Crítica | Um Homem, Uma Mulher

Um Homem, Uma Mulher (1966) é uma das muitas provas de que a falta de dinheiro não é necessariamente um empecilho para a realização de um excelente filme, basta o diretor e sua equipe transformarem as dificuldades que o pequeno orçamento traz em prol da narrativa e do fortalecimento da obra. E foi justamente isso que Claude Lelouch fez neste seu primeiro grande sucesso, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e de Roteiro Original, além de tantos outros prêmios e merecido prestígio por apresentar uma história de amor sob uma perspectiva singela, emotiva, quase como uma observação entre despreocupada, ansiosa e esperançosa do mundo, do passado e presente do piloto Jean-Louis Duroc (Jean-Louis Trintignant) e da assistente de direção e roteirista Anne Gauthier (Anouk Aimée).

A falta de recursos definiu uma grande quantidade dos melhores elementos do filme, a começar de sua sempre lembrada direção de fotografia, com as cenas em cores representando as lembranças dos personagens e as cenas em preto e branco (que não são exatamente preto e branco) ou sépia representando diferentes emoções do presente. Para narrar esta história que mostra dois indivíduos reencontrando o amor após cada uma das partes ter perdido o seu parceiro anterior, Lelouch usou e abusou das emoções que ele poderia conseguir através da imagem, do som (cuja edição e mixagem aparecem no filme como um experimento, mas na verdade surgiram dessa forma por conta do baixo orlamento) e de maneira ainda mais marcante, através da trilha sonora, que identifica espaços e atitudes, reforça o estado de espírito de um personagem ou ajuda a narrar uma cena (vide o bloco brasileiro com uma bela versão do Samba da Bênção, de Baden Powell e Vinicius de Moraes, interpretado por Pierre Barouh), evitando que didatismo ou excessos contaminassem o objetivo roteiro de Pierre Uytterhoeven.

Em certos aspectos, Um Homem, Uma Mulher me lembrou um outro filme da Nouvelle Vague (da safra anterior, aliás) que também lançava um olhar diferente sobre o casamento, a vida e o encontro com alguém que está prestes a mudar quem você é: As Duas Faces da Felicidade (1965). Diferente da mamãe Varda, no entanto, Lelouch se dispõe a exibir a experiência a partir de dois focos que indicam sentimentos em transformação. A mulher ainda segue em um processo de luto que, em última instância, a fará boicotar a própria felicidade por um instante. O homem — a quem o roteiro dá menor atenção em termos de exposição do passado, dando a entender que não era tão feliz assim no casamento — parece não ter amadurecido, mas também não nega a busca pela felicidade, que é uma das camadas da nossa eterna busca como seres humanos. O diretor funde, portanto, esses dois mundos que observam e experimentam a realidade procurando fugir de um estágio de tédio, mas sem esperar que algo além do simples encontro surja em seus corações. Uma viagem de carro, contudo, é o bastante para provar o contrário.

Contar uma história de amor de forma diferente exige foco naquilo que define esse tipo de história (o romance, que jamais pode ser minado) e a ousadia no argumento que o autor pretende trabalhar. Neste longa, Lelouch e Uytterhoeven mostram como Universos distintos, gostos diferentes e histórias sentimentais opostas (em par apenas no trauma, na perda, na tragédia) podem gerar um cenário engrandecedor para ambas as partes, num tipo de capricho da vida que ninguém consegue realmente explicar. E sendo fiel à sua proposta, o cineasta faz do espectador a testemunha ocular dessa percepção e experiência do mundo, retirando a narração e mostrando as cenas de um passado em quase tudo idílico — como tendem a ser as boas memórias, por sinal. Esse compartilhamento, todavia, é incorporado à vivência e às emoções da atualidade, dando aos personagens algo novo para sentir, um compromisso novo para assumir e um novo capítulo em suas vidas para escrever.

A fórmula aqui apresentada fez escola e se tornou um clichê positivo dos romances mais ousados do cinema a partir de então. Obras excelentes e também celebradas como Amor à Flor da Pele ou Antes do Amanhecer bebem nessa fonte e dela retiram não só o básico de qualquer bom romance (grande química entre o casal protagonista, por exemplo) mas diálogos propositalmente reticentes, um estilo de filmar olhares que nos coloca dentro do flerte e uma maneira honesta de mostrar como nós vemos o tempo passar de maneira completamente intensa e desregrada quando estamos apaixonados. Um romance delicioso num formato vanguardista, que favorece as sensações, que fala pouco, mas diz uma imensidão de coisas. Um dos filmes que melhor conseguiram representar o avassalador ato de encontrar alguém, conectar-se e poder amar… de novo.

Um Homem, uma Mulher (Un Homme et une Femme) — França, 1966
Direção: Claude Lelouch
Roteiro: Pierre Uytterhoeven
Elenco: Anouk Aimée, Jean-Louis Trintignant, Pierre Barouh, Valérie Lagrange, Antoine Sire, Souad Amidou, Henri Chemin, Yane Barry, Paul Le Person, Simone Paris, Gérard Sire
Duração: 102 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.