Crítica | Uma Aventura Na África

A era de ouro hollywoodiana remete a uma glamourização bastante característica na construção de suas narrativas, romantização facilmente conquistadora, seja em qualquer tempo, embora olhando em uma perspectiva atual, é inegavelmente perceptível seu caráter elitista em alguns casos, como Uma Aventura na África, esses clássicos envelhecem mal,  ficando mais pertencentes ao próprio tempo do que a uma universalização intencionalmente pregada por suas estruturas. 

Sei que é dever de todo cinéfilo levar o fator tempo em consideração, principalmente em uma análise, contudo o cinema também obedece a lei da conservação das massas de Lavouiser: “Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Logo, qualquer filme, mesmo os clássicos, está sujeito a um termômetro qualitativo diferenciado a depender do momento em que está sendo visto. Hoje, embora tenha muitos méritos como exercício de gênero, existe um incômodo vigente na premissa de vilanizar ou excluir os povos de seu próprio ambiente.

Pegamos a forma como o filme foi vendido à época, com dois astros absolutos, dois dos  melhores artistas de todos os tempos, Humphrey Bogart e Katharine Hepburn, reunidos em uma aventura pela África filmada em grande parcela no próprio continente. A intenção de filmar por lá permeava uma espécie de globalização do cinema, “Hollywood visita e vivencia o continente africano”, um desafio poucas vezes realizado, muito menos com astros de tal calibre. John Huston comandou esse processo pelo bem, obviamente, da realidade cinematográfica. Nesse sentido, certo ele, a vivacidade de estar no local da ação garante a imersão na história de maneira mais eficiente, o filme respira a natureza africana, embora não respire a África em si, que é o conjunto da savana, seu povo e suas culturas, deliberadamente esquecidos na narrativa.

Sei também que existe a licença poética do contexto da Primeira Guerra em qual se passa a história, contudo isso só fortalece negativamente as intenções não alcançadas do projeto. Negros, quando aparecem, não têm suas falas em outra língua legendadas, são meros colonizados, fogem de vista no primeiro ato de invasão dos alemães e só voltam a aparecer em uma outra cena, atirando no Africa Queen sem a garantia de ter alguém lá, como se fossem animais irracionais. Para um filme que buscou filmar no cenário para vender uma ideia de democratização de Hollywood, é no mínimo infeliz ter só isso de interação dos astros com o verdadeiro povo daquele local. 

Pensando em linearidade narrativa, poderia em outro momento haver algum encontro dos dois com os aborígenes ainda não avistados pelos alemães ou sobreviventes de algum ataque, poderiam ser até os mesmos do início, o que seria um complemento e tanto para a jornada principal, consistindo na vingança de Rose contra os alemães. Seria uma solução sutil e eficaz ao discurso pregado inicialmente pelas intenções do filme, sem atrapalhar a narrativa clássica, tampouco o brilho dos reais protagonistas hollywoodianos. Contudo, o que se passa é um certo ar de arrogância nas entrelinhas, o nome do barco, por exemplo, evidencia muito desse conforto “branco”, um bem material marcante que possibilita aos dois sobreviverem àquela hostilidade e ainda os coloca como “reis” daquele local, mesmo praticamente sem colocarem os pés no chão. 

Não desmerecendo, entretanto, os feitos dos dois nos desafios que enfrentam, afinal, os privilégios não os impedem de sujar as mãos, sem contar que existe no paralelo de suas interações uma forma de cada um se desvincular de seu conforto. Rose da finura burguesa solteirona e Charlie da malandragem egocêntrica orgulhosa. Isso é elaborado em um panorama muito interessante de humor, gerado automaticamente pelo rebate de contrastes nas diferentes situações de perigo que também ajudam no desenvolvimento dos personagens, algo equilibrado com um timing perfeito de direção e talento da dupla principal. Lógico que em determinado momento essa interação, como clássica daquela época, vira um romance, que mesmo sendo abrupto e superidealizado, funciona pela química inquestionável dos dois.

Química crescente e de acordo com a sucessão de desafios, ininterruptos, mas com uma noção inteligente da valorização dos espaços entre as cenas, garantindo um ritmo extremamente estimulante, principalmente no período central em que são basicamente os dois versus a natureza. Há uma diversificação variada de obstáculos, criando uma dinâmica bem única e nem um pouco repetitiva: corredeiras, mosquitos, crocodilos, junco, sanguessugas, chuva e o próprio barco que não colabora, tendo que ser remendado o tempo todo. O carro-chefe ficaria com a resolução dos alemães, que funciona muito bem por ter a solução pouco plausível plantada logo cedo, gerando uma expectativa de como ela seria realizada, e apesar de usufruir de uma grande coincidência, garante um clímax de grandiosidade coerente com o decorrer, sem apelar para algo mais espalhafatoso.

Essa naturalidade de escala é o que fez o filme envelhecer bem, no sentido de ser divertido de se ver até hoje, embora, como descrito, esteja datado em algumas convenções de estereótipos que diminuem o poder universal da história. É difícil clássicos de quase 70 anos sobreviverem intactos em todas as suas características, mesmo fazendo vista grossa. Uma Aventura na África possui incongruências desde sua época, mas que só ficaram mais evidentes conforme o cinema hollywoodiano foi ficando menos elitista, aspectos que infelizmente não podem ser ignorados neste caso. De qualquer forma, longe de ser ruim, é digno do clamor das indicações a melhor roteiro, direção e atriz, e da estatueta de melhor ator no Oscar de 1952, além de uma posição gratificante na lista dos melhores filmes de todos os tempos do American Film Institute, só não dá para fechar os olhos para o lado ruim que ele representou.

Uma Aventura na Africa (The African Queen – EUA/Reino Unido, 1951)
Direção: John Huston
Roteiro: C.S. Forester, James Agee, John Collier, John Huston e Peter Viertel – Baseado no romance de C. S Forrester.
Elenco: Humphrey Bogart, Katharine Hepburn, Errol John, Peter Bull, Peter Swanwick, Richard Marner, Robert Morley, Theodore Bikel, Walter Gotell
Duração: 105 min.

IANN JELIEL . . . Um aspirante a jornalista que acabou descobrindo no cinema um refúgio para sair da engrenagem robótica da sociedade, como em "Matrix", onde tudo segue uma rotina protocolar implantada na mente. Olho a sétima arte como um quebrador desses paradigmas, capaz de nos fazer refletir sobre qualquer espectro existencialista da humanidade, e ao mesmo tempo nos encantar e entreter com suas milhares de histórias transcendentais em corpo e alma. Por isso, escrevo sobre ela, pois foi nos textos críticos que aprendi a olhá-la dessa forma libertadora, e espero libertar muitos da mesma forma.