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Crítica | Um Lobisomem Americano em Londres

por Leonardo Campos
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A figura do lobisomem atravessou uma longa tradição cultural antes de chegar ao ponto importantíssimo atingido por John Landis em 1981, ocasião do lançamento do ótimo Um Lobisomem Americano em Londres, produção que figura no panteão das realizações mais respeitadas do segmento. Com variações entre uma cultura e outra, os monstros ferozes que são parte de uma transformação que ocorre geralmente em noites de lua cheia mantém determinados aspectos cristalizados no imaginário da maioria destes filmes. A transformação, como sabemos, ocorre quando alguém é amaldiçoado, passa por um ritual ou é atacado ferozmente pela criatura. Depois da mutação encarada com dor e assombro, a figura retorna ao formato humano se sentindo oprimido, fraco diante do desafio nem sempre desejado. A prata é um de seus pontos fracos, elemento inserido na mitologia graças ao folclore europeu do século XIX. Aqui, o protagonista do texto escrito e dirigido por John Landis é parte de alguns dos traços mencionados, num filme que embarca na tradição dos lobisomens, mas o encapsula num formato bastante diferenciado.

Como expõe o cineasta em alguns documentários retrospectivos, o texto originalmente escrito em 1969 só conseguiu financiamento para ser produzido dez anos depois, tendo como um dos empecilhos, a noção de muitos realizadores em torno da ideia ser cômica para uma narrativa de horror e aterrorizante demais para ser uma comédia. Manias de uma indústria muitas vezes presa dentro de formatos engessados de narratividade. O filme, no entanto, saiu. Na trama, os mochileiros americanos David Kessler (David Naughton) e Jack Goodman (Griffin Dunne) são viajantes que representam bem a provável crítica do roteiro ao tratamento dado aos estrangeiros que no filme, querem apenas se proteger enquanto trafegam por uma via deserta na estrada e encontram um ponto comercial cheio de pessoas que o recebem muito mal. Interessados em aplacar o frio no espaço, são praticamente expulsos pelo tratamento grosseiro de todos os pertencentes ao ambiente que o cuidado design de produção de Leslie Dilley criou, para que esses primeiros momentos sejam visualmente imersivos, causadores de desconfiança e estranhamento. É uma estrela de cinco pontas, velas, os uivos do design de som. É uma soma de traços ominosos.

A intensidade dos acontecimentos mixa com o proposital flerte da narrativa com a linguagem pop da música disponibilizada pela trilha sonora. Além da partitura de Elmer Bernstein, Um Lobisomem Americano em Londres conta com clássicos relativamente recentes ao seu ano de lançamento, dentre eles, Blue Moon, na versão amena de Bobby Vinton. Sem a devida recepção, a dupla sai do local e decide caminhar para outro lugar mais caloroso, mas no trajeto são atacados pela criatura que estraçalha Jack e machuca David, jovem que acorda três semanas depois num hospital de Londres e informa que foi atacado por um lobo ou algo parecido, afirmação desconstruída constantemente pelo Inspetor Villiers (Don McKillop) e pelo Sargento McManus (Paul Kembler), insistentes na ideia de que haja um criminoso em série como assinante do ataque. David inicia uma série de surtos que mesclam pesadelos e realidade, tendo a paciência da enfermeira Alex Price (Jenny Agutter) como um acalento que depois se transformará num caso de amor com vida curta, haja vista a transformação que se aproxima com a chegada da lua cheia. Sim, ele agora é um lobisomem e será responsável por um rastro de sangue estabelecido em Londres.

O Dr. J. S. Hirsch (John Woodvine) é um dos personagens coadjuvantes que ocupam um papel de importância na condução da investigação dos acontecimentos em torno da tragédia de David, algo que a própria vítima sequer consegue compreender adequadamente. Ele vai até o vilarejo do ataque em busca das respostas que expliquem o ocorrido. Depois de receber alta do hospital, o rapaz segue para a casa de Alex, enfermeira que se sente atraída pelo americano. Inicialmente ela acha que o turista atravessa uma fase tenebrosa do trauma, a contar sempre sobre a presença de seu amigo Jack, que de fato aparece nas alucinações de David todo desfigurado, reforçando para o amigo que sobreviveu, as agruras sobre ter sobrevivido e a inevitabilidade de sua transformação em um lobisomem. Dentre as cenas marcantes, há a passagem numa sala de cinema, com a exibição de um filme dentro do filme, recurso metalinguístico dirigido pelo próprio John Landis. No local, David é importunado pelo amigo e pelas vítimas que tinha feito na sua sanha sanguinária da noite anterior. É tudo muito divertido e sagaz, tal como o dinamismo e competência da direção no encadeamento das cenas do ataque no metrô e no engavetamento de carros do desfecho.

Para ter se tornado um clássico, Um Lobisomem Americano em Londres dependeu bastante de seus aspectos estéticos, pois dramaticamente, a história pode até ser considerada simples. A transformação de David Kessler num lobisomem é um dos pontos altos do cinema de horror e até hoje é mencionado como um momento singular para a evolução da maquiagem e dos efeitos especiais na história da linguagem audiovisual. Assinado por Rick Baker, o setor realmente merece o sucesso que sustentou durante a sua trajetória, ainda marcante quase quatro décadas depois de sua produção. Dentro deste conjunto de fatores, importante delinear o papel da direção de fotografia de Robert Paynter, fundamental na concepção do ponto de vista do monstro, bem como na exposição do lugar de observação das vítimas. As cenas externas, em especial, os momentos preambulares ao ataque na estrada, demonstra o quão a equipe de John Landis esteve preocupada no processo de estabelecimento da atmosfera ideal de horror, mesmo que muitos traços cômicos ainda façam algumas pessoas confundirem a ironia com a comédia rasgada. A neblina e a escuridão aprofundam os personagens em cena, mas não estão impeditivas de contemplação, graças ao ótimo trabalho do setor na iluminação e nos movimentos calculados equilibradamente.

Ademais, de volta ao breve panorama sobre as tradições do lobisomem em nosso imaginário cultural, esta figura teve uma de suas primeiras aparições no mesmo terreno de produção do filme de John Landis, isto é, a cultura inglesa. Por volta do século XIII, Otia Imperiali, publicação de G. de Tibury, trouxe afirmações da existência deste monstro que são parte intrínseca do pensamento medieval cotidiano, com dois relatos sobre o assunto, sendo um supostamente narrado pela própria figura do lobisomem. O material ainda reflete sobre o dom de transformação do homem em lobo, mágica cedida pelo poder divino até mesmo aos santos católicos, dentre eles, São Tomás de Aquino e São Patrício, nestes casos, para usos específicos, diferentes da pegada sanguinária e assassina dos monstros literários mitológicos que ganharam a cultura cinematográfica durante todo o século XX, em especial, 1981, ano de lançamento não apenas de Um Lobisomem Americano em Londres, mas também de Grito de Horror, de Joe Dante, outro clássico cult do segmento, sem o mesmo impacto do horror perpetrado pelo cineasta inglês, mas também dotado de seus potenciais dramáticos e estéticos. A continuação da saga de David Kessler aconteceu tardiamente, apenas em 1997, no exótico e humorado Um Lobisomem Americano em Paris, você sabia?

Um Lobisomem Americano em Londres (An American Werewolf in London – EUA/Reino Unido, 1981)
Direção: John Landis
Roteiro: John Landis
Elenco: David Naughton, Jenny Agutter, Griffin Dunne, David Schofield, John Woodvine, Lila Kaye, Brian Glover, Anne-Marie Davies, Frank Oz, Don McKillop, Paul Kember, Colin Fernandes, Michele Brisigotti, Mark Fisher
Duração: 97 min.

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