Crítica | Uma Canção Élfica (Elfen Lied)

plano critico anime Uma Canção Élfica (Elfen Lied)

SPOILERS!

Um dos melhores, senão o melhor, do gênero gore e drama, Elfen lied dizima o estereótipo construído sobre os animes, comumente associado a clichês românticos, com diálogos superficiais e uma história que só agrada pré-adolescentes. Aqui, encontramos um anime que, embora tenha todos os estereótipos citados, cativa quem procura um drama eficiente, com arcos bem construídos, e que não economiza no vermelho em cenas de massacre.

Lucy (Sanae Kobayashi) faz parte dos Diclonius, uma raça evoluída dos homo sapiens sapiens, que possuem mãos invisíveis com alto poder de luta. Quando a garota consegue fugir do laboratório em que estava aprisionada, ela é acolhida por Kouta (Chihiro Suzuki) e Yuka (Nancy Novotny), dois humanos que apenas a notam em sua forma meiga, conhecida como Nyuu. Eles precisarão lidar com as perseguições das autoridades ao passo que lutam contra o passado sombrio e esquecido de Kouta e os mistérios envolvendo os Diclonius.

Na primeira sequência, acreditamos que o anime será apenas de mortes. Isso porque o primeiro episódio é apenas de Lucy fugindo do laboratório e aniquilando todos os soldados à sua volta. Entretanto, essa visão é deturpada pela dupla personalidade de Lucy, apresentada a partir do segundo episódio, em que ora é uma garota clichê do gênero japonês, ora é uma assassina brutal na qual tememos. Lucy desperta um ar de simpatia a partir do segundo episódio, quando desperta a doce Nyuu. Embora essa mudança radical cause desconforto imediato, principalmente para quem esperava apenas o gore, a dupla personalidade é um dos fatores mais importantes para prender o espectador. De um lado, torcemos para que Lucy seja capturada, afinal ela é a antagonista, de outro ficamos apaixonados pela Nyuu. São dois sentimentos ao mesmo tempo, canalizados em um único personagem.

Seria comum que, por causa disso, a personagem ficasse incoerente. Por exemplo, não daria para diferenciar uma personalidade da outra, causando confusões. Entretanto, os traços do anime ajudam a dissociar as duas personagens. Enquanto Nyuu têm o rosto mais aberto e com a pupila dilatada, Lucy é acompanhada por olhos profundos e sombras nas franjas. Essa diferença nos ajuda a entender para quem estamos olhando, ao passo que causa um (tremendo) medo quando, de uma hora para outra, Nyuu se torna Lucy.

Logo nos é apresentado uma relação harmoniosa entre Nyuu e Kouta. Aqui, cai aquela ficha de que estamos assistindo um clássico anime japonês e somos induzidos a pensar “poxa, outra história simplória recheada de ecchis que não servem de nada… típico do Japão!” No entanto, Elfen Lied ganha de 7 a 1 contra a maioria dos animes de drama. Incrivelmente, os pilares não estão nas histórias dos protagonistas, mas sim no que os rondam. A narrativa de Mayu é, além de uma lição de vida, uma artimanha para introduzir a dramaticidade. Na história, Mayu é uma garota de treze anos que fugiu de casa após seu pai a abusar sexualmente diversas vezes. Na rua, a menina encontra um cãozinho abandonado que a acompanha durante toda a saga.

Se me contassem que uma aventura tão tradicional em obras audiovisuais causasse tanta comoção eu não acreditaria. Entretanto, em Elfen Lied foi diferente. Os traços bem desenhados nas cenas de solidão, somado à boa construção da relação da personagem com seu cachorro não nos deixa angustiados pela perspectiva de assistir a um filler, ou seja, algo que não teria tanto impacto na história. Detalhe que uma das cenas mais tristes do anime é quando a antiga dona do cão o encontra nas mãos de Mayu (Emiko Hagiwara) e, então, o leva de volta para a antiga casa. Acontecimento comum em obras audiovisuais? Sim. Muito bem desenvolvido? Também. Outro arco interessante é o de Kurama (Osamu Hosoi), o responsável pelas pesquisas com os Diclonius. A relação paternal dele com a Diclonius Nana (Yuki Matsuoka) é um dos pontos centrais do anime. Embora de imediato não explore essa relação harmoniosa entre os dois personagens, no desfecho essa citação é o que induz um belíssimo – e tristíssimo – gran finale.

No final, descobrimos a Diclonius mais forte, Mariko (Tomoko Kawakami), verdadeira filha de Kurama. Para controlar o poder da garota, o laboratório introduziu explosivos em todo seu corpo. Caso ela tentasse algo diferente, explodiria. A propósito, quando a personagem aparece no episódio 11, sentimos que enfim o gore voltaria a ser prioritário, como no primeiro episódio, principalmente pelo temor criado em torno do seu poder. Embora Mariko de fato traga o gore que já estava escondido por trás do anime, ela é apenas mais um elemento para alimentar o drama do final.

No último episódio, Kurama trai o laboratório e resolve tentar salvar Mariko. Os planos não dão certos e os dois morrem devido aos explosivos presentes na garota. Essa sequência, apesar de previsível, é recheada de componentes que tonalizam a dramaticidade. Por exemplo, isso acontece enquanto Nana está olhando para Kurama. Então, assistimos a morte do cientista enquanto ouvimos gritos de uma suave voz gritando “papai!” Note, ainda, que neste ponto já criamos um apreço por Nana, portanto é algo que toca fundo no coração. Já Lucy e Kouta parece que ficaram no background, apesar da maioria das cenas conter eles como protagonistas. O anime não explorou tanto a narrativa de Lucy, mostrando apenas uma ou outra cena independente durante a infância. Já a infância de Kouta é totalmente acompanhada. Enquanto isso, as cenas no presente também não desenvolve muito as histórias, mas servem para que potencializamos as relações de afeto com todos os outros personagens.

Kouta fica tão em segundo plano, que os produtores não construíram realmente uma história misteriosa no passado dele. Embora só tenhamos a confirmação no último episódio, não era imprevisível o que tinha acontecido com a irmã e com o pai, falecidos misteriosamente. Se Elfen Lied quis manter o segredo sobre quem assassinou os parentes de Kouta, é claro que falhou miseravelmente. Entretanto, o anime dá dicas desde o segundo episódio sobre o que aconteceu com a irmã e com o pai de Kouta, então é presumível que os produtores realmente não quiseram causar um plot twist. De qualquer forma, a cena do trem, no penúltimo episódio, em que nos é apresentado o assassinato dos parentes de Kouta, é uma das que mais causam agonia. Mesmo que previsível, é digna de ser assistida. Na cena citada, a irmã de Kouta sabia do verdadeiro lado maléfico de Lucy. Ela estava gritando que a Diclonius era uma assassina, só não sabia que a mutante estava logo atrás dela. Imaginem o desespero quando assistimos os traços dos olhos profundos da Lucy olhando a garota judiar dela. O resto da cena, não preciso nem especificar…

Outro ponto marcante é que o anime não se sente intimidado na presença de personagens infantis. Mayu, por exemplo, é apresentada totalmente nua quando está sendo abusada pelo pai – talvez por isso a cena tenha mais impacto que outras com o mesmo dilema. Outros personagens mirins também não são perdoados, como a cena da infância de Lucy na qual a garota decapitou três crianças que praticavam bullying com ela. Nem os cachorros ficam de fora da maldade do anime: em uma cena, um garoto bate com uma jarra de flores em  um filhote até a morte. E tudo é mostrado.

Também não posso deixar de dar os créditos para abertura. Inclusive, os instrumentos musicais da opening é a única trilha sonora do anime. Contudo, ela é tão magnífica que não causa qualquer incômodo, mesmo que usada para além do comum. Se acham que a trilha já é demais por aparecer tanto na abertura quanto durante o anime, se controlem porque vem mais: a trilha sonora é objeto utilizado pelos personagens dentro da trama. A música é um gatilho da infância de Lucy que, em determinado momento, a faz transitar de Nyuu para o lado maléfico. Mas cá entre nós: a abertura belíssima!

É uma pena que o final do anime ficou aberto. A última cena é uma silhueta parecida com Lucy (supostamente morta) na porta da casa de Kouta. Isso seria um erro, mas devemos relevar, pois o mangá ainda estava em desenvolvimento quando o anime teve seu desfecho. Portanto, ainda não era possível saber se Lucy estaria viva ou não. Elfen Lied é um gore, que também foca bastante no drama. O anime é um merecidíssimo clássico, que se sustenta em traços bem desenhados e uma narrativa bem pensada. Embora os protagonistas não sejam de fato o elemento principal, as narrativas que os envolvem suprem essa questão com facilidade. O único ponto negativo a destacar é que, infelizmente, Elfen Lied não dura para sempre…

Elfen Lied (Erufen Rîto) – Japão, 2004
Criado por: Lynn Okamoto
Direção: Mamoru Kanbe
Roteiro: Takao Yoshioka
Elenco: Sanae Kobayashi, Chihiro Suzuki, Mamiko Noto, Tomoko Kawakami, Hitomi Nabatane, Emiko Hagiwara, Yuki Matsuoka, Osamu Hosoi, Nancy Novotny
Duração: 13 episódios com 23 min.

FERNANDO ANNUNZIATA . . . Por meio de um sonho, fui convocado pessoalmente pela Marilyn Monroe a participar do mundo das críticas cinematográficas. Sem saber o que esse mundo me reservava, cavalguei com a Lady Godiva em busca do Lendário Livro de Verdades. Atravessamos Gotham, Hogwarts e Twin Peaks atrás do nosso objetivo. Com a revelação dentro de um baú feito de mármore a dois metros dos nossos olhos, nos deparamos com o melhor final possível: o Livro era um espelho. Agora sou o dono de todas as verdades e faço parte de um culto de bruxos chamado Plano Crítico. A única resposta que não tenho é se prefiro minha antiga vida, quando eu era um mortal estudante de Comunicação Social de 18 anos, ou a vida atual, na qual eu descobri a verdade sobre Bohemian Rhapsody.