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Crítica | Um Príncipe em Nova York

por Kevin Rick
3127 views (a partir de agosto de 2020)

Nos anos 80, Eddie Murphy estava no auge do seu estrelato e talento cômico, desde o prematuro e inesperado sucesso em Saturday Night Live, até a célebre franquia Um Tira da Pesada, além de clássicos como Trocando as BolasUm Príncipe em Nova York, tema desta crítica. O filme, baseado em um premissa do próprio Eddie Murphy, e dirigido pelo genial John Landis, acompanha a história de Akeem (Murphy), um príncipe da nação africana de Zamunda, que, cansado da sua rotina mimada e monótona, vê no seu casamento arranjado pelo pai, o Rei Jaffe Joffer (James Earl Jones), a última chance para fugir e se aventurar no mundo, mais necessariamente os EUA, em busca de perspectiva e do amor verdadeiro antes que a vida nobre calculada tome conta do seu futuro.

Os primeiros vinte ou trinta minutos da obra se passam no fictício reino africano, e configuram a melhor parte da fita, além de um dos melhores e mais divertidos inícios para um filme que tive o prazer de assistir. A cena inicial apresenta uma pequena orquestra acordando o príncipe do seu sono Real. Daí em diante, somos carregados por diversas situações completamente hilárias no dia-a-dia de Akeem, como servas que deixam pétalas de rosas por onde ele caminha, escovam seus dentes e dão banho – entre outras coisas – no personagem. A comédia situacional é elevada não apenas pelo excelente roteiro, mas pelas ótimas performances que vendem a magnitude caricata da Família Real e seus servos pomposos, e a sensacional direção de Landis, que foca bastante nas reações dos personagens, preenchendo muito bem as piadas com as expressões faciais dos atores em um timing cômico perfeito.

Toda essa parte introdutória culmina na divertidíssima cerimônia de casamento, no qual Akeem finalmente conhece sua submissa noiva, com direito a ordem de andar em uma perna imitando um cachorro – realmente, o início desta obra é simplesmente genial -, resultando no protagonista pedindo a seu pai um tempo fora do país, que ele entende como “período da fornicação”, junto do seu fiel e também hilário companheiro Semmi (Arsenio Hall). Apesar da mudança de localidade, o estilo de humor é mantido nos EUA com o núcleo de “estranho na terra estranha”, que é sim batido, mas, novamente, a forma como toda a descoberta é transposta pela obra rende boas risadas. Existe uma mistura de sátira e comentário social, brincando com estereótipos americanos e a visão preconceituosa da África que dão um teor mais maduro à obra, mas o foco criativo solene é provocar divertimento ao espectador. E é incrível o sucesso da empreitada até aqui.

Digo “até aqui”, pois a partir do momento que Akeem conhece sua futura amada, Lisa McDowell (Shari Headley), o filme muda completamente de atmosfera. A pegada cômica é utilizada aqui e ali, mas vai perdendo força frente a narrativa romântica entre Akeem e Lisa. Apesar da simplicidade e obviedade do arco do casal, tudo é feito com bastante carinho e cuidado, tocando em temáticas relacionadas a pobreza, machismo, choque cultural e sacrifício, concebendo uma surpreendente complexidade à história e ao protagonista, sobrando louvor a Murphy pela ótima atuação. O problema é que a quietude romântica não entrega a energia inicial da obra, além de sofrer da duração exagerada do filme. Existe até um certo estranhamento e decepção pela transformação da linguagem e gênero da película, que reitero, não é ruim, mas é bem aquém à proposta inicial.

Jogamos a palavra “clássico” com certa falta de cuidado por aí, mas Um Príncipe em Nova York, em minha concepção, é um clássico do gênero de comédia com bastante respeito e autoridade. O elenco maravilhoso, a belíssima direção e o roteiro divertido – especialmente no início – concebem uma experiência hilária e bastante sentimental à medida que a trama avança. Sentimentalismo esse que detrai a qualidade cômica da obra como um todo, muito pela extensão desnecessária da fita, contudo, é um filme que merece ser revisitado. Independente dos problemas, Eddie Murphy em seu auge rodeado de talento na frente e por trás das câmeras merece atenção especial.

Um Príncipe em Nova York (Coming to America) – EUA, 1988
Direção: John Landis
Roteiro: Eddie Murphy, David Sheffield, Barry W. Blaustein
Elenco: Eddie Murphy, Arsenio Hall, Paul Bates, James Earl Jones, Madge Sinclair, John Amos, Shari Headley, Allison Dean, Louie Anderson, Eriq La Salle, Samuel L. Jackson, Vondie Curtis-Hall, Frankie Faison, Clint Smith, Cuba Gooding Jr., Vanessa Bell Calloway, Calvin Lockhart, Garcelle Beauvais
Duração: 117 min.

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13 comentários

Isaac 6 de março de 2021 - 22:29

O Eddie Murphy deu uma entrevista recentemente, em que ele fala que o ator Louie Anderson estava no filme, por obrigação da Paramount que queria pelo menos um ator branco no filme.

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Ivan Junior 5 de março de 2021 - 17:47

Acho um dos melhores e mais engraçados filmes do Eddie.

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Kevin Rick 5 de março de 2021 - 17:48

Concordo!

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pabloREM 3 de março de 2021 - 23:44

Eu já perdi a conta de quantas vezes vi esse filme. E sempre que encontro em algum canal acabo parando e assistindo novamente. Eddie Murphy é gênio. Só os velhos da barbearia já mereciam um filme só deles.

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Kevin Rick 5 de março de 2021 - 17:47

Mereciam mesmo! Hahaha

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Luiz Lima 3 de março de 2021 - 23:44

Toda vez que eu assisto esse filme, espero ansiosamente as cenas na barbearia. Daria pra fazer uma série se passando só nesse lugar. Eu pelo menos assistiria e tenho certeza que riria demais vendo os personagens do Eddie e do Arsenio conversando sobre tudo.

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Kevin Rick 5 de março de 2021 - 17:47

Eu também assistiria essa série fácil, fácil.

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fazaol 3 de março de 2021 - 23:44

No segundo filme, um filho perdido de akeen vai matar toda leveza e carater so personagem.
Acho que se ele tivesse um filho, wm zamunda, e o mesmo quisesse fazer o mesmo que Akeen, ir buscar relacionamento fora, faria mais sentido…
ou quisesse saber das origens americanas.
Mas um filho perdido… sei nao.

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Kevin Rick 5 de março de 2021 - 17:47

Também não sei se curto tanto a premissa do segundo filme, mas fico na esperança de ser bom.

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Ivan Junior 5 de março de 2021 - 17:48

Tomara que seja bom esse segundo.

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Vitor Guerra 3 de março de 2021 - 03:25

Ótima critica, tenho muito carinho por esse filme e tambem acho um classico da comedia.
Adoro a cena que o cara acha que o saco de doação da igreja era um saco de lixo kkkk

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Kevin Rick 3 de março de 2021 - 23:44

Obrigado, Vitor! Tenho um carinho muito grande pelo filme também. Ele é cheio dessas cenas maravilhosas como essa que você citou kkkk A minha favorita é quando o Oha começa a cantar sozinho na entrada da princesa escolhida para o Akeem. Passo mal de rir HAHAHAHA

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Diário de Rorschach 10 de março de 2021 - 12:20

A melhor cena é quando o cara convida eles pra festa, ai eles acham que vão ser membros ilustres e tal, ai corta a cena e eles tão do lado de fora com paletózinho de guardinha kkkkkkkkkkkkkkk

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