Crítica | Um Filme Falado

um-filme-falado PLANO CRITICO MANOEL DE OLIVEIRA

Um Filme Falado (2003) é uma espécie de continuação — agora com uma abordagem mais teórica e um argumento mais bem definido sobre a civilização — do que o cineasta Manoel de Oliveira fizera em ‘Non’, ou A Vã Glória de Mandar (1990), ou seja, uma visão histórica que não se ressente de seu caráter didático e ao mesmo tempo pessoal, ligando-se a algum personagem com funções de “narrador”, fundindo-se a um ambiente mais mundano, com opiniões diversas sobre a sociedade, a língua, a História do mundo e a cultura dos povos, partindo sempre da visão eurocentrista, algo que o cineasta nunca negou… e nem havia por quê.

O título do filme mais o intertítulo exposto desde o início — “em julho de 2001 uma menina acompanhada de sua mãe, distinta professora de História, atravessa milênios de civilização ao encontro do pai” — entrega tudo o que o espectador precisa saber sobre o ritmo e o caráter de abordagem do roteiro. Isso e o fato de ser um longa de Manoel de Oliveira, que tem por objetivo abordar os novos rumos da civilização (no sentido Universal), dos acordos e status da sociedade europeia em tempos de incremento da globalização.

O ambiente é propício em tudo e deve ser observado em sua mais absoluta simplicidade pelo espectador. A viagem num cruzeiro, desbravando mares, conhecendo novos lugares, flerta com as bravatas das Grandes Navegações. A historiadora vivida por Leonor Silveira é aquela que possui o conhecimento, mas não a vivência e aproveita a oportunidade de ir visitar o marido em Bombaim para explorar as ruínas clássicas da Europa e do norte da África ao lado de sua filha, que serve como motivação narrativa extremamente didática (e que deve parecer “chata” para muitos espectadores). A historiadora comenta os percalços do mundo, fala sobre guerras, emite alguns juízos de valor e interpretação sobre o que é e como se faz a História, expondo uma espécie de temporalidade e estilo de registro dessa área do conhecimento que o diretor sabia que estava em seus últimos suspiros.

Em dado momento, o roteiro apresenta os novos atores sociais, os novos destaques desse mundo: uma cantora (Irene Papas, em seu último filme), uma empresária (Catherine Deneuve) e uma modelo (Stefania Sandrelli), trio que recebe fino tratamento do comandante (John Malkovich) e com quem troca confidências, histórias sobre a vida, sobre seus afazeres, amores e uma visão mais rasa do mundo, revestida de profundidade que pouco ou nada significa. Na quietude daquela parte do navio, com uma bela e aconchegante fotografia, além de um aparente “beco sem saída” em termos de enredo, o diretor conclui o seu argumento. O mundo e a visão da História positivista foi apresentado, assim como o mundo dos “novos mitos e lendas“, das novas atrações e visões da Civilização. E como tudo na História do mundo, é o momento de algo chegar ao fim.

Misto de E La Nave Va e Titanic, o final de Um Filme Falado é o resultado de algo que foi construído em tela, que estava ali cheio de pistas mas que talvez tenha passado batido pelo espectador. Línguas, narrativas, ocupações e aquilo que é considerado “importante” ou “interessante” para uma sociedade são rearranjados por esta Nova Era. E através de guerras, desprezo estatal ou simples abandono das pessoas, aquilo que antes tanto apreço e relevância tinha simplesmente deixa de fazer sentido. E assim como uma certa historiadora positivista que tentava explorar, em seus últimos dias, o que sobrara do início da civilização, desaparece do mapa. Sem deixar descendentes. O mundo agora pertence a uma outra classe de atrações. A fala, a atenção, a salvação está na fama, na moda, nas corporações, nos bajuladores que comandam o mundo. Em tempos de União, segundo Oliveira, não há lugar para História e a melhor coisa a se fazer é matá-la de uma vez e inventar qualquer coisa para tomar seu lugar. Um olhar para as notícias, ideias, compartilhamentos e estranhas defesas de indivíduos em nossa contemporaneidade mais do que provam isso.

Um Filme Falado (Portugal, França, Itália, 2003)
Direção: Manoel de Oliveira
Roteiro: Manoel de Oliveira
Elenco: Leonor Silveira, Filipa de Almeida, John Malkovich, Catherine Deneuve, Stefania Sandrelli, Irene Papas, Luís Miguel Cintra, Michel Lubrano di Sbaraglione, François Da Silva, Nikos Hatzopoulos, Antònio Ferraiolo, Alparslan Salt, Ricardo Trêpa, David Cardoso, Júlia Buisel
Duração: 96 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.