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Crítica | Um Retrato de Mulher

por Ritter Fan
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Um Retrato de Mulher é normalmente considerado um dos primeiros exemplares do film noir por excelência e é geralmente aplaudido por essas e outras características, mesmo considerando sua reviravolta final que Fritz Lang foi obrigado a incluir para manter o longa longe de problemas com o Código de Produção, em situação muito semelhante à que seu colega F.W. Murnau viveu com o fenomenal A Última Gargalhada, em 1924, na Alemanha. Sou obrigado, porém, a discordar da grande maioria que parece colocar o longa em um panteão inexplicável de obras-primas, pois, para mim, ele está longe – bem longe – disso.

Ainda que o gênero do film noir (que muitos dizem sequer ser um gênero, mas sim um estilo, com o que concordo) não tenha regras fixas do que as obras devem seguir para ganhar esse rótulo, ele é normalmente compreendido como uma conjunção de elementos importados do Expressionismo Alemão que caracterizam filmes de Hollywood sobre crimes de caráter cínico, protagonizado por homens durões, muitas vezes investigadores, e femmes fatales, com o subtexto sexual permeando a narrativa. Há diversos outros aspectos que poderiam ser mencionados, como a fotografia em preto e branco, o uso de narração em off e assim por diante, mas a variedade existente é gigantesca. E Um Retrato de Mulher sem dúvida é um desses longas, com Lang trabalhando uma evolução visual a partir de seus proto-noirs Fúria e Vive-se Só uma Vez, e chegando a um belo exemplar que poderíamos chamar de formalístico do referido gênero ou estilo.

Acontece que o roteiro de Nunnally Johnson, que escrevera o de Vinhas da Ira quatro anos antes, é uma lição de como trabalhar obviedades explicadas didática e cansativamente o tempo todo para que nenhuma sombra fique sem iluminação. Baseado em romance de J.H. Wallis, a história gira ao redor de Richard Wanley (Edward G. Robinson), professor de psicologia criminal de meia idade que, quando sua família parte para as férias de verão, deixando-o em Nova York, acaba se envolvendo com Alice Reed (Joan Bennett), a femme fatale de rigueur (se é para usar francês, voilà!) e matando seu amante. Segue daí uma tentativa desesperada de desvencilhar-se do corpo e, claro, a investigação policial que passa a circundar os dois.

Como disse, Johnson não deixa nada para o espectador pensar. Nem mesmo a identidade verdadeira do amante de Reed, que de Zé Ninguém de repente se torna um magnata, é deixado sem diálogos longos que desnecessariamente explicam o que ele fazia, a fama que tinha, a importância para a cidade e assim por diante. E, pior, é difícil acreditar no plano atabalhoado de Wanley para esquivar-se da investigação, especialmente quando descobrimos que um de seus melhores amigos, que vemos com ele em um clube de cavalheiros no começo da obra – depois da boa sequência que dá título ao filme – é o promotor público da cidade.

Mas o roteirista não tem culpa exclusiva. Lang, talvez concordando que o público tivesse que ter tudo explicado em seus mínimos detalhes, amplifica o didatismo com artifícios visuais que são de revirar os olhos. Cada sequência posterior à morte do amante de Reed é trabalhada de maneira a enumerar com gigantesca claridade cada um dos problemas do plano de Wanley para sumir com o corpo. Há o policial que para o protagonista por estar dirigindo à noite com os faróis desligados, o cobrador de pedágio que deixa cair a moeda, o policial na moto que dá um sorrisinho para Wanley e, claro, o risível momento em que Lang, não satisfeito com a marca de pneu na lama próximo ao lugar onde Wanley desova o corpo (depois de se cortar, lógico), ainda trata de fazer um close-up corrido, só faltando colocar setas vermelhas – se o filme fosse colorido, claro – para dizer para todo mundo algo como “olhe aqui, pois esse detalhe será muito importante, ok?”.

Talvez se Um Retrato de Mulher fosse uma comédia que representasse o adágio que diz algo como “cuidado com o que se deseja”, o longa tivesse seu mérito. Afinal, se o close-up na marca de pneu não fosse suficiente, o roteiro ainda tenta criar situações paralelas para dar um ar de complexidade, como a trama do chantageador que, na verdade, funcionam mais para permitirem saídas narrativas fáceis ao longa. Lógico que não tenho como não elogiar a coragem da sequência final – pré-epílogo solapado pelo Código de Produção, que fique claro – que daria ao longa uma gravidade no mínimo curiosa e instigante, ainda que combinando pouco com o que veio antes. Aliás, sendo muito sincero, o tal epílogo ridículo está mais em linha com as bobagens do plano de Wanley e com os eventos que se desdobram a partir daí do que o final desafiador de segundos antes.

Um Retrato de Mulher, porém, não é perda total. Robinson e Bennett fazem uma improvável, mas eficiente dupla na linha do que Humphrey Bogart consegue fazer com qualquer outra atriz bonita e a fotografia em preto e branco de Milton R. Krasner merece destaque, especialmente nas sequências “externas dentro de estúdio”, com uma iluminação noturna muito bonita a partir de reflexos com o bom e velho truque do chão molhado e um jogo de chiaroscuro discreto que marca algumas poucas sequências em interiores, como no primeiro encontro entre os protagonistas. Mas a beleza do longa não é suficiente para manter sua história em pé ou para tornar a narrativa mais convincente. Ao contrário, ela até acentua os problemas de um roteiro didático e de uma direção que segue exatamente a mesma linha.

Um Retrato de Mulher (The Woman in the Window – EUA, 1944)
Direção: Fritz Lang
Roteiro: Nunnally Johnson (baseado em romance de J.H. Wallis)
Elenco: Edward G. Robinson, Joan Bennett, Raymond Massey, Edmund Breon, Dan Duryea, Thomas E. Jackson, Dorothy Peterson, Arthur Loft, Frank Dawson
Duração: 107 min.

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