Crítica | Um Estranho no Lago

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estrelas 4

O princípio do diretor e roteirista de O Estranho no Lago, Alain Guiraudie, é explorar o fascínio humano pelo insólito (nesse caso, especialmente o fascínio masculino), a exposição de um lado da pulsão homossexual há muito superado, mas que ainda hoje encontra representantes por aí, e, principalmente, a revisão de um gênero através dos ingredientes cinematográficos mais simples possíveis, só que executados com primazia – o que realmente faz de O Estranho no Lago um grande filme.

O verão é a atmosfera e a localização no tempo desse drama sexual. Tudo acontece em cerca de três semanas e basicamente temos um lago isolado, cercado por um bosque e pequenas elevações, onde encontros sexuais entre homens acontecem livremente. O lago e seu entorno é uma espécie de açougue a céu aberto ou um bosque onde a caça por sexo casual é a principal atração – e essa denominação de “caça” acaba tendo um sentido real no filme, já em seu desfecho.

Há basicamente dois momentos dramáticos na obra. O primeiro, a introdução cênica e simbólica do espaço, o sexo (às vezes explícito, às vezes sugerido), as motivações rasas dos homens que visitam o lago e o escancarar daquele que parece ser o único elemento ativo em suas vidas: o sexo por vezes irresponsável e sempre sem maiores compromissos. Isso inclusive é assunto de uma conversa entre Henri e Franck, quando o primeiro chama a atenção do mais jovem para “outras coisas” como a amizade e a companhia, sem necessariamente a intensão sexual como premissa (falaremos um pouco mais à frente sobre as implicações dessa visão).

A própria personagem de Henri foi claramente construída para mostrar esse outro lados das intenções comumente aceitas naquele espaço de “sexo por instinto”, o que também não significa que é um lado isento de desejos, como descobrimos na eletrizante cadeia de eventos ao final da película.

O segundo momento é quando vemos desenvolver-ser o medo e a estranha paixão de Franck por Michel, já com a causa do suspense ativa e o medo em crescendo, fator engrossado pela presença da polícia, três dias após o desaparecimento de Pascal. Nesse ponto, o roteiro até então simples de Alain Guiraudie ramifica-se em uma rede incômoda de possibilidades, a maior parte delas pendendo mais para conceitos e conflitos ético-morais ou ideológicos do que para questões unicamente internas à trama, como a paixão, as transas, o perigo, a morte.

É então que as já ditas questões há muito superadas ganham força nas entrelinhas: a promiscuidade, o perfil do gay assassino, a pouca importância dos próprios gays para o que acontece à sua volta ou com pessoas “como eles”, todas essas denominações reducionistas e de cunho possivelmente homofóbico são explorados por Alain Guiraudie, que faz de tais denominações o espírito da segunda parte do filme. O lago se torna uma espécie de purgatório, um local entre o inferno da morte e da acusação e o paraíso do prazer e de paixões rápidas.

Essa discussão segue até o último momento, especialmente nas últimas cenas, onde o local da caça pelo prazer se torna em um local da caça para a manutenção do prazer através da morte. Para Michel, um homem reservado em relação à sua vida particular, matar parceiros ou possíveis ameaças ao seu “estilo de vida” é uma forma de manter uma existência de prazer sem interferências. Ou, numa análise mais dramática, sua ação como possível serial killer é sempre em defesa de algo além do assassinato: sua vida sexual.

É dentro dessa perspectiva que todo o enredo de Um Estranho no Lago ganha força, profundidade e sentido. É certo que boa parte dos espectadores não conseguirão olhar além da carne e do encadeamento aparentemente gratuito dos fatos, mesmo não sendo preciso muito para conseguir ver além. Até a repetição de planos como a chegada do carro de Franck ao estacionamento improvisado próximo ao lago ganha um significado simbólico no filme e diz bastante sobre sua posição em relação àquele lugar. É preciso, portanto, buscar o substrato que compõe aquela relação mista de voyeurismo, desejo e realização de desejo no cotidiano dos estranhos no lago. Caso contrário, o filme parecerá ao público aquilo que ele definitivamente não é, mas algo do qual certamente será chamado: um pornozinho gay barato com pinta de suspense hitchcockiano.

Um Estranho no Lago (L’inconnu du lac) – França, 2013
Direção: Alain Guiraudie
Roteiro: Alain Guiraudie
Elenco: Pierre Deladonchamps, Christophe Paou, Patrick d’Assumçao, Jérôme Chappatte, Mathieu Vervisch, Gilbert Traina, Emmanuel Daumas, Sébastien Badachaoui, Gilles Guérin, François-Renaud Labarthe
Duração: 100 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.