Crítica | Um Elefante Sentado Quieto

Um Elefante Sentado Quieto é sem dúvidas um dos filmes mais pessimistas já feitos. São planos fechados, desfocados, tramas paralelas, todas caminhando em direção ao abismo, com a convicção de um artista já abatido com o mundo. Se o filme tem algum ponto positivo, certamente é sua sinceridade, a maneira espontânea que Hu Bo passa sua tese à respeito de uma China partida, pessoas debilitadas seguindo um caminho sem rumo. São quatro horas de desalento, de um único tom, uma espiral sufocante que é incapaz de dar voz aos protagonistas ou alguma chance de reação.

São quatro histórias que se encontram e desencontram sem qualquer cerimônia: um garoto que matou o bully sem querer no colégio e decide fugir, o irmão mais velho do menino morto que decide ir atrás do assassino, uma estudante que se envolve com o diretor, e um senhor de idade que é despejado de casa pela família e resolve passear com o cachorro. De quatro tragédias o filme nasceu, e nunca de lá poderão sair. Me encanta essa visão autoral quase biográfica de um diretor que consegue imprimir sua visão de mundo no filme (Hu Bo infelizmente veio a suicidar-se após as gravações), mas a maneira claustrofóbica e morna de abordar as tramas não é suficiente para agradar, é um filme exaustivo por natureza e seu tratamento também é uma série de repetições, ao ponto que desastres se acumulam e você não consegue mais importar-se com o que acontece.

O filme é excessivamente claustrofóbico, os personagens não conseguem observar nada além da própria realidade, dando vazão ao desconforto causado durante qualquer encontro de tramas. Muitos planos-sequências são usados para demarcar essa jornada desgastante e pessoal, e tudo isso vai acumulando ao espectador esse sentimento incômodo. A vontade do autor é a de o tempo todo reduzir seus protagonistas à miséria, sem dar chance de reação ou alguma esperança de algo melhor, nem mesmo o elefante do título, que seria a utopia buscada por cada um deles. É tanta lástima que quase tudo vai sendo esquecido, mesmo a tentativa de articular uma reação em cadeia dando a entender que cada um é um pouco culpado pela sofrência do outro é deixado de lado para retificar a jornada linear dos personagens.

Triste pensar que talvez todas as escolhas tenham sido as mais sensatas para transmitir o desconforto que o filme deveria reproduzir. Certamente é desgastante, o espectador é incapaz de sair da sessão sem ter mudado, mas a duração já é o bastante para o filme não valer a pena, principalmente por tudo que o filme resolve expor de ruim seja, depois de algum tempo, mais do mesmo. As poucas mudanças de tom fazem o impacto de tudo ser insuficiente, uma pena pensar que é uma estreia promissora de um diretor que infelizmente já nos deixou. É um belo experimento, mas não o bastante.

Um Elefante Sentado Quieto (大象席地而坐) – China, 2018
Diretor: Hu Bo
Roteiro: Hu Bo
Elenco: Yu Zhang, Yuchang Peng, Wang Yu Wen, Congxi Li, Xiang Rong Dong, Guo Jing, Zhenghui Ling, Xiaolong Zhang, Manzi Zhuyan
Duração: 230 mins.

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.