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Crítica | Um Match Surpresa

Sem limites e agridoce.

por Felipe Oliveira
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Como outros subgêneros, a comédia romântica tem a sua fórmula para falar da jornada do amor ideal, o par perfeito, os finais felizes. Numa era em que há contatinho de sobra para quem não quer compromisso, a dita receita da rom-com segue firme e alinhada em mais abordagens que conversam sobre a busca do amor, ainda que em linhas tão improváveis do destino. Alguns já se aventuraram na subversão do modelo em que a protagonista almeja experimentar o amor verdadeiro, modelo este oriundo dos contos de fadas, espelhados nos romances tradicionais, e então, os rom-coms. Se a trajetória de Elsa (Idina Menzel) nada tinha a ver e nem se resumiria no encontro com cara ideal, Um Match Surpresa não está nem um pouco interessado em chacoalhar e remodelar os métodos, não. O achado aqui é com o óbvio, com o brega, com os clássicos clichês do gênero, e no comprometimento de ser divertido.

Abrindo seu leque de filmes românticos natalinos, a Netflix fez sua aposta encabeçando Nina Dobrev na produção, produção que marca também a estreia da atriz de Diários de um Vampiro para a plataforma de streaming. E desde que saiu do elenco regular da série da CW, Dobrev tem se jogado em várias premissas diferentes: terror, suspense, comédia, paranormal, ação e atrações independentes, todas elas pontuando as escolhas da atriz em interpretar papéis cada vez mais distintos, ainda que não sejam em arcos tão longos. E chegar numa romântica comédia de Natal sem nenhum fator que caracterize a trama como fora da curva, não foi aleatório, e sim, mais uma prova de sua versatilidade.

Na fábula, conhecemos Nathalie Bauer (Dobrev), redatora de uma agência e que faz sucesso ao escrever artigos sobre seus desastrosos encontros amorosos. Mas enquanto ela prepara uma nova experiência para contar em sua coluna, acreditando finalmente ter encontrado o final feliz para se comprometer numa relação, a moça descobre que foi vítima de catfishing através de um App de namoro. Mas é claro que toda esta “reviravolta” é só uma maneira de aplicar a velha descoberta do amor verdadeiro, o “eu estava ali o tempo todo e só você não viu” puxando para as nossas interações virtuais e alternativas de buscar relacionamentos. E o ponto chave é que Love Hard (no original) não nega essas atribuições, e sim, faz de todos os elementos e estrutura triviais do subgênero para moldar a sua essência e atingir o propósito de uma divertida rom-com.

Parte desse divertimento está no trocadilho no título original. Ainda que a tradução consiga se encaixar na proposta e funcionar comercialmente, o Love Hard carrega uma comicidade cínica pelo que a trama desenvolve. Lançado em 1988, Bruce Willis estrelava a implacável e tensa película de ação Duro de Matar, que o trazia na pele do detetive John McClane esbarrando numa trama terrorista em plena noite de Natal. Se tornando uma franquia rentável, a saga baseada no romance de Roderick Thorp, Nothing Lasts Forever, se popularizou como Die Hard no nome de origem, em sinal das situações embaraçosas e que por um fio McClane escapava. Bem como seu filme favorito, a trajetória de Nathalie é hilariamente batizada de Love Hard, sinalizando como este clichê de buscar e encontrar o amor ideal é difícil, e ainda, como a bola de neve que se forma é cada vez mais improvável e absurda, do jeitinho que uma comédia romântica irreverente pede, atropelando a lógica dos questionamentos morais da trama em prol de sacana contrassenso.

E para toda unidade que forma a obviedade e trivialidade da trama, ganha um peso certeiro graças à Dobrev, que leva sua personagem em todas notas necessárias da cafonice, conduzindo de modo hilariante os pontos mais despretensiosos da trama. Diante da pluralidade de tantos papéis em sua carreira, é notável o seu domínio e do time para brincar com a comédia, virtude essa que se mostrava um potencial na série sitcom Fam, cancelada em 2019 pela CBS, ainda na primeira temporada. Se de algum atributo Um Match Perfeito tenta se levar a sério com sua moral controvérsia sobre se manter autêntico e se abrir para as relações de maneira mais consciente e saudável ainda que seja por um App de namoros, Dobrev é o lembrete de como essa premissa deve ser encarada, ao imprimir um cinismo leve que rege o foco de Love Hard: uma genérica comédia romântica natalina adocicada e divertida, nada além disso como quando ao ligar a TV e se deparar com um filme à vontade de ser clichê ‘à beça‘.

Um Match Surpresa (Love Hard – EUA, 2021)
Direção: Hernan Jimenez
Roteiro: Rebecca Ewing, Daniel Mackey
Elenco: Nina Dobrev, Jimmy O. Yang, Darren Barnet, Jaime Saito, Rebecca Staab, Harry Shum Jr., Matty Finochio, Heather McMahan, Mikaela Hoover
Duração: 104 minutos.

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