Crítica | Uma Aventura Lego

“Presidente Negócios vai destruir o mundo? Mas ele é um cara tão legal! E Octan, eles fazem coisas boas: música, laticínios, café, programas de TV, sistemas de monitoramento, todos os livros de história, máquinas de votação…”

Quando duas mentes decidem novamente se unir, mas usar uma franquia renomada para comentar sobre a própria marca, suas propriedades e o mundo ao nosso redor, ao invés de explorá-la passivamente, ou seja, como uma oportunidade meramente visual e mercadológica, tudo torna-se incrível. Uma Aventura Lego é uma animação extremamente inteligente, e que acabou sendo equivocadamente esnobada no Oscar de Melhor Animação. O longa-metragem consegue expor os conceitos de imaginação, inerentes à infantilidade desses brinquedos, como uma redescoberta pessoal para os seus personagens, tanto o protagonista quanto o antagonista. Emmet (Chris Pratt) quer ser criativo, quer se transformar em um Mestre Construtor, enquanto o Presidente Negócios (Will Ferrel) renega esse seu viés pueril, preferindo manter as coisas no lugar em que supostamente deveriam estar. Contra as opressões, surge uma revolução pela criatividade.

Uma Aventura Lego é muito maior que uma mera aventura baseada nos blocos dinamarqueses. Caso essa fosse uma abordagem pouco diferenciada, o visual estaria a serviço de uma narrativa próxima aos dos games da série, os quais não precisariam ser, necessariamente, moldados pelas peças de encaixar. Muito pelo contrário a essa gratuidade, a essência da jornada e da aventura aqui retratada depende da própria marca existir. A comédia, por exemplo, joga com os elementos que o nome carrega por décadas. Quando refere-se ao rosto do protagonista, sua personalidade, a cara amarela realmente corresponde ao quão genérico é o personagem antes de conseguir se enxergar como único. Os polichinelos, paralelamente, revelam o quão limitados são os movimentos desses seres, no meio da extraordinária apresentação de Emmet, um jovem que não poderia ser mais ordinário. Os seus gostos são os mesmos dos outros e as suas expressões nada marcantes.

Ao mesmo tempo, a animação investe em uma camada secundária, ultrapassando a exploração das características do Lego como sendo a singular missão dos seus responsáveis. Uma Aventura Lego, portanto, também é uma animação que compreende um relacionamento com a nossa sociedade, pautando-se em uma crítica social não tão ímpar, contudo, impulsionada pela coesão entre as dinâmicas introduzidas gradualmente. A urgência por ser especial a tudo e todos. Qual é a graça em seguir o manual, enfim? Com isso, a riqueza de gêneros é outra evidência dessa multipluralidade de imaginações, justamente ao principiar a importância de duas potências criativas do cinema: a ficção-científica e a fantasia. O controle do antagonista sobre a sua população, por exemplo, remete às clássicas ficções-científicas. Já a jornada do herói, marcada por uma profecia, um mago e grupos de guerreiros, emerge uma vertente que é inspirada em produções de fantasia.

Especialmente em razão do seu teor cômico, evidencia-se uma obra destinada às crianças. Quando Emmet encontra Megaestilo (Elizabeth Banks) pela primeiríssima vez, Phil Lord e Christopher Miller decidem estender o tempo do primeiro olhar do protagonista. Essa é a comédia que se repete em si mesma. A queda posterior, em que o personagem encontra o objeto ansiado pelos Mestres Construtores, oposição ao Presidente Negócios, também é uma gag das mais cansativas e infantis possíveis. Por sorte, os cineastas usualmente conferem alguma associação com a marca nesses casos – o policial com dois rostos, por exemplo. Já ao precisar ser mais comercial para os meninos e meninas, o longa-metragem apresenta personagens conhecidos, como o Batman (Will Arnet), surgindo para o público como a força negativa e pessimista que é. O grande barato da obra é que as referências são o que a animação possui de menos interessante.

Como construção de mundo, muito além da sua orgânica estética, que reproduz a pretensão dos stop-motions em serem verossímeis – a computação, aqui, se passa por realidade -, Uma Aventura Lego concretiza, espacialmente, até uma proposta por cenários diversos, unificando-os na mesma mesa. Aqui, os aspectos de universo estão pautados numa mistura entre live-action e animação, coisa de adulto e de criança, que não precisaria ter descambado para a vida real completamente, assim expondo a graça e a mensagem. A emersão apresenta medo, deixando óbvia a coerência e riqueza da animação. A sensação passada, no decorrer dos acontecimentos, já era a de uma criança brincando com essas peças, conduzindo sequências de ação super explosivas, que se destroem e se reconstroem. Os animadores usufruem da mitologia Lego e suas particularidades para propor pensamentos acerca de como, atualmente, a marca se comporta em um mundo real.

Uma Aventura Lego (The Lego Movie) – EUA, 2014
Direção:  Phil Lord, Christopher Miller
Roteiro: Dan Hageman, Kevin Hageman, Phil Lord, Christopher Miller
Elenco: Chris Pratt, Elizabeth Banks, Will Arnett, Craig Berry, Alison Brie, David Burrows, Anthony Daniels, Charlie Day, Will Ferrell, Morgan Freeman, Channing Tatum, Cobie Smulders, Liam Neeson.
Duração: 100 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.