Crítica | Um Pedaço de Madeira e Aço

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A simplicidade, a complexidade (às vezes oculta) do cotidiano das pessoas, a poesia e os altos e baixos da vida são coisas que podem ser vistas acontecendo em torno de um banco de praça, o protagonista desta incrível narrativa gráfica de Christophe Chabouté lançada originalmente em 2012: Um Pedaço de Madeira e Aço. Eu tenho um fraco por histórias mudas. Acredito que é o tipo de obra que exige muito mais de seu realizador do que aquelas que têm roteiro e a arte para nos contar algo. Aqui, a narração da história vai depender de como o artista captura a nossa atenção e de como pode dizer muito sem emitir uma única palavra.

Além do domínio técnico do desenhista, narrativas gráficas são particularmente exigentes em duas colunas: ritmo e encadeamento de eventos. Aqui no Plano Crítico eu já tive a oportunidade de criticar algumas obras com esse tipo de abordagem, e sempre há um grande maravilhamento envolvido, como vocês podem comprovar nos textos de A Chegada (2006), O Número 73304-23-4153-6-96-8 (2008), Pétalas (2015) e As Origens de Druuna: Anima (2016). O fato é que a escolha do silêncio para os quadrinhos é sempre uma opção arriscada e difícil de se construir. Assim, quando um autor logra transmitir para o público toda uma gama de emoções apenas com desenhos, temos uma trama que realmente merece um olhar atento e todos os louros possíveis para si.

Em Um Pedaço de Madeira e Aço, Chabouté escolhe algo ainda mais difícil de se trabalhar, que é o passar dos dias em sua mais comum eventualidade. As ações ordinárias, despreocupadas e automáticas do cotidiano de pessoas (e um cachorro) que ao longo do tempo, sentam-se, sorriem, choram, dormem, passam o tempo, divertem-se, decepcionam-se e são surpreendidas neste banco de praça. Ao ver essa coletânea de momentos simples, o espectador forma em sua mente uma porção de efeitos sonoros, de atmosferas dramáticas, de temperaturas e, talvez mais do que em qualquer outro tipo de enredo, tem a oportunidade de sentir o que de fato se passa nas páginas. Sem a presença do texto, a porta para o subjetivo está aberta.

E é aí que cada cena de uma narrativa gráfica recebe o seu super-poder. O texto e o grande significado ali será criado imediatamente pelo espectador, com cada um imprimindo uma força diferente às cenas; justamente o que torna esse tipo de história bastante especial. Na presente jornada, observamos a vida passar despercebida e também desabrochar ou chegar ao fim de um ciclo — tudo em torno de um banco de madeira ao lado de uma árvore. E vamos encontrar pessoas de todos os gêneros, idades, etnias, atividades. Não faltam momentos de grande emoção e espaço para que o leitor reflita, contemple o lugar ser coberto de neve, de folhas de outono, de pichações, de xixi de cachorro. Este é um caso muito especial onde os eventos mais comuns são postos em perspectiva e num tempo condensado, potencializando o que significam para nós.

Neste livro, somos convidados a contemplar a vida de uma forma bem diferente, mais calma, fora da agenda e dos horários marcados; fora dos compromissos. Aqui nós vemos, como se fosse pela primeira vez — e em todo o encanto possível — as muitas coisas que tantas outras vezes vimos. Ao fim de Um Pedaço de Madeira e Aço, com os olhos marejados, eu me lembrei dos versos de um famoso poema de Fernando Pessoa: “Sinto-me nascido a cada momento / Para a eterna novidade do Mundo…“. A verdadeira glória da banalidade.

Un Peu de Bois et D’acier (França, 2012)
Editora original: Vents d’Ouest
No Brasil: Pipoca e Nanquim, maio de 2018
Roteiro: Christophe Chabouté
Arte: Christophe Chabouté
334 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.