Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | Uma Guerra Pessoal (A Private War)

Crítica | Uma Guerra Pessoal (A Private War)

por Iann Jeliel
760 views (a partir de agosto de 2020)

A Private War

A Private War é um daqueles vários filmes que estavam na corrida do Oscar e acabaram caindo no limbo do esquecimento por não terem conseguido nenhuma indicação, e olha que suas chances eram razoáveis diante da temática e do tipo de filme que a Academia tanto gosta de premiar: uma biografia e estudo de personagem com um pé em filmes de guerra, com direito à protagonista feminina. Rosamound Pike vive a premiada repórter norte-americana Marie Colvin, que ficou conhecida por cobrir matérias em perigosas zonas de guerra ao redor do mundo. Em uma dessas, ela acaba perdendo seu olho esquerdo, passando a usar um tapa-olho que viraria sua marca registrada até sua morte em 2012.

A direção ficou a cargo de Matthew Heineman, em seu primeiro longa-metragem “ficcional”, digamos assim, pois o cineasta só havia produzido e dirigido alguns documentários, bem elogiados por sinal, como é o caso de Cartel Land e City of Ghosts. Sendo assim, dava para esperar uma abordagem biograficamente estudada, pelo vasto conhecimento dele no ramo. Infelizmente, este veio com uma certa inexperiência do diretor em linhas narrativas mais eficientes. A biografia, por mais que interessante no que tange às informações e revisitações de situações importantes vivenciadas por esta jornalista, carece de uma estrutura mais ousada. Esta que é absolutamente convencional em basicamente todos os aspectos propostos.

Primeiramente, no que tange ao estudo de personagem escolhido a fim de se desvincular de uma estrutura mais documental. O roteiro busca entendê-la, não é à toa o título A Private War, a guerra mais explorada é a interna partida de seus vícios criados por um sentimento de revolta da protagonista pelas injustiças que um cenário de guerrilha proporciona, alimentada por uma frustração pessoal de nunca ter conseguido uma vida comum devido ao trabalho, por mais que ela ame o que faça. O arco é até bem vivido por Rosamund Pike que não se limita a uma performance meramente imitativa, mas o texto artificial não ajuda a atriz a se desvincular desse formato. Os diálogos são muito textuais, perceptivelmente escritos e não soam tão naturais mesmo com o elenco se esforçando para lê-los com verossimilhança.

Assim, a condução mais verborrágica facilmente se torna cansativa e cíclica, além de pouco densa. Os recursos utilizados para representar os dramas e a dependência da personagem em seus vícios são preguiçosas e sem desenvolvimento a partir de uma origem. Fora que todos os entornos que envolvem suas relações com outras pessoas importantes, ou até mesmo seu ambiente prévio de trabalho, são pouco explorados, ora até ignorados pelo texto em prol da construção da reverência à figura. Com isso, o elenco secundário fica sem muito o que fazer e o que tem mais espaço, no caso Jamie Dornan, certamente é um ator muito limitado dramaticamente.

Tecnicamente, o projeto também carece de uma inspiração, por mais que tenha sim um cuidado por trás da reconstrução dos cenários de guerra, da mixagem e edição de som nessas cenas e um baita trabalho de maquiagem para reforçar a forma cada vez mais acabada da personagem em meio a esse cenário, todos esses elementos são pouco valorizados pela direção. Muito pela falta de energia do ritmo, que é muito truncado pela montagem que não consegue criar nenhuma cena de tensão mais elaborada, com exceção possivelmente da cena que envolve o cartão de saúde. Fora essa, é possível até não sentir nenhuma periculosidade nessas sequências, o que prejudica o texto em querer nos fazer passar pelos mesmos sentimentos.

A Private War é uma biografia comum sobre uma persona que merece sim ser reverenciada, afinal, o feito dessa mulher precisa disso, mas para qualquer exaltação funcionar é necessária uma certa habilidade em destrinchar por que isso deve ser exaltado, algo que nem o diretor nem o roteirista conseguem fazer muito bem. De qualquer forma, o exercício cansativo vale pela desconhecida história e por uma Rosamund Pike esforçada que não fez falta no Oscar, mas certamente merece sua atenção.

Uma Guerra Pessoal (A Private War | EUA, 2018)
Direção: Matthew Heineman
Roteiro: Marie Brenner, Arash Amel
Elenco: Rosamund Pike, Jamie Dornan, Stanley Tucci, Alexandra Moen, Corey Johnson Fady Elsayed, Hilton McRae, Jérémie Laheurte
Duração: 110 minutos

Você Também pode curtir

4 comentários

Andries Viljoen 20 de fevereiro de 2021 - 12:23

Assisti de novo Uma Guerra Pessoal (2018) de Matthew Heinemann. O filme mostra exatamente os sentimentos múltiplos que levam uma pessoa a se expor a tanto risco. Marie Colvin, interpretada brilhantemente por Rosamund Pike, era uma mulher corajosa, que gostava da adrenalina, de ir em lugares que ninguém ia, e que sabia da necessidade de dar as notícias das zonas de conflitos. Ela foi importantíssima para mostrar que o governo da Síria mentia quando dizia que só atacava terroristas. Ela mostrou as inúmeras crianças mortas, mulheres mortas. Os sobreviventes vivendo semanas de água e açúcar racionado, em meio aos bombardeios.
É em uma dessas ações que ela perde o olho e em outra que é morta. Ela tinha muita dificuldade de socialização quando voltava aos Estados Unidos. Devia ser muito difícil ver tanta ostentação sabendo que tanta gente sofria os efeitos da guerra em outro país. Alguns outros do elenco são Tom Hollander, Stanley Tucci, Natasha Jayetileke, Fady Elsayed, Corey Johnson e Faye Marsay. Como muitos soldados de guerra, ela fica traumatizada e fica internada por um tempo. Depois retoma aos campos de batalhas. O filme mostra quando ela conhece o fotógrafo Paul Conroy, interpretado por Jamie Dornan. Eles tornam-se parceiros nas matérias. Ele inclusive é também atingido no bombardeio que mata Marie Colvin. Ele fica gravemente ferido, felizmente sobreviveu e é até hoje fotógrafo.

Admiro muito jornalistas investigativos que escolhem atuar em áreas de conflitos. Eles parecem ter uma coragem vista em poucos. Marie, que mulher! A interpretação da Pike foi impecável. Jamie também estava ótimo.

Responder
Iann Jeliel Pinto Lima 20 de fevereiro de 2021 - 13:16

Sou da área do jornalismo, então me interessa muito essas histórias. Acho que foi a única vez que vi Jamie Dorman bem num filme.

Responder
Andries Viljoen 10 de fevereiro de 2021 - 11:21

Um relato biográfico da determinação da jornalista de zona de guerra Marie Colvin (Rosamund Pike), mesmo assombrada por muitas das imagens que vê, para relatar ao mundo a verdade inaceitável dos conflitos que cobriu ao longo dos anos.
O filme basicamente começa contando como, durante a revolta do Tigre Tamil no Sri Lanka, ela se feriu em uma explosão de bomba, perdendo a visão de um olho, em 2001.
A história continua contando a época em que ela estava cobrindo a Guerra do Iraque alguns anos depois e sua parceria com o fotógrafo Paul Conroy (Jamie Dornan), que também se juntará a ela alguns anos depois, durante a guerra / levante na Líbia.
Mesmo que seu editor aconselhar repetidamente Marie a não se colocar em perigo, repetidamente, ela acabará sem consideração aparente por sua própria segurança, juntamente com Paul viajar para Homs na Síria para relatar os horrores que se desenrolam lá … isso seria seu final tarefa.

Um filme, baseado em acontecimentos reais, que a meu ver é imperdível …. certamente um filme que vai prender a sua atenção o tempo todo.

Responder
Iann Jeliel Pinto Lima 19 de fevereiro de 2021 - 01:10

Boa! Achei um bom filme também!

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais