Crítica | Um Herói de Brinquedo

O Natal é, para muitas pessoas, uma época de reparação. De acordo com o discurso de muitas campanhas publicitárias, é a “hora de transformar nossas emoções em presentes”. No geral, as pessoas celebram constantemente o culto ao consumo, em detrimento da reflexão sobre a sua própria existência, bem como a nossa relação com o coletivo. Filhos distantes resolvem comprar um bom presente para se desculpar da ausência diante dos pais. Maridos infiéis acreditam que uma bela joia permitirá uma sessão de esquecimento para as suas esposas traídas. Pais egoístas e pouco responsáveis usam os brinquedos da moda para atrair os filhos esquecidos ao longo de todo o ano. Um Herói de Brinquedo faz parte do último exemplo.

Dirigido por Brian Levant, cineasta que teve como direcionamento, o roteiro de Randy Kornfield, traz Arnold Schawnegger como um homem de negócios supliciado pelo Natal. Ao longo dos 89 minutos de produção, acompanhamos dois pais numa disputa acirrada pelo brinquedo da “hora”, isto é, o Turbo Man, presente adequado para crianças no Natal. Numa sátira bem sucedida ao consumismo natalino, Howard Langston (Schawnegger) e o carteiro Myron Larabee (Sinbad) vão digladiar em plena arena natalina, numa luta para saber quem conquistará um exemplar do brinquedo desejado por seus respectivos filhos.

O carteiro tem lá as suas razões para querer obstinadamente o brinquedo, mas como Howard é o centro da narrativa, compreendemos o seu desespero. Ele é pai de Jaime (Jake Lloyd), um garoto que não se importa em ter um pai bem sucedido, mas ausente. Ele esquece os compromissos, na maioria das vezes não consegue cumpri-los. A última que o filme nos mostra é a ausência no torneio de karatê do filho, algo que a narrativa tenta nos dizer que é mais importante que o brinquedo. Howard ainda tem outro problema: reconquistar o amor e a confiança de Liz (Rita Wilson), sua esposa, mulher cansada das desculpas cotidianas do marido, atraída pelo charme do vizinho Ted (Phil Hartman), homem que ganha cada vez mais espaço na vida da sua “amada”.

Diante do exposto, Howard encontra-se prestes a perder o filho, a esposa, isto é, a sua família, relegado a viver como um “solitário”. O brinquedo é a sua estratégia para reconquistar o filho e, por sua vez, a esposa. Assim, Um Herói de Brinquedo vai nos mostrar os desafios desta trajetória cheia de confusões, uma narrativa que visualmente, cumpre adequadamente as regras da cartilha hollywoodiana. Em função do seu roteiro com parcos elementos dramatúrgicos de boa qualidade, resta para a equipe técnica, a tarefa de ornamentar os espaços com símbolos natalinos, algo organizado pelo design de produção de Leslie McDonald, responsável pelo “tom” mágico do Natal na produção. As imagens captadas pela direção de fotografia de Victor J. Kemper cumprem com o básico, juntamente com a condução musical de David Newman, adequada para o tipo de narrativa.

Todos os elementos justapostos, por sua vez, não são suficientes para tornar o filme um ótimo entretenimento inteligente. É apenas um divertido retrato do Natal, memorável por sua popularidade e pelo apelo midiático do protagonista. Lançado em 1996, Um Herói de Brinquedo teve grande sucesso comercial, apesar do fracasso crítico. Se talvez Arnold Schawnegger tivesse um talento dramático maior, o filme ganhasse tons melodramáticos mais interessantes. No entanto, por ser uma narrativa que mescla ação e aventura, uma atuação extremamente profunda e compenetrada talvez não fosse compatível com os níveis dramáticos do roteiro. Em seu desfecho, fica a mensagem de amor e importância da família, palavras-chave basilares para as narrativas que fazem parte do esquema de produção dos filmes natalinos anuais.

Um Herói de Brinquedo (Jingle All The Wall, Estados Unidos – 1996)
Direção: Brian Levant
Roteiro: Randy Kornfield
Elenco: Arnold Schwarzenegger, Daniel Riordan, E.J. De La Pena, Harvey Korman, Jake Lloyd, James Belushi, Jeff L.Deist, Justin Chapman, Laraine Newman, Martin Mull, Phil Hartman, Richard Moll, Rita Wilson, Robert Conrad, Sinbad
Duração: 88 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.