Crítica | Uma Galinha no Vento

Segundo filme após a Segunda Guerra Mundial de Yasujiro Ozu, Uma Galinha no Vento é um soco no estômago mesmo considerando seus problemas. Nos arredores de Tóquio e à sombra de um enorme gasômetro, o cineasta foca em um Japão assolado pela inflação, pelo racionamento de comida, pela pobreza e pela completa falta de escolha. Uma verdadeira prisão para qualquer habitante desse cenário realista e opressor de um país derrotado, humilhado e colocado de joelhos, depois de aliar-se com o literal diabo.

Aguardando o retorno de seu marido da guerra, Tokiko (Kinuyo Tanaka, curiosamente vivendo a segunda personagem de mesmo nome em filmografia de Ozu, com a primeira tendo sido em A Delinquente) vive cada dia de sua vida em prol de seu filho pequeno Hiroshi. Sem poder trabalhar e com dinheiro sempre faltando, quando o pequeno adoece e precisa ser hospitalizado, ela não tem outra opção que não seja prostituir-se por uma noite para pagar o que deve. Quando o marido finalmente volta, os dois têm que lidar com essa terrível verdade.

Ozu é cuidadoso ao lidar com a decisão de Tokiko. Nada é fácil e a construção da situação de penúria dela e de todos ao seu redor é chave para tornar sua entrega crível e dolorosa, com Tanaka convencendo-nos da inexistência de qualquer outra possibilidade. Mas é importante lembrarmos que estamos falando de um filme japonês dos anos 40 dirigido por Ozu, pelo que não se pode esperar aquele drama típico de fitas ocidentais. Há um certo distanciamento da câmera e as feições de Tanaka são sempre sóbrias, com apenas breves indicações de desespero mais familiares aos nossos olhares.

Quando o marido, Shuichi Amamiya (Shūji Sano, o filho crescido de Era uma Vez um Pai), entra na narrativa, o segredo não resiste nem mesmo ao primeiro diálogo entre eles, revelando inocência e honestidade extremas por parte de Tokiko, além de uma certa confiança, talvez esperança, de que nada mudará. Mas, previsivelmente, a reação do marido, mesmo distante da esposa por quatro anos, é fria, inconformada, sem saber lidar com a informação e com o que ela fez. Com isso, claro, o sofrimento de Tokiko é amplificado, com sua culpa pelo ato em si transformando-se em culpa por também trazer tristeza ao marido.

Ozu não condena, mas desnuda a estrutura patriarcal japonesa nos conflitos que se seguem e, apesar de as demonstrações de afeto serem raras, Uma Galinha no Vento é um dos filmes mais “físicos” do diretor em sua fase mais madura, com muita movimentação corporal, muito foco na subida e descida da escadaria que leva ao quarto que o casal aluga no andar de cima de uma casa humilde e, mais para o final, aí sim, corpos tocando-se mais fervorosamente. No entanto, o que fica, muito claramente, é o ônus que repousa sobre os ombros de Tokiko, ônus esse que só aumenta, tornando-se insuportável e realmente destruidor.

Tokiko não só precisa viver com o que fez, o que por si só já seria insuportável, mas também justificar-se perante sua melhor amiga e literalmente implorar perdão do marido que mais facilmente perdoa uma prostituta de 21 anos que ele conhece do que sua própria esposa. E a fisicalidade aumenta com o conflito entre marido e mulher sendo acentuado, até um clímax extremamente incômodo e doloroso e que é uma verdadeira surpresa na filmografia de Ozu até esse ponto.

Assim como em Discurso de um Proprietário, as tomadas externas de Uma Galinha no Vento tem como objetivo encapsular o momento histórico da narrativa, deixando evidente a desolação do pós-Guerra. Mas, diferente de sua obra anterior, em que ele lida com os ambientes quase como terra arrasada, com o lixo imperando, aqui o cineasta Ozu a onipresença do gasômetro para esmagar seus personagens, para enjaulá-los em uma situação da qual não há saída. Todas as decisões e escolhas ao longo da fita parecem ser resultados diretos da subjugação do Japão e sua subsequente ocupação.

Uma Galinha no Vento é uma das obras mais sérias e pesadas de Yasujiro Ozu, com mais um excelente trabalho de atuação do casal protagonista. E é particularmente desconfortável notar que a problemática que ele aborda talvez não tenha evoluído tanto quando gostaríamos de imaginar que evoluiu.

Uma Galinha no Vento (Kaze no naka no mendori – Japão, 1948)
Direção: Yasujiro Ozu
Roteiro: Yasujiro Ozu, Ryôsuke Saitô
Elenco: Kinuyo Tanaka, Shūji Sano, Chieko Murata, Chishū Ryū, Hohi Aoki, Chiyoko Ayatani, Reiko Mizukami, Takeshi Sakamoto, Eiko Takamatsu
Duração: 84 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.