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Crítica | Um Drink no Inferno

por Ritter Fan
445 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 3,5

Aviso de SPOILER: Escrever sobre Um Drink no Inferno sem revelar partes importantes da trama é uma tarefa impossível. Assim, se você não viu o filme e deseja assisti-lo sem saber de nada, leia essa crítica somente depois.

Um Drink no Inferno é um filme peculiar. Na verdade, é até possível dizer que são dois filmes diferentes costurados como um só. E seria também perfeitamente possível gostar de uma parte e não da outra, amar tudo ou detestar tudo.

Mas, em princípio, o mesmo poderia ser dito, por exemplo, do incontestável clássico Psicose, de Alfred Hitchcock. A comparação é óbvia e ela nunca me saiu da cabeça desde a primeira vez que vi o filme dirigido por Robert Rodriguez, protegido de Quentin Tarantino (que escreveu o roteiro).

Afinal de contas, Psicose é um filme que, em seus 40 minutos iniciais, trata única e exclusivamente do furto de dinheiro pela secretária Marion Crane (Janet Leigh) e sua viagem do Arizona para a Califórnia para encontrar-se com Sam Loomis (John Gavin). Acontece que, no meio do caminho, ela para em um motel e todos nós sabemos o que acontece, não é mesmo? Hitchcock brinca com a divisão total de seu filme em, literalmente, dois gêneros diferentes ligados apenas por um inteligente roteiro e uma direção impecável.

Um Drink no Inferno, guardadas as devidas proporções (não sou louco de sequer pensar em comparar Hitchcock com Rodriguez), funciona exatamente da mesma maneira: ao longo de exatamente uma hora de projeção, o que vemos é a fuga dos irmãos Seth (George Clooney) e Richie (Quentin Tarantino) pelo Texas, com tiroteios, incêndios, sequestros e estupro no meio do caminho. É, literalmente, um road movie protagonizado por ladrões e assassinos.

No entanto, no momento em que Seth, Richie e suas vítimas Jacob (Harvey Keitel), Kate (Juliette Lewis) e Scott (Ernest Liu) chegam ao bar Titty Twister no México e testemunham a sensual dança da mais que voluptuosa (e genialmente batizada) Santánico Pandemónium (Salma Hayek), o filme se transforma imediatamente em um trash B envolvendo vampiros monstruosos, muitas estacas, desmembramentos e mortes de toda natureza em um banho de sangue interminável, além de personagens humanos ainda mais estranhos que Seth e Richie, como Sex Machine (Tom Savini), que tem uma arma na virilha em formato de pênis, e o perturbado sobrevivente do Vietnã Frost (Fred Williamson).

A transformação de um gênero para o outro não é algo que se possa dizer que é corriqueiro ou trivial. Muito ao contrário, na verdade, já que são poucos os diretores e roteiristas que tentam esse tipo de alteração radical, pois mexe com as expectativas de todos, frustrando muitos. Tarantino, que é um roteirista e diretor que consegue transitar muito bem “entre gêneros”, ainda não havia tentado nada tão forte, mas seu roteiro consegue se sustentar muito bem, mesmo quando somos quase expelidos de nossa suspensão de descrença pelo aparecimento dos vampiros.

E Tarantino faz isso introduzindo bizarrices como o personagem Richie, vivido – muito bem, aliás – por ele próprio. Apesar de Seth ser um ladrão e assassino, perto de Richie ele é o “mocinho”, já que seu irmão mais novo é um pervertido paranoico que tem prazer em estuprar, mutilar e matar. O nervosismo gerado pela mera presença de Richie nas cenas é  muito bem construído no roteiro, especialmente suas interações libidinosas com Kate. E, quando já estamos meio que acostumados com as loucuras que testemunhamos, Tarantino desce mais um degrau nos apresentando ao surreal bar Titty Twister. Quando chega a hora da revelação dos vampiros, nós podemos aceitá-los com um certo grau de facilidade, pois é apenas mais um degrau abaixo do ponto que estávamos. Ok, mais alguns degraus, mas vocês entenderam o que quis dizer, não?

E, se alguém tem alguma dúvida que estamos vendo um “legítimo Tarantino”, a cena inicial, antes dos créditos, logo dissipa a questão. Vemos o policial Earl McGraw (Michael Parks, em papel que reprisaria em Kill Bill) entrar em uma loja de conveniência em posto de gasolina e ter um longo diálogo com o caixa (John Hawkes). Nessa conversa, um universo inteiro é criado, dando-nos a dimensão de que o filme que vemos se passa dentro de um mundo maior e não confinado à situação que está diante de nossos olhos. É, sem dúvida, o momento mais Tarantino do filme, ainda que várias conversas posteriores – mais rápidas – mantenham o estilo até que a loucura vampiresca trash comece sem dó nem piedade e qualquer semblante de roteiro desapareça.

A direção que Robert Rodriguez faz é uma das melhores de sua carreira. Segura, sem muitas invencionices ou ângulos estranhos, com uma direção de arte que emula eficientemente o espírito do tipo de filme que ele homenageia. Maior destaque vai para sua montagem (ele próprio monta seus filmes), que não nos deixa perder o ritmo e nos ajuda a aceitar a transição de um gênero para o outro.

A escalação é de primeira. Clooney, em seu primeiro papel de destaque em um longa, funciona bem como o homem atormentado pelo fato de que precisa proteger seu irmão a todo custo, ainda que isso só lhe cause problemas. Harvey Keitel, com a serenidade de Mr. Wolf, nos convence que um dia foi pastor e que, com a morte de sua esposa, perdeu a fé. Lewis, apesar de nunca ter sido uma grande atriz, transita muito bem entre dois universos: o de garota aparentemente pudica e o de mulher que sente forte atração pelo perigo. E Tarantino, claro, como mencionado, faz seu maluco habitual que, nesse caso, chega a dar nojo.

Enfim, Um Drink no Inferno é uma brincadeira divertida e dinâmica que, apesar de não acrescentar nada para ninguém em termos puramente intelectuais, funciona muito bem tanto como dois filmes diferentes quanto como um todo maior que a soma de suas partes.

Um Drink no Inferno (From Dusk Till Dawn, EUA – 1996)
Direção: Robert Rodriguez
Roteiro: Quentin Tarantino
Elenco: George Clooney, Quentin Tarantino, Harvey Keitel, Juliette Lewis, Ernest Liu, Salma Hayek, Cheech Marin, Danny Trejo, Tom Savini, Fred Williamson, Michael Parks, Brend Hillhouse, John Saxon, Marc Lawrence
Duração: 108 min.

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21 comentários

Isauraluiza 31 de dezembro de 2019 - 19:24

Não vou mentir, nunca terminei o filme e só gosto da dança da Selma Hayek (é isto mesmo?).
E vi os minutos iniciais do segundo ou terceiro filme no qual saindo do dito bar quatro “cowboy vampiros” que sobrevive a uma saraivada de balas dos policiais e aí vi que não era a minha.

Claro qie no futuro poderei dar uma segunda chance, mas os motivos é rever aquela dança…

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𝕵𝖆𝖈𝕶 ⚡𝖎𝖑𝖘𝖆𝖓 13 de fevereiro de 2019 - 17:34

Definitivamente esse filme não para os fern kids da geração atual.

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planocritico 13 de fevereiro de 2019 - 17:46

“Fern kids”???

– Ritter.

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italo 13 de fevereiro de 2019 - 01:05

Oi, me tira uma curiosidade ? Por que a cena inicial vemos um “legítimo Tarantino”?

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planocritico 16 de fevereiro de 2019 - 23:20

Porque uma das grandes marcas de Tarantino é trabalhar looooongos diálos que parecem nonsense, mas que, na verdade, serve para criar aquele “mundo” do filme que estamos vendo. É o que acontece no começo aqui.

Abs,
Ritter.

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Fábio 4 de junho de 2016 - 15:44

Além da série esse filme teve duas continuações, formando obviamente uma trilogia, mas com outro elenco e outros diretores. Alguém sabe dizer se eles valem a pena?
Todos esses filmes estão disponíveis na netflix, que também produziu a série.

Responder
Fábio 4 de junho de 2016 - 15:44

Além da série esse filme teve duas continuações, formando obviamente uma trilogia, mas com outro elenco e outros diretores. Alguém sabe dizer se eles valem a pena?
Todos esses filmes estão disponíveis na netflix, que também produziu a série.

Responder
planocritico 4 de junho de 2016 - 18:43

Sim, são dois outros, um até com a Sônia Braga! Mas são muito ruins. Só vale se você realmente quiser “completar” tudo sobre Um Drink no Inferno.

Abs,
Ritter.

Responder
planocritico 4 de junho de 2016 - 18:43

Sim, são dois outros, um até com a Sônia Braga! Mas são muito ruins. Só vale se você realmente quiser “completar” tudo sobre Um Drink no Inferno.

Abs,
Ritter.

Responder
Junito Hartley 4 de outubro de 2015 - 22:44

Vi o filme pela primeira vez ontem, gostei somente da primeira parte, no momento que apareceu os vampiros eu me perguntei o que que esses caras usam ou usou pra mudar a historia do nada desse jeito heuaheuhaea

Responder
planocritico 5 de outubro de 2015 - 14:56

@Junito_Silva:disqus, a mudança completa de estilo costuma mesmo afastar muita gente, mas eu adorei. Achei genial e original, além de ser uma bela homenagem – por vias transversas – à Hitchcock e seu Psicose.

Abs,
Ritter.

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nanda 5 de outubro de 2015 - 17:41

Filme lixo, de loucos na moral!

Responder
planocritico 5 de outubro de 2015 - 18:01

Ah, @disqus_YA3DWOdVWm:disqus, é divertido, vai! 🙂

Abs,
Ritter.

Responder
nanda 5 de outubro de 2015 - 18:56

Achei muita loucura, muita loucura meeesmo!

Responder
planocritico 6 de outubro de 2015 - 02:24

Mas isso é mesmo!

Abs,
Ritter.

Lucas Maia 24 de março de 2015 - 18:29

Ah esse filme.. Lembro até hoje quando assisti pela primeira vez. Quando os vampiros começaram a aparecer, eu falei: “WTF?”
Mas eu realmente gostei muito. Sempre gostei de filmes thrashs assim e esse é mais uma ótima adição ao gênero (claro que a segunda parte né).
Já a primeira parte do filme é uma produção Tarantino realmente, principalmente pela cena do tiroteio no começo.
No geral, adorei o filme e ainda estou reunindo coragem pra ver a série, porque tenho muita coisa pra ver ainda kk
ps: Bela crítica, como sempre 😀

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planocritico 25 de março de 2015 - 12:42

@disqus_GLtJhzSnO0:disqus, eu me divirto com esse filme sempre que vejo. E, da primeira vez vi na completa ignorância e realmente me surpreendi com os vampiros trash. A sensação foi muito boa.

Olha, a série, pelo menos a primeira temporada (temos a crítica aqui no site) é uma versão estendida do filme. Acho que você vai gostar, pois ela cai na mesma categoria de divertimento descompromissado.

E obrigado pelo elogio!

Abs,
Ritter.

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Lucas Bueno 7 de dezembro de 2014 - 16:28

O filme é muito bom até a chegada no Titty Twister, no momento em que os vampiros se revelam o filme se transforma em um verdadeiro trash. Acabei nao curtindo muito, se tivesse sido apenas um road movie, sem vampiros (ou com vampiros nao escrotos e mal feitos) teria sido ótimo.
A cena inicial com o assalto a loja de conveniencia é uma das melhores do filme, achei simplesmente fantástico todo aquele tiroteio.
Vale a pena assistir pela atuaçao de Clooney e Tarantino (que como voce disse, chega a dar nojo).

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planocritico 8 de dezembro de 2014 - 14:58

@disqus_brX6lh0nnp:disqus, esse filme causa mesmo essa sensação. A mudança de tom e de ritmo é brusca e gigantesca, mas esse foi o propósito. Conheço muita gente que, como você, não conseguiu “entrar na brincadeira” do roteiro trash de Rodriguez e eu consigo entender perfeitamente. Mas Rodriguez mexe com nossas expectativas, vendendo uma coisa e entregando outra. É uma experiência no mínimo interessante.

Mas concordo que a sequência inicial no posto de gasolina e a interação entre Clooney e Tarantino são os pontos altos do filme.

Já viu a série de TV baseada no filme e produzida pelo próprio Rodriguez? Temos a crítica de cada episódio aqui no site: https://www.planocritico.com/tag/um-drink-no-inferno-1o-temporada/

Abs, Ritter.

Responder
Lucas Bueno 9 de dezembro de 2014 - 17:46

Nao assisti nao, vale a pena? É melhor que o filme?

Responder
planocritico 9 de dezembro de 2014 - 17:54

Olha, se você quiser uma série boba e descompromissada, com muitos vampiros trash, é uma boa pedida. A primeira temporada é uma espécie de versão estendida do filme, com significativo aumento da mitologia vampiresca. Eu gostei do resultado final. Se você tiver Netflix, ela está disponível lá.

Abs, Ritter.

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