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Crítica | Um Príncipe em Nova York 2

por Kevin Rick
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Um Príncipe em Nova York 2

Seguindo a tradição hollywoodiana de explorar o máximo possível de títulos famosos e franquias célebres, Eddie Murphy decidiu retornar ao papel de Akeem do clássico Um Príncipe em Nova York. Ideias de continuações como essa normalmente me deixam cético e pouco ansioso pelo resultado, justamente pelo que disse sobre a indústria de Hollywood, que utiliza a “marca” conhecida para reter seu fácil cash-in, enquanto qualquer decisão criativa se resume a nota de rodapé. Contudo, desde o lançamento do ótimo Meu Nome é Dolemite, qualquer rumor ou notícia relacionada à Eddie Murphy me deixavam curioso pelo próximo filme do comediante. Sabendo do seu talento espetacular, e da forma que ele foi destruindo sua imagem nos últimos 20 anos, estava na torcida por uma ressurgência do ator no Cinema. É sempre bom ver ícones retornando ao auge. Dessa forma, a ideia de mexer no clássico dos anos 80 não me pareceu ruim. Até soava boa, na verdade. Ah, como a realidade pode ser cruel…

Para aqueles não familiares com o primeiro filme, Eddie Murphy interpreta um príncipe da fictícia nação africana de Zamunda, que decidiu fugir do seu casamento arranjado para encontrar sua amada em Nova York. A parte dois dessa divertida e sentimental história nos apresenta o casal de Akeem e Lisa McDowell no seu felizes para sempre. Eles continuam casados, com três filhas e vivendo as regalias do ambiente nobre. E o início da fita em Zamunda, apesar de não ser bom, é pelo menos promissor. Logo de cara, senti uma dificuldade da obra em transpor o humor original e sutil do primeiro filme, mas existe uma dinâmica familiar interessante e um certo sorriso bobo com a revisitação nostálgica. A pequena ponta de James Earl Jones como Rei Jaffe Joffer é sensacional, assim como o cameo de Morgan Freeman, mas a partir do momento que Morgan introduz alguns grupos musicais conhecidos, a película desanda completamente.

Acredito que o grande problema é o fato da narrativa não se encontrar ou saber executar o que quer propor. A premissa, pelo que pude absorver, seria a concepção de dois arcos, possivelmente três, se adicionarmos a recorrente busca de reconhecimento e quebra de tradições machistas da filha mais velha de Akeem, que configura o núcleo mais interessante da obra, mas é continuamente resignado para os chatíssimos e pouco engraçados arcos do protagonista se tornando Rei e a forma como a idade e o título poluíram os princípios do personagem, enquanto precisa lidar com o antagonista General Izzi (o eterno carismático Wesley Snipes), que vem pressionando o personagem para arranjar um casamento político, enquanto a resposta para seus problemas concebe a segunda narrativa principal da obra: o filho bastardo de Akeem que mora no Queens, Lavelle Junson (Jermaine Fowler). Toda a situação criada para ter a existência de Lavelle e o retorno de Akeem e Semmi (Arsenio Hall) à Nova York é constrangedora e de um humor extremamente forçado, algo que seria levado para toda a duração da fita.

O filme original se baseia numa premissa um tanto absurda, apesar de propor a comum história de “estranho na terra estranha”, expondo uma obra que funciona como uma ótima sátira, composta por várias cenas que parecem esquetes (a barbearia, o McDowell’s, a noite no bar, etc), e lentamente assume um caráter de quietude romântica e busca por identidade própria do príncipe. A ideia do segundo filme é parecida, mas da perspectiva inversa, trazendo Lavelle para Zamunda, adicionando um elemento de conflito familiar/político. A ideia é interessante, até porque minhas partes favoritas do original se passam em Zamunda, mas a execução didática e formulaica transformam toda a obra numa piada ruim. Tudo que fez o filme original um clássico é esquecido, desde a pegada cômica sutil e irreverente, até o elemento suave do romantismo e a relação entre rei e primogênito, além da completa falta de concepção de algo novo neste “Universo”.

Akeem é muitas vezes esquecido, funcionando mais como um coadjuvante medroso para Lavelle do que o protagonista do seu próprio filme. Os novos personagens, especialmente Tio Reem – Tracy Morgan é simplesmente intragável -, existem na trama sem razão, com cada um deles recebendo pequenas pontas aqui e ali, sendo completamente esquecíveis no momento que o filme acaba. Toda a dinâmica divertida entre Eddie e Arsenio praticamente não tem espaço na duração arrastada do longa. E o pior de tudo, o roteiro parece se importar com uma espécie de comentário social – muito mal trabalhado, aliás – e esquece de criar a experiência esperada: simplesmente divertir. Com exceção de um raro sorriso, não tive um momento de humor com a obra, que falha em reciclar as piadas do original, e eles desesperadamente tentam ter essa linha de nostalgia, até inserindo cenas diretas do primeiro filme, quanto desaponta na “nova” comédia, constantemente insultando a inteligência da audiência com um politicamente correto nada sutil e porcamente construído.

Só gostaria de destacar positivamente as ambientações e os figurinos, e também notar que o elenco original realmente tenta trazer o brilho do primeiro filme, especialmente James Earl Jones, mas o roteiro é miserável em entregar o espaço necessário para eles terem êxito. Um Príncipe em Nova York 2 falha como continuação, homenagem, nostalgia, comédia, sátira, desenvolvimento de personagem e qualquer outro aspecto que faz parte da construção de um filme. Uma experiência medonha, que passa bem longe de divertir ou nos colocar naquele cantinho confortável de revisitação de um clássico, mais preocupada com números musicais, participações especiais, merchandising e (péssimas) críticas sociais, do que transpor a magia do primeiro filme ou criar sua própria identidade.

Um Príncipe em Nova York 2 (Coming 2 America) – EUA, 05 de março de 2021 Um Príncipe em Nova York 2
Direção: Craig Brewer
Roteiro: David Sheffield, Kenya Barris, Justin Kanew, Barry W. Blaustein
Elenco: Eddie Murphy, Arsenio Hall, Paul Bates, James Earl Jones, Jermaine Fowler, Leslie Jones, John Amos, Shari Headley, Tracy Morgan, Louie Anderson, KiKi Layne, Wesley Snipes, Teyana Taylor, Nomzamo Mbatha, Clint Smith, Bella Murphy, Vanessa Bell Calloway, Morgan Freeman, Luenell, Trevor Noah, Rotimi, Akiley Love
Duração: 110 min.

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