Crítica | Uma Grande Aventura (1978)

A existência simultânea de coelhos, John Hurt e Art Garfunkel em uma animação do final dos anos 70 já é o suficiente para atiçar a curiosidade de qualquer cinéfilo, sem que sejam necessárias outras considerações. O fato de Uma Grande Aventura (patético título genérico brasileiro…) ser uma adaptação bastante fiel de Em Busca de Watership Down, clássico literário britânico de 1972, por Richard Adams, torna-o quase que obrigatório.

Adams escreveu seu romance de estreia por insistência de suas filhas, que queriam ver em forma de livro as histórias que ele improvisava e contava para elas em suas longas viagens de carro. Sua história é centrada no coelho Hazel que, depois que seu amigo Fiver tem uma visão apocalíptica sobre o lugar onde moram, arregimenta um grupo para procurar uma espécie de terra prometida, o Watership Down do título do livro, um lugar que realmente existe e que é perto de onde Adams morava, ao norte de Hampshire, na costa sul da Inglaterra. Depois de ter sua obra negada por diversas editoras (é impressionante a quantidade de clássicos que nascem da cegueira de editores, não?), ela acabou sendo publicada por Rex Collings, imediatamente angariando prêmios e sucesso.

A primeira adaptação audiovisual veio, então, seis anos depois, tornando-se uma das maiores bilheterias britânicas da época e “chocando” audiências além-mar que desconheciam o livro em razão da forma realista e violenta como lida com a ninhada de coelhos em seu conto de sobrevivência em busca do equivalente a Shangri-Lá. Se associamos a imagem desses roedores a coisas “fofinhas”, a animação dirigida por Martin Rosen, em seu primeiro (de apenas três) trabalhos na cadeira de diretor, depois que a primeira escolha, John Hubley, faleceu em 1977 deixando apenas o prólogo pronto, faz de tudo para desconstruir essa nossa impressão sobre os bichinhos. E o objetivo é muito bem alcançado, inclusive com um trabalho primoroso para inserir a mitologia leporídea de maneira profunda na narrativa, não só com o uso do belo prólogo já mencionado que empresta a camada mística/religiosa necessária, mas também ao naturalmente inserir palavras na língua deles sem que o espectador precise de explicações sobre seus significados para entender o contexto.

Sem perder tempo, o roteiro, que também foi escrito por Rosen, nos apresenta aos dois lados da história: o místico e o realista. Fiver (Richard Briers) representa o primeiro com suas visões sobre o futuro que aterrorizam Hazel (John Hurt), representante do segundo que, sem hesitar, reúne um grupo para partir da segurança de suas tocas. Com isso, eles passam a enfrentar os mais diversos obstáculos para alcançar seu objetivo que, porém, não é muito mais claro no início do que só “sair de onde estão”. Há uma tendência da narrativa em tratar cada obstáculo de maneira quase estanque e episódica, o que atravanca um pouco a primeira metade da fita, até o momento em que os coelhos sobreviventes chegam efetivamente a Watership Down, depois de mais uma visão de Fiver. O roteiro também trabalha sutilmente alguns comentários críticos à interferência humana na natureza em toda essa primeira metade, mas sem pregar posicionamentos ou chegar próximo de ser demasiadamente expositivo. Arriscaria dizer, porém, que o que parece perdido e sem rumo ganha boas amarrações a partir da segunda metade em que uma nova missão é estabelecida: localizar fêmeas para trazê-las ao grupo de forma a perpetuar a ninhada. Essa é, de longe, a melhor parte do filme, com Hazel e seu grupo também fazendo amizade com uma divertida gaivota ferida chamada Kehaar (Zero Mostel).

Na verdade, a segunda metade é quase que outro filme. É nela que entendemos finalmente o porquê da natureza episódica da primeira parte, o que suaviza, mas não elimina o problema e vemos uma verdadeira alteração de “posições” na história. Hazel passa a ficar em segundo plano, com Bigwig (Michael Graham Cox), o maior dos coelhos do grupo, infiltrando-se na ninhada de Efrafa, ditatorialmente controlada pelo general Woundwort (Harry Andrews), para libertar as fêmeas e quem mais quisesse reunir-se a eles. Apesar do autor da obra original – e também suas filhas – sempre terem pregado que se trata “apenas” de uma história sobre coelhos, fica evidente a crítica a sistemas políticos totalitários. Aliás, curiosamente, o grande vilão – Woundwort – é somente apresentado aqui, o que também causa estranhamento na progressão narrativa e nos faz relembrar da natureza episódica do filme, ainda que esse não seja um grande problema já que ele é utilizado até o fim, o que empresta coesão à história e à mitologia da coelhada.

A animação, muito diferente do que se poderia esperar de um filme estrelado por “coelhinhos”, mas fiel à linha da história sendo contada, é lúgubre, por vezes sombria de verdade. Com exceção do prólogo em que aprendemos sobre a “origem” dos coelhos em uma narrativa fabulesca digna do Antigo Testamento, todo o restante foi pintado em belíssimas e variadas aquarelas realistas e representativas dos campos britânicos. Os coelhos são apenas levemente antropomorfizados, com suas bocas movendo-se em sincronia com as vozes e alguns gestos e reações faciais que lembram as humanas, mas só. Mas é impressionante ver como cada coelho é um coelho. O cuidado em criar tamanhos, cores e demais características para cada um deles é de se tirar o chapéu, além de ajudar na identificação imediata de cada um além dos ótimos trabalhos de voz, com especial destaque para Hurt e Cox, além de Mostel como a gaivota.

Uma Grande Aventura Watership Down é uma animação que surpreende em todos os quesitos e transforma coelhinhos fofinhos em avatares da busca por “um mundo melhor”, mesmo que essa jornada seja árdua, triste e mortal. No final das contas, ter John Hurt e Art Garfunkel (este interpretando Bright Eyes, a única música utilizada ao longo da projeção) é que foram bônus para uma obra que já teria sido memorável mesmo sem eles.

Uma Grande Aventura (Watership Down, Reino Unido – 1978)
Direção: Martin Rosen
Roteiro: Martin Rosen (baseado em romance de Richard Adams)
Elenco: John Hurt, Richard Briers, Michael Graham Cox, John Bennett, Ralph Richardson, Simon Cadell, Roy Kinnear, Terence Rigby, Mary Maddox, Richard O’Callaghan, Denholm Elliott, Zero Mostel, Harry Andrews, Hannah Gordon, Nigel Hawthorne, Lynn Farleigh, Clifton Jones, Derek Griffiths, Michael Hordern, Joss Ackland
Duração: 91 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.