Crítica | Um Sinal de Esperança

O rádio já foi tema de duas narrativas envolvendo o ator Robin Williams entre os anos 1980 e 1990.  Em Bom Dia Vietnã, o seu personagem causou alvoroço numa base militar estadunidense durante o vergonhoso conflito bélico, ao propor novas formas de se comunicar por meio do rádio, meio de entretenimento dos soldados que viviam dias complexos em suas existências. No caso de Um Sinal de Esperança, o rádio é parte integrante do centro nervoso da narrativa, mas sequer existe enquanto objeto tátil, ao contrário, torna-se parte de um rumor que salvou a vida de bastante gente em outro conflito tão vergonhoso quanto o Vietnã: a Segunda Guerra Mundial e a opressão dos nazistas na Polônia.

Dirigido por Peter Kassovitz, cineasta que também assinou o roteiro, juntamente com Didier Decoin, dupla inspirada no romance homônimo de Jurek Becker, Um Sinal de Esperança flerta com a dura realidade da Segunda Guerra, especificamente no período em que os alemães ocupavam um espaço geográfico polonês e em meio aos projetos eugênicos e outras atrocidades, dominava não apenas pessoas, mas meios de comunicação, tal como o rádio, importante difusor de informações da época.

Ao longo de seus 120 minutos, o filme retrata a trajetória de Jakob (Williams), um homem que por conta de uma situação inusitada, acaba retido num quartel e precisa prestar depoimento informal para um representante militar. Lá ele encontra a tal pessoa numa situação peculiar com uma mulher sensual e platinada, divertindo-se ao som de canções e notícias radiofônicas. Mais adiante, vemos o seu encontro com uma garota que se perdeu da família durante um processo seletivo de pessoas para ida ao temível corredor mortal da câmara de gás. Ela é a segunda linha narrativa do filme, paralela ao rumor que se estabelecerá quando Jakob começa a criar histórias relacionadas aos novos passos da guerra que se arrastava por anos.

Em seus relatos criativos, Jakob contava as vantagens dos Aliados rumo ao local em que viviam, situação que permitiu a diminuição das taxas de suicídio entre os oprimidos, pessoas que começaram a acreditar nas histórias de Jakob e por isso, mantiveram a alavanca da esperança ativada. O problema é que ao passo que as histórias vão ficando cada vez mais elaboradas, Jakob se torna uma pessoa de renome em seu grupo, sendo reconhecido como o transmissor das “boas novas”, quando na verdade o rádio sequer existe.

O resultado dramático é catastrófico. Os nazistas descobrem que há alguém que supostamente detém um rádio e partem em busca da aventura de descoberta, tendo em vista não perder a supremacia e o controle diante do povo que comandavam. Torturado e humilhado, Jakob torna-se o mártir de uma história aterrorizante que ainda ecoa na contemporaneidade, haja vista a memória das atrocidades nazistas ainda tão próximas de algumas práticas legitimadas na atualidade.

Para narrar visualmente a trajetória de Jakob, o cineasta Peter Kassovitz conta com a direção de fotografia de Elémer Ragalyi, nublada e adornada por névoas, algo bem característico da atmosfera psicológica dos personagens, em sua maioria, esféricos e cativantes. O departamento fotográfico capta adequadamente os espaços erguidos pelo design de produção de Luciana Arrighi, igualmente eficiente nas dimensões espaciais de ambos os grupos retratados, além de ser acompanhado pela trilha melancólica de Edward Shearmur, presente constantemente no desenvolvimento da história.

Apesar de não existir como o objeto que levou Jakob ao seu destino trágico, o rádio ocupa um espaço privilegiado no que tange ao processo reflexivo sobre a importância da comunicação, bem como ao privilégio de detê-la. Sem informação, o povo subjugado pelos alemães penava diante da desesperança, enquanto os nazistas gozavam das vantagens de saber cada detalhe do que acontecia em seu entorno.

Um Sinal de Esperança — (Jakob The Liar) Estados Unidos, 1999.
Direção: Peter Kassovitz
Roteiro:Peter Kassovitz, Didier Decoin
Elenco:  Robin Williams, Igó, Hannah Taylor-Gordon, István Bálint, Justus von Dohnányi, Kathleen Gati, Liev Schreiber
Duração: 120 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.