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Crítica | Uma Guerra Pessoal (A Private War)

por Iann Jeliel
359 views (a partir de agosto de 2020)

Este é um daqueles vários filmes que estavam na corrida do Oscar e acabaram caindo no limbo do esquecimento por não terem conseguido nenhuma indicação, e olha que suas chances eram razoáveis diante da temática e do tipo de filme que a Academia tanto gosta de premiar: uma biografia e estudo de personagem com um pé em filmes de guerra, com direito à protagonista feminina. Rosamound Pike vive a premiada repórter norte-americana Marie Colvin, que ficou conhecida por cobrir matérias em perigosas zonas de guerra ao redor do mundo. Em uma dessas, ela acaba perdendo seu olho esquerdo, passando a usar um tapa-olho que viraria sua marca registrada até sua morte em 2012.

A direção ficou a cargo de Matthew Heineman, em seu primeiro longa-metragem “ficcional”, digamos assim, pois o cineasta só havia produzido e dirigido alguns documentários, bem elogiados por sinal, como é o caso de Cartel Land e City of Ghosts. Sendo assim, dava para esperar uma abordagem biograficamente estudada, pelo vasto conhecimento dele no ramo. Infelizmente, este veio com uma certa inexperiência do diretor em linhas narrativas mais eficientes. A biografia, por mais que interessante no que tange às informações e revisitações de situações importantes vivenciadas por esta jornalista, carece de uma estrutura mais ousada. Esta que é absolutamente convencional em basicamente todos os aspectos propostos.

Primeiramente, no que tange ao estudo de personagem escolhido a fim de se desvincular de uma estrutura mais documental. O roteiro busca entendê-la, não é à toa o título A Private War, a guerra mais explorada é a interna partida de seus vícios criados por um sentimento de revolta da protagonista pelas injustiças que um cenário de guerrilha proporciona, alimentada por uma frustração pessoal de nunca ter conseguido uma vida comum devido ao trabalho, por mais que ela ame o que faça. O arco é até bem vivido por Rosamund Pike que não se limita a uma performance meramente imitativa, mas o texto artificial não ajuda a atriz a se desvincular desse formato. Os diálogos são muito textuais, perceptivelmente escritos e não soam tão naturais mesmo com o elenco se esforçando para lê-los com verossimilhança.

Assim, a condução mais verborrágica facilmente se torna cansativa e cíclica, além de pouco densa. Os recursos utilizados para representar os dramas e a dependência da personagem em seus vícios são preguiçosas e sem desenvolvimento a partir de uma origem. Fora que todos os entornos que envolvem suas relações com outras pessoas importantes, ou até mesmo seu ambiente prévio de trabalho, são pouco explorados, ora até ignorados pelo texto em prol da construção da reverência à figura. Com isso, o elenco secundário fica sem muito o que fazer e o que tem mais espaço, no caso Jamie Dornan, certamente é um ator muito limitado dramaticamente.

Tecnicamente, o projeto também carece de uma inspiração, por mais que tenha sim um cuidado por trás da reconstrução dos cenários de guerra, da mixagem e edição de som nessas cenas e um baita trabalho de maquiagem para reforçar a forma cada vez mais acabada da personagem em meio a esse cenário, todos esses elementos são pouco valorizados pela direção. Muito pela falta de energia do ritmo, que é muito truncado pela montagem que não consegue criar nenhuma cena de tensão mais elaborada, com exceção possivelmente da cena que envolve o cartão de saúde. Fora essa, é possível até não sentir nenhuma periculosidade nessas sequências, o que prejudica o texto em querer nos fazer passar pelos mesmos sentimentos.

A Private War é uma biografia comum sobre uma persona que merece sim ser reverenciada, afinal, o feito dessa mulher precisa disso, mas para qualquer exaltação funcionar é necessária uma certa habilidade em destrinchar por que isso deve ser exaltado, algo que nem o diretor nem o roteirista conseguem fazer muito bem. De qualquer forma, o exercício cansativo vale pela desconhecida história e por uma Rosamund Pike esforçada que não fez falta no Oscar, mas certamente merece sua atenção.

Uma Guerra Pessoal (A Private War | EUA, 2018)
Direção: Matthew Heineman
Roteiro: Marie Brenner, Arash Amel
Elenco: Rosamund Pike, Jamie Dornan, Stanley Tucci, Alexandra Moen, Corey Johnson Fady Elsayed, Hilton McRae, Jérémie Laheurte
Duração: 110 minutos

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