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Crítica | Um Mundo Perfeito

por Marcelo Sobrinho
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Clint Eastwood pode ser considerado um dos grandes atores do gênero western em todos os tempos, sendo a sua atuação máxima no gênero encontrada em Três Homens em Conflito. Eastwood, já como diretor, resgataria o western brevemente e com qualidade indiscutível no ano de 1992 com o longa-metragem Os Imperdoáveis. Mesmo se tratando de um filme que demonstrou ao mundo suas enormes qualidades por trás das câmeras, não considero esse o mais importante de seus filmes como diretor. Tampouco podemos apontar o filme seguinte, de 1993, – Um Mundo Perfeito –, como o melhor de sua filmografia. Mas penso que essa seja a obra que virou a chave na carreira do cineasta em termos de estilo de filmar e de temática predileta. Um Mundo Perfeito inaugura a tradição que seguiria em filmes como Menina de Ouro, Gran Torino ou, mais recentemente, A Mula. A tradição clintiana dos filmes sobre a ambiguidade do homem.

Nem sempre me agradam as ideias de Clint Eastwood tanto como homem quanto como diretor, uma vez que determinados posicionamentos ideológicos bastante problemáticos a meu ver acabam contaminando filmes como Sniper Americano. Mas é preciso reconhecer que, quando Clint abandona o ufanismo pretensioso e resolve abordar como todos nós somos contraditórios em nossas ações, ele se sai muitíssimo bem. Em Um Mundo Perfeito, o enredo envolvendo um criminoso fugitivo que sequestra uma criança, fazendo nascer uma improvável amizade entre eles, traz pela primeira vez em sua filmografia uma história em que o vilão e o herói são rigorosamente a mesma pessoa. Butch (Kevin Costner), mesmo ocupando posição marginal na sociedade, demonstra um afeto e um carinho pelo menino Philip (T.J. Lowther) que nenhum outro personagem adulto demonstra por nenhuma criança ao longo do filme. As famílias que surgem na obra são compostas por adultos insensíveis em relação a seus filhos e que os tratam, quando não com violência, com indiferença e desprezo.

Um Mundo Perfeito não só demonstra as ambivalências de seu protagonista, fora da lei, mas capaz de representar a figura paterna que o menino nunca teve, como as contradições da própria unidade familiar. Se alguém correlaciona esse filme a algum vestígio de síndrome de Estocolmo, certamente não poderia haver interpretação mais canhestra. O que ocorre de fato nessa história é a restituição daquilo que faltava para Philip e para Butch. O criminoso consegue inclusive adentrar no mundo do menino, dialogando com os seus elementos com umanaturalidade surpreendente. Philip se sente à vontade para contar seus medos para Butch, que se torna parte de seu universo, deixando-o à vontade até para usar sua máscara de fantasma em sua presença. Note-se que, na cena de abertura, a mãe de Philip o afasta de seus colegas fantasiados para a festa de Halloween. Em Butch, Philip encontra um interlocutor. Mas é curioso que caiba ao menino atirar em Butch, impedindo-o de matar um casal de maltratava os filhos. A fúria de Butch (ali o entendemos como criminoso) explode na tela, mas o ato de Philip demonstra que, assim como pessoas, famílias também são contraditórias, complexas e, mesmo que perversas, é preciso salvá-las.

A direção de Eastwood em Um Mundo Perfeito não é mais do que correta. Não há uma grande cena em que se sente a mão do diretor, à exceção daquela em que Butch finalmente morre, alvejado por um tiro da polícia. Alguns instantes antes, um close-up no rosto do menino, que volta para junto de Butch em vez de ir reencontrar a mãe, é um modo eficiente de demonstrar seu amadurecimento e a consciência daquilo que havia vivido ao lado do homem que o raptara. Após a morte deste, a montagem recorre a cortes extremamente ágeis para evidenciar a crise de consciência da mãe, da criminóloga Sally Gerber (Laura Dern) e do policial Red Garnett (Clint Eastwood), que participaram de algum modo daquele momento. Mas o grande trunfo de Um Mundo Perfeito é mesmo um roteiro interessante, que constrói um road movie envolvente e tocante. Um roteiro que sabe dosar inclusive alguns momentos de humor, que tornam a trajetória da dupla de protagonistas leve, ao mesmo tempo em que séria e dramática.

Mas o roteiro falha em outros momentos, recorrendo a alguns clichês bastante desnecessários se levarmos em conta que o filme atinge profundidade suficiente para analisar as virtudes e as razões para que um bom homem tenha se tornado tão falho. Um desses momentos ocorre quando Garnett dá um soco no policial que disparara contra Butch contra a sua ordem, seguindo-se um chute de Sally que derruba o homem. A tolice mais serve para agradar ao espectador médio – ávido para ver na grande tela alguma vingança contra o homem que matara o vilão convertido em herói. Há inclusive alguns traços de caricatura no assassino de Butch, com seus óculos escuros denotando soberba e sua boba mímica vilanesca. Ainda assim, esses momentos em que a obra erra no roteiro e na própria direção de atores são menos numerosos que os momentos em que acerta, entregando um filme que irá agradar tanto a um público de sessões vespertinas da TV aberta quanto a um público um pouco mais seleto e mais versado em cinema. No cômputo geral, ainda vejo que o que há de mais importante em Um Mundo Perfeito é ter plantado a semente que daria frutos ainda mais interessantes nos trabalhos seguintes do diretor.

Um Mundo Perfeito (A Perfect World – EUA, 1993)
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: John Lee Hancock
Elenco: Kevin Costner, Clint Eastwood, Laura Dern, T.J. Lowther, Keith Szarabajka, Leo Burmester, Paul Hewitt, Bradley Whitford, Ray McKinnon, Jennifer Griffin, Leslie Flowers, Belinda Flowers, Darryl Cox, Jay Whiteaker, Taylor Suzanna McBride
Duração: 138 min.

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