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Crítica | Uma Fada no Apartamento, Um Bule de Chá e O Caso da Pérola Rosa, de Agatha Christie

Um casal no ramo da investigação.

por Luiz Santiago
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Aqui em Sócios no Crime: Casos de Tommy e Tuppence temos o retorno do casal de detetives amadores Tommy e Tuppence, que fizeram a sua charmosa estreia no livro O Adversário Secreto (1922). Composta por 17 contos, esta coletânea traz histórias de Agatha Christie que foram originalmente publicadas entre 1923 e 1928, em diferentes revistas. Uma das premissas das histórias aqui coletadas é a de parodiar diferentes autores de mistério ou personagens do Universo da literatura policial. Vamos às três primeiras dessas aventuras!

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Uma Fada no Apartamento e Um Bule de Chá

A Fairy in the Flat e A Pot of Tea

A maneira como esses dois contos (ou capítulos) iniciais de Sócios no Crime são apresentados nos dá uma clara noção de como o a Rainha do Crime organizou todo o livro, unindo os contos de modo a parecer que fazem parte de uma grande e única narrativa, o que é sempre mais gostoso de se acompanhar, convenhamos. Essas duas tramas iniciais tiveram como base uma outra aventura escrita pela autora, intitulada Publicity, que saiu originalmente na The Sketch #1652, em 24 de setembro de 1924.

Já o elemento externo parodiado no texto é o livro Malcolm Sage, Detective, de Herbert George Jenkins, especialmente no primeiro capítulo, quando o humor ácido marca a conversa entre o casal protagonista e cria o “cenário de problemas” que empurra a ambos para uma aventura.

Tuppence, como sempre, está ansiosa e angustiada, porque não suporta o tédio da “boa vida de casada” (aqui, já se passaram seis anos desde o casamento dela com Tommy!). A jovem quer aventuras e compartilha isso da forma mais crua com o marido, que só quer paz. O pedido da mulher, no entanto, é atendido “por uma influência secreta das fadas” (Christie até brinca com a crença de Arthur Conan Doyle nessas criaturas fantásticas), porque aparece o Sr. Carter, um velho conhecido e atual chefe de Tommy, propondo que o casal assuma a International Detective Agency. O fim do tédio chegou para Tuppence!

Esta casa detetivesca, na realidade, é uma agência em ruínas que possivelmente está em vias de descobrir algo importante ligado ao número 16 — algo este que permanece um mistério mesmo no fim da trama, já que o enredo aqui dá conta apenas da (re) introdução da dupla para o leitor. E também de seu estabelecimento como “detetives profissionais e donos de uma importante agência” — notem o caráter humorístico que a autora já consegue com essa premissa.

O caso, portanto, é de um engenho simples, mas muito divertido. Tuppence é quem se torna responsável pelo impulso que a agência precisava para ganhar o prestígio necessário e, consequentemente, a chegada de mais e mais clientes. Isso vem através do desaparecimento de uma jovem que um desesperado pretendente de sangue azul (Lawrence St. Vincent) quer encontrar de toda forma. O toque cômico da paródia vem justamente pelo caráter do caso, um engodo ensaiado por Tuppence com uma antiga amiga enfermeira, da época da guerra. Um começo divertido, ágil e que mostra o casal de maneira muitíssimo mais interessante do que foi mostrado em sua aventura de estreia.

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O Caso da Pérola Rosa

The Affair of the Pink Pearl

Este conto foi originalmente publicado na The Sketch #1653, em 1º de outubro de 1924, e traz elementos do detetive Dr. Thorndyke, de R. Austin Freeman, literalmente citado em um diálogo entre os sócios no crime. O começo dessa história é muito engraçado. Tommy está organizando uma pilha de famosas histórias de detetive, pois acha que elas seriam muito importantes para ele e Tuppence treinarem dedução, técnicas de interrogação e de investigação, já que estão fingindo ser detetives profissionais.

Além disso, há um novo brinquedinho na área: ele agora tem uma boa câmera para tirar fotos de pegadas e, como diz, de “todo esse tipo de coisa“. E aí está mais uma alfinetada da autora a essa tipo mais “cão farejador de pistas” do qual ela sempre tirou sarro, mas que nunca deixou de usar em seus livros e contos, às vezes com tom irônico, outras com tom de respeitosa e verdadeira utilidade.

É nesse clima de insegurança do jovem detetive que surge uma nova cliente, a senhorita Kingston Bruce. Ela mora em Wimbledon, com seus pais, e na noite anterior à sua visita, um de seus convidados perdeu uma valiosa pérola rosa. Os Blunts foram recomendados a eles por Lawrence St. Vincent (do conto anterior: como se vê, o boca-a-boca funciona até mesmo nessa área!), que era um dos convidados. Desse ponto em diante é que o enredo de fato começa a funcionar e vemos o processo investigativo bem mais puxado para o humor, sem muita coisa que nos chame atenção. Pelo menos nesse miolo do conto, o texto ainda consegue manter bem a nossa atenção.

A resolução do caso, infelizmente, acaba indo pelo caminho da indiferença, da falta de uma maior dose de elementos instigantes, sejam cômicos, sejam de ação ou mesmo de “grande revelação“. Ela não é exatamente decepcionante, mas não traz nenhum tipo de grande construção dramática, diálogos muito inteligentes e nem mesmo um detalhe que seja verdadeiramente memorável. É um final coerente, claro, mas bastante básico, como o restante da obra.

Sócios no Crime: Casos de Tommy e Tuppence (Partners in Crime) — Reino Unido, 1929
Autora: Agatha Christie
Publicação original: Dodd Mead and Company
Edição lida para esta crítica: Globo Livros; 1ª edição (29 agosto de 2019)
Tradução: José Carlos Volcato
320 páginas

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