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Crítica | Um Método Perigoso

por Karam
426 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 2

Durante os primeiros 10 minutos de Um Método Perigoso somos apresentados a três personagens que desempenharão papéis importantes no decorrer da narrativa: Dr. Carl Jung (o psiquiatra), Sabina Spielrein (a paciente) e Emma Jung (a mulher do psiquiatra). Essa apresentação se dá através de diálogos expositivos que soam artificiais aos ouvidos, pois nada mais são do que uma apressada tentativa de estabelecer de cara para o espectador o caráter dos personagens e a ideia central por trás do método “a cura pela fala”.

Em sua primeira consulta a Sabina Spielrein, Dr. Jung explica detalhadamente quem é e qual método usará para tentar “identificar o que está perturbando-a”. Após a explicação, ele coloca o método em prática. Por sua vez, Spielrein fala sem pestanejar sobre o que a afeta. Ela usa a palavra “humilhação”. Pronto. Aparentemente, nos foi revelado muito em muito pouco tempo. Isso enfraquece o filme, já que filtra a capacidade que ele pode vir a ter de se mostrar complexo e desafiador no âmbito do inconsciente. Ao invés disso, principalmente durante esses 10 primeiros minutos, a consciência é que se faz presente, e anula a possibilidade de uma construção de personagem calcada no mistério, que só teria a acrescentar ao primeiro ato do filme.

Depois dos 10 minutos iniciais, Spielrein – que por um breve período de tempo se recusou a ver o psiquiatra novamente – passa a ajudar Dr. Jung em sua pesquisa, convencida por ele graças ao seu interesse por medicina.

Trata-se de um bom truque usado por Jung para consegui-la de volta, de forma a poder dar continuidade ao seu trabalho. Na primeira cena em que os dois trabalham em conjunto, fazem um teste na mulher de Jung, Emma. Bem escrita, principalmente devido à forma econômica com que as palavras são trocadas pelos personagens, essa cena finalmente traz à tona o caráter misterioso que o filme necessitava para engrenar de vez: um teste está sendo feito. A princípio não sabemos as regras que o envolvem, nem quais os encadeamentos que dele emergem, por isso mesmo a cena nos instiga. Não há, em nenhum momento, uma fala de Jung em que ele comente sobre o teste e explique como o teste se dará. Há apenas uma sala pequena onde se encontra o psiquiatra, sua paciente (agora também ajudante) e sua mulher (agora também paciente). Um recinto aparentemente simples e intimista. E três personagens centrais atraindo a atenção do espectador para aquele acontecimento. A sessão acaba e Jung vai se despedir da mulher. Ele diz “tchau”. Ela responde com um “sim, tchau”. Mais uma vez, a economia de palavras funciona perfeitamente, e nesse caso fica implícita uma ideia de que o tratamento pode ter descarregado forte carga dramática sobre Emma.

Logo em seguida, com as constatações de Spielrein (que chegam a surpreender Jung) de que, de acordo com suas respostas e as pausas entre determinadas palavras, Emma estaria receosa em relação ao bebê que espera e até mesmo incerta quanto aos sentimentos do marido, o “sim, tchau” por ela sutilmente proferido se torna ainda mais significativo.

Certamente alguns diálogos poderiam ser mais sutis. A redundância e o cômico não intencional – às vezes muito difíceis de serem despistados pelos mais renomados roteiristas – se fazem presentes, enfraquecendo ainda mais a estrutura do roteiro. É redundante quando, por exemplo, Spielrein diz para Jung que ficou excitada quando o psiquiatra bateu em seu casaco. Uma fala absolutamente desnecessária, que usurpa do espectador a possibilidade de constatação por conta própria. Invariavelmente chegaríamos a esta conclusão, afinal a paciente já tinha contado a história do pai e da ambígua relação dela com o que a humilha… Já o cômico não intencional se manifesta e constrange na cena em que Spielrein está contando para Jung a complexa relação que esta tem com seu pai: “Depois ele só precisava me mandar para o quartinho e eu começava a ficar molhada”, ela diz. A tensão se dissipa. O diálogo revela-se frágil.

Fragilidade. Pensar nessa palavra é pensar na personagem de Emma Jung. Não exatamente nela, mas no que dela se pode extrair. Ao contrário do que inicialmente nos parece, a mulher do psiquiatra é fundamental para a narrativa, especialmente em seu primeiro ato, já que é ela quem (sutilmente) extrai o que há de frágil na personalidade de seu marido. Diante de sua paciente, Jung mostra-se a maior parte do tempo um homem seguro, senhor de si, ocupando a confortável posição de superior. Ao lado de Emma, o vemos como um ser humano, despido de qualquer característica de autoridade. O enxergamos como um homem que tem medos e dúvidas, como qualquer outro.

O que nos leva a Freud: diferentemente de Emma, trata-se de um personagem que escancara a fragilidade profissional e pessoal de Jung. Não há nada de sutil na dinâmica dos diálogos trocados entre os dois. E por mais intimidante que sua figura possa ser, Freud jamais cativa o espectador. O que sai de sua boca é calculado, pensado demais. Pouco improviso; pouca dúvida. Pouca humanidade. O roteirista Christopher Hampton e o diretor David Cronenberg pecam na caracterização do Freud de Um Método Perigoso ao transformá-lo em um sujeito maquínico, que serve mais como um veículo de expressão dos ideais do médico do que qualquer outra coisa. Com o intuito de revelá-lo como um homem teimoso, resistente em suas convicções, Hampton e Cronenberg acabam por exagerar na dose e transformam o que em tese seria um grande personagem em um monumento de tédio e pretensão.

O que certamente não é o caso de Otto, um personagem “menor”, que rouba as atenções para si no pouco tempo em que está em cena. Diferentemente dos diálogos preguiçosos e didáticos mantidos com Freud, Jung trava, com Otto, conversas afiadas, livres, que inspiram uma sensação de que podem se direcionar para qualquer lado a qualquer momento. Um diálogo rico, de textura, esclarecedor e bem escrito. “Eu acho que a obsessão de Freud com o sexo, provavelmente, tem uma ligação muito forte com o fato de ele nunca transar”, diz Otto em certo momento. A sua observação irônica não só é engraçada, como também atesta para o fato de que em Um Método Perigoso, Freud parece muito mais interessante quando ele é apenas o objeto de discussão do que quando ele próprio fala. Sua presença é mais forte quando ele não está presente.

O nosso interesse no filme aumenta gradativamente quando passamos a perceber que há uma erupção de ideias contrastantes desorientando as noções primárias de Jung. As conversas com Otto; o beijo em Spielrein (uma iniciativa dela); a frieza de Emma… Tudo isso faz parte de um processo (cuidadosamente trabalhado pelo roteirista) que faz com que o psiquiatra caminhe sobre uma “corda bamba mental”. E então, passada mais de uma hora de filme, o jogo vira: agora quem é frágil é Jung, enquanto que Spielrein mostra-se confiante com o rumo que a relação dos dois está tomando. Essa inversão de valores entre os personagens é um ponto forte do roteiro. Surpreende o espectador e contribui para que a história se movimente. O ápice desse novo panorama se dá na cena em que Freud e Jung estão viajando juntos para a América e o primeiro diz sobre um sonho que teve: “Adoraria lhe contar, mas não acho que eu deva”. Questionado por Jung do motivo ele responde, ácido: “Não quero arriscar minha autoridade”. Trata-se da única grande cena entre os dois, que expõe sem dó o caráter ambíguo daquela amizade.

Como já foi dito anteriormente, em Um Método Perigoso Freud é muito mais interessante quando não é visto e sim discutido. Dessa forma, apesar de sua caracterização equivocada, o personagem é capaz de propulsionar no espectador alguns pensamentos que – quando bem ordenados em nossas cabeças – se concretizam em ótimos insights: é interessante constatar que, mesmo lutando contra uma visão idealizada do mundo e defendendo a ideia de que “as coisas são como elas são”, Freud insista em romantizar Jung como aquele que deveria seguir seus passos; ser seu fiel discípulo, propagando sem restrições todos os seus ideais. Em um filme onde o comportamento humano é o tempo todo justificado através de racionalizações mirabolantes, o fato d’essa atitude contraditória de Freud ficar apenas implícita em suas ações – sem qualquer monólogo invasivo que a justifique – é um sopro de alívio.

Um Método Perigoso (A Dangerous Method) –Alemanha/Canadá/França/Reino Unido/Suíça, 2011
Direção: David Cronenberg
Roteiro: Christopher Hampton (peça teatral e roteiro), John Kerr (livro)
Elenco: Viggo Mortensen, Keira Knightley, Michael Fassbender, Vincent Cassel, Sarah Gadon, André Hennicke, Arndt Schwering-Sohnrey, Mignon Remé, Mareike Carrière, Franziska Arndt,Wladimir Matuchin, André Dietz, Anna Thalbach, Sarah Marecek
Duração: 99 min.

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5 comentários

jv bcb 21 de janeiro de 2017 - 02:47

Discordo da opinião da crítica, embora admita que a opinião do crítico está muito bem fundamentada(só acho que foca demais no roteiro, tanta coisa a abordar, principalmente as as atuações primorosas, acaba sendo um desperdício focar apenas na narrativa e nos diálogos).
Não acho os diálogos expositivos, embora sejam muito presentes eles servem como uma forma dos personagens interagirem entre si maneira ágil e objetiva, assim podemos notar pelas suas interações seus traços de personalidade, ideia e conflitos, assim não acho que o filme exponha demais, não acho que ele diga ao invés de mostrar, tanto que quando Jung e Freud estavam trocando cartas, Jung diz que Freud tratava seus amigos como se fossem pacientes, e os analisava como uma forma de se manter superior, como se fosse um pai. Ao falar isso nós imediatamente pensamos “é verdade, Freud realmente pensa assim”, pois nos foi mostrado em suas interações que era assim que ele se comportava, não apenas dito pela primeira vez nessa cena. Acho que essa sequência exemplifica muito bem o filme todo.
Acho que a proposta do longa é tratar de uma série de temas e personagens de forma rápida e objetiva, sem investir numa narrativa cadenciada, por isso tantos diálogos e por isso ele não investe tanto tempo no método em si, mas sim na relação entre os personagens.

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jv bcb 21 de janeiro de 2017 - 02:47

Discordo da opinião da crítica, embora admita que a opinião do crítico está muito bem fundamentada(só acho que foca demais no roteiro, tanta coisa a abordar, principalmente as as atuações primorosas, acaba sendo um desperdício focar apenas na narrativa e nos diálogos).
Não acho os diálogos expositivos, embora sejam muito presentes eles servem como uma forma dos personagens interagirem entre si maneira ágil e objetiva, assim podemos notar pelas suas interações seus traços de personalidade, ideia e conflitos, assim não acho que o filme exponha demais, não acho que ele diga ao invés de mostrar, tanto que quando Jung e Freud estavam trocando cartas, Jung diz que Freud tratava seus amigos como se fossem pacientes, e os analisava como uma forma de se manter superior, como se fosse um pai. Ao falar isso nós imediatamente pensamos “é verdade, Freud realmente pensa assim”, pois nos foi mostrado em suas interações que era assim que ele se comportava, não apenas dito pela primeira vez nessa cena. Acho que essa sequência exemplifica muito bem o filme todo.
Acho que a proposta do longa é tratar de uma série de temas e personagens de forma rápida e objetiva, sem investir numa narrativa cadenciada, por isso tantos diálogos e por isso ele não investe tanto tempo no método em si, mas sim na relação entre os personagens.

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Luiz Santiago 3 de fevereiro de 2017 - 15:21

@jvbcb:disqus, sobre o comentário que você fez em “Testemunha de Acusação”, gostaríamos de enviar-lhe um email sobre o assunto. Será que você poderia enviar um email para planocritico@gmail.com de forma que possamos conversar por lá?
Abraço!.

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leodeletras 26 de fevereiro de 2015 - 00:10

Parabéns pelo texto! E é isso mesmo: ponha os seus gostos sempre a prova! O Rei Leão é uma das melhores versões de Hamlet na minha opinião.

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Karam 27 de fevereiro de 2015 - 23:39

Valeu! Sempre muito bom ter um retorno 🙂 O Rei Leão é um dos melhores exemplos da Jornada do Herói que há, né? Roteiro preciso e precioso.

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