Crítica | Um Passado de Presente

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Sabe aqueles lindos filmes de Natal para se assistir com a família, amigos, contatinhos…? A Netflix quis inovar nesse conceito e produziu um para se ver com os inimigos. É uma pena que a roteirista novata Cara J. Russell não pensou que nós, pessoas boas, também sofreremos ao assistir ao lado do antagonista. E cá entre nós, o filme é uma tortura natalina.

Sir Cole (Josh Whitehouse), um cavaleiro do século XIV, encontra-se em 2019, após uma feiticeira o teleportar sob o pretexto de que ele precisaria abrir seu coração para se tornar um “verdadeiro cavaleiro”. No novo ambiente, Cole precisa se adaptar ao avanço tecnológico, ao passo que encontra com Brooke (Vanessa Hudgens), uma garota marcada pela traição do seu ex-namorado. Vamos combinar que a sinopse não é tão ruim assim. Introduzir viagem no tempo em um filme natalino é inovador e a Netflix parece querer sempre inovar. Porém, o que aconteceu nesse roteiro? 

Sir Cole viaja 500 anos e suas ações o fazem parecer  um louco que bateu a cabeça quando nasceu. O roteiro, na tentativa de evidenciar que ele estava confuso com o novo ambiente, só o fazem repetir a palavra “cavalo de aço” para todo objeto que ele via. Em contrapartida, Sir Cole adaptou-se aos celulares, às luzes, às roupas e ao linguajar com uma naturalidade que nem o clichê consegue explicar. Custava ter explorado esse lado do personagem que, inclusive, seria a única parte cômica do filme, visto que o filme se autointitula ‘comédia romântica’?

Ao menos isso criou uma esperança, no começo. Se não iam bater na tecla da confusão de um homem 500 anos no futuro, iriam desenvolver uma história focada no romance. Entretanto, nos decepcionamos mais uma vez. A única parte ressaltada pela película é que o Natal é para fazer doações. Inclusive, essa afirmação é explorada ao menos cinco vezes na obra. Se uma já era mais do que suficiente, imagine cinco. Além disso, o romance não chega perto de cativar. O amor de Brooke e Sir Cole é tão forçado que chega ao ponto do cavaleiro dormir na casa dela na primeira noite em que se conhecem. Isso tudo com ele agindo de forma estranha, a exemplo do personagem produzindo uma fogueira no quintal de uma casa para abater um gambá. Qualquer pessoa do século atual chamaria a polícia.

É claro que devemos lembrar que estamos assistindo a um clichê e, portanto, o roteiro não deve ter uma narrativa mirabolante que nos deixa refletindo por horas. Contudo, uma história simples não é sinônimo de forçada. Levemos como exemplo outro clichê de Natal da Netflix, Deixe a Neve Cair. Nesse filme, embora o roteiro contenha alguns erros que nem o clichê explica, nós somos cativados pelos personagens. Eles têm ações coerentes e, mesmo que façam coisas óbvias, nos fazem acompanhar curiosos cada passo do que se passa. Em Um Passado de Presente, acontece justamente o contrário. O excesso de “não faz sentido” afasta-nos cada vez mais dos protagonistas. No final, ao invés de torcermos para o romance entre Cole e Brooke dar certo, almejamos uma briga corporal entre os dois (aliás, esse final seria bem mais interessante).

Outro aspecto que incomoda são os figurinos. Parece que faltou verba ou algo parecido, porque os personagens tem incríveis três ou quatro vestimentas durante todo o filme. Claro que o enredo se desenvolve em apenas três dias, mas utilizar poucas roupas era necessário? Os personagens param em casa diversas vezes. Trocar a roupa demonstra continuidade na história; é algo importante para se fazer. Nesse ponto, é perdoável que Sir Cole tenha poucas vestimentas, até porque ele utilizava as roupas do ex-namorado de Brooke (que são escassas). Porém, o revestimento dele como cavaleiro foi comprado na loja de R$ 1,99. O elmo foi feito de sobras de cortina da casa de alguma senhora bem idosa, a capa é um tapete, e a armadura é de festa fantasia. O mais intrigante é que em uma cena, Brooke diz para Cole que a fantasia dele era “tão verídica!”. Nem para forçar algo mais coerente…

A nota só não foi zero porque eu reconheço o esforço dos atores em tentar salvar um roteiro tão angustiante. Josh Whitehouse utiliza seus olhos para relembrar, pelo menos em algumas cenas, que o personagem avançou 500 anos e, portanto, estava confuso. Já Vanessa Hudgens utiliza seu sorriso e feição para trazer  um ar de leveza e calmaria em todas as cenas. Entretanto, era melhor que lembrássemos de Vanessa como Gabriella em High School Musical

Um Passado de Presente é um péssimo presente para se receber no Natal. Um projeto que não acerta em nenhum ponto do roteiro e resulta inevitavelmente em um desastre. Uma vergonha aos clichês e, mais ainda, à Netflix.

Um Presente de Natal (The Knight Before Christmas) – EUA, 21 de novembro de 2019
Direção: Monika Mitchell
Roteiro: Cara J. Russell
Elenco: Josh Whitehouse, Vanessa Hudgens, Emanuelle Chriqui, Harry Jarvis, Mimi Gianopulos, Ella Kenion, Jean-Michel Le Gal, Arnold Pinnock
Duração: 92 minutos

FERNANDO ANNUNZIATA . . . Por meio de um sonho, fui convocado pessoalmente pela Marilyn Monroe a participar do mundo das críticas cinematográficas. Sem saber o que esse mundo me reservava, cavalguei com a Lady Godiva em busca do Lendário Livro de Verdades. Atravessamos Gotham, Hogwarts e Twin Peaks atrás do nosso objetivo. Com a revelação dentro de um baú feito de mármore a dois metros dos nossos olhos, nos deparamos com o melhor final possível: o Livro era um espelho. Agora sou o dono de todas as verdades e faço parte de um culto de bruxos chamado Plano Crítico. A única resposta que não tenho é se prefiro minha antiga vida, quando eu era um mortal estudante de Comunicação Social de 18 anos, ou a vida atual, na qual eu descobri a verdade sobre Bohemian Rhapsody.