculo à parte, e mesmo não se ajustando totalmente ao contexto central da obra (aparecem “encaixados” em alguns momento), sua força diegética é tão grande que convence o espectador mais rigoroso. A ideia da coloração das pessoas por sua personalidade foi uma ótima sacada do roteiro de Jirí Brdecka e é vista na tela com uma certa estranheza mas muita pertinência dramática. Deve-se levar em conta o período em que foi realizado o filme e ver que a tecnologia usada para coloração ainda sofria muitas mudanças, testes e adequações.

Filmado alguns anos antes da Primavera de Praga, Um Dia, Um Gato também expõe os setores políticos, seja por sua existência ou sua ausência do cotidiano, tendo lugar expressivo a fiscalização e a corrupção. A “Revolução” que se dá no filme não usa a força ou derruba o sistema de produção do vilarejo, mas expõe publicamente os defeitos e os erros dos habitantes, até mesmo do professor-diretor, embora este não os assuma e se limite a ressaltar a nobreza e o impacto das confissões de outros camaradas. Esta “Revolução” é empreendida pelas crianças que desaparecem em protesto ao sumiço do gato — que elas sabiam estar nas mãos de pessoas que não queriam bem ao animal. As cenas de busca que precedem a “desobediência civil” dos pequenos é uma das coisas mais belas já vistas no cinema, com sequências filmadas numa floresta local contendo ingredientes que vão do humor à poesia visual. O filme também tem cenas musicais, danças, pinturas de gatos em cartazes e referências metalinguísticas.

Um Dia, Um Gato é um filme simples em sua forma, uma crônica muito bem contada (inclusive pela opção de usar um narrador que se dirige à câmera, fazendo do espectador um cúmplice ansioso pela história) e plasmada com imensa docilidade na grande tela, um exemplo de como questões sociais, políticas e antropológicas podem ser vistas por um ângulo fantasioso sem que percam a força ou a importância.

Um Dia, Um Gato (Az prijde kocour, Checoslováquia, 1963)
Direção: Vojtech Jasny
Roteiro: Jirí Brdecka, Vojtech Jasny e Jan Werich
Elenco: Václav Babka, Jirina Bohdalová, Pavel Brodsky, Vlastimil Brodsky, Vlasta Chramqstová
Duração: 91min.

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