Crítica | Uma Estalagem em Tóquio

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Há uma grande similaridade entre a temática central de Uma Estalagem em Tóquio e o filme anterior de Yasujiro OzuUma História de Ervas Flutuantes (1934). Em ambos os filmes existe uma veia social em evidência — e isso não era nada novo na filmografia do diretor –, mas o roteiro vai paulatinamente deixando o aspecto de construção do drama social mais os impactos que isso tem para uma pessoa, para uma família, e foca em um cosmo ainda menor, dando atenção para as paixões-relâmpago, para certas lembranças, para atitudes corajosas em relação ao futuro.

E mesmo com todas essas semelhanças, vemos uma diferença primordial: o refinamento amplo dessa narrativa. O foco do diretor aqui era filmar com realismo a vida de Kihachi (Takeshi Sakamoto), um homem desempregado que cria dois filhos e caminha todos os dias pela área industrial de Tóquio, indo de fábrica em fábrica para vez se consegue alguma vaga. A delicadeza de Ozu ao tratar de forma cada vez mais dolorosa a vida dessas pessoas aproxima o filme de uma figura emocional à la De Sica, mas não com a crueza total do diretor italiano. Ozu é mais sutil, preocupado não apenas em representar a realidade de modo que possamos nos identificar com o que vemos na tela, mas também com a beleza escondida nesse ambiente, com as pequenas vitórias, gentilezas e sacrifícios dos que lá estão.

Num primeiro momento, texto e técnica são imbatíveis. Pais e filhos pequenos andam, todos os dias, por uma região de fábricas que ao longe jogam fumaça na atmosfera. Eles estão pouco e mal vestidos e vivem de levar cães de rua para serem vacinados contra a raiva, campanha que pagava uma pequena quantia aos cidadãos que fizessem isso, ajudando a prevenir uma epidemia. A pequena quantidade de dinheiro e a fome das crianças já seriam o bastante para fazer com que o filme funcionasse muito bem, visto que tudo isso recebe um tratamento simples e elegante por parte do diretor, inclusive brincando de maneira muito inteligente com um ciclo de ações cotidianas, sem jamais estacionar a obra e segurar-se apenas na técnica. Mas o filme vai além. Nesse tratamento do dia-a-dia, lembramos do trabalho do cineasta em Meninos de Tóquio, dando a cada ciclo algo novo e uma série de coisas que mostram o desenvolvimento dos personagens (inclusive das crianças) e do próprio filme.

É curioso que mesmo estando em um cenário fabril, Uma Estalagem em Tóquio não mostra tantas máquinas, nem a passagem do trem como um coadjuvante da história. No presente caso, o roteiro de Masao Arata e Tadao Ikeda, baseado em uma história de Ozu, olha para os indivíduos e dá espaço ao seu sofrimento, aos seus sentimentos e até à sua imaginação. Uma das cenas mais ternas do cinema está justamente aqui, quando pai e filhos, famintos, fazem toda a mímica de uma refeição completa, simulação que corta o coração do espectador e traz algo de novo para a busca do trio, acabando, por fim, na estalagem da qual fala o título, que é quando o filme começa a ter problemas.

Então vemos um escanteamento abrupto dos meninos e um avanço pouco cuidadoso quando falamos do personagem de Takeshi Sakamoto. A despeito disso, a dureza da realidade não é colocada de lado e, apesar da toada melodramática que se estabelece aqui, o roteiro está com os dois pés no chão e sabe lidar melhor com os sentimentos diante de uma tragédia ou sofrimento pessoal e social, se compararmos com a mesma premissa vista em Uma História de Ervas Flutuantes. O sentimento ocultado, a possibilidade de ajudar quem está pior e a visita de alguns fantasmas do passado são ingredientes que chegam à fita em seu desfecho, cortando um pouco o drama paterno tão brilhantemente construído até ali. Ao mesmo tempo, vê-se o reforço da tristeza que é viver na miséria, contando moedas, preocupado se conseguirá fazer a próxima refeição, mais facilmente propenso à criminalidade como último recurso. Uma exposição lírica e ainda assim, impiedosa, de uma realidade sociais que em nada nos é estranha.

Uma Estalagem em Tóquio (Tôkyô no yado) — Japão, 1935 
Direção: Yasujiro Ozu
Roteiro: Masao Arata, Tadao Ikeda (baseado em uma história de Yasujiro Ozu)
Elenco: Takeshi Sakamoto, Yoshiko Okada, Chôko Iida, Tomio Aoki, Kazuko Ojima, Chishû Ryû, Takayuki Suematsu
Duração: 80 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.