Crítica | Uma Lagartixa num Corpo de Mulher

Uma Lagartixa num Corpo de Mulher plano critico giallo

Segundo giallo de Lucio Fulci, lançado dois anos depois de Uma Sobre a Outra, este curioso Uma Lagartixa num Corpo de Mulher (1971) traz inúmeras características da elegância do primeiro filme, mas sua queda de qualidade na linha final das investigações começa bem mais cedo. E o problema a que o roteiro se entrega segue os mesmos passos do longa de 1969, só que nesse caso, tem a pretensão de um maior mistério, de uma linha de investigação mais intricada, não só encoberta pela desfaçatez dos criminosos, mas pelos diversos significados psicológicos, alucinações, sonhos e outras dificuldades para se investigar crimes como os que acontecem aqui.

Não é segredo o fato de que diversos gialli partem de uma premissa onírica para construir a personalidade de alguns personagens e estabelecer a ligação entre o horror e a realidade. Para citar apenas um exemplo rápido, lembremos de como Elio Petri investiu nesta questão em Um Lugar Tranquilo no Campo (1968), partindo do sonho, marcando a sua interferência perturbadora na realidade e voltando frequentemente ao estado de caráter surreal, ao estado de alucinação. E eu escolhi esse exemplo porque algo muito parecido também ocorre aqui em Uma Lagartixa

O que torna este filme especial e ao mesmo tempo um dos mais confusos do gênero é o fato de que o roteiro não tem medo de mergulhar de cabeça em uma verdadeira análise psicológica ou psicanalítica para, através desse material bruto (com todas as suas sugestões, alterações, símbolos e desordem), criar basicamente o corpo central do texto. Com essa base, é evidente que o roteiro teria imensos desafios pela frente. O primeiro deles a montagem de Serrallonga e Tomassi consegue contornar com muita habilidade, fazendo a passagem entre o que é e o que não é real. O espectador não perde o fio da meada nesse aspecto, por mais diferentes que sejam os cenários, o caráter do sonho e a relação sexual que ele tem para Carol Hammond (Florinda Bolkan), dividida entre desejo e culpa pessoal e social. Desse conflito, fica fácil entender o estado de negação da personagem e, mais para frente, o seu inteligente modo de sublimação e ocultação dos atos através da malha simbólica ligada aos desarranjos manteais e emocionais.

A sugestão de transformação da personagem, como na frase “ela jamais poderia cometer esses atos!” é representada aqui pelo próprio animal psicopompo manifestado no corpo da mulher. O lagarto (e estendendo o seu simbolismo para a lagartixa) é, para as culturas mediterrâneas, um familiar, um amigo da casa, enquanto sua aplicação à psique e comportamento do homem liga-o à alma que, a despeito de todas as coisas, procura a luz. A visão contraditória é perfeita para a relação entre Carol Hammond e Julia Durer (Anita Strindberg), numa ligação dúbia de familiaridade e de certo antagonismo que resulta no ato sangrento da vez. Ao longo do processo, a música de Morricone (boa, mas não necessariamente especial) abre algumas portas sugestivas para o público, caminho que a direção inquieta de Fulci — a melhor coisa do filme — disfarça, procurando nos despistar.

SPOILERS!

Quando o caso ganha camadas durante a investigação, o espectador também começa a entrar em uma progressiva espiral de confusão, perdendo pouco a pouco o deslumbramento da primeira parte do filme e tendo que lidar com cenas que são chocantes, que isoladas podem ter o seu grande peso (vide a sequência com os morcegos, que flerta com Os Pássaros e a gráfica e horrenda cena dos cachorros estripados, por exemplo) mas que no conjunto servem apenas como distrações, como sobrecarga de um drama que já tinha coisa demais para resolver e que pega atalhos desnecessários em vez de caminhar para a sua resolução.

Mesmo quando o didatismo tem o seu maior e negativo triunfo, com a explicação detalhada do Inspetor Corvin (Stanley Baker) sobre a atuação de Carol Hammond em todo o processo, a confusão não abandona o roteiro, que entende ser o momento de colocar os pés na realidade, mas não consegue se distanciar do aspecto onírico ou psicológico que tão forte presença teve no desenvolvimento. Em outra ocasião isso teria sido um bônus, mas pela forma como acaba sendo colocado no enredo, é só mais um ingrediente de confusão. Uma Lagartixa num Corpo de Mulher tem um enorme valor pela direção intensa de Lucio Fulci e ganha muitos pontos pela montagem capaz de nos sugerir diversos caminhos ao longo da apresentação e desenvolvimento dos personagens. O problema é que o roteiro cai na armadilha de querer misturar métodos de investigação cheios de camadas e disfarces, à la Diabolik (para trazer uma clara referência giallo do roteiro) e, no fim, paga um enorme preço por isso.

  • Uma curiosidade sobre a cena dos cachorros: Segundo o texto de Rupert Jones, no The Guardian (setembro de 2003), a gráfica cena dos cães estripados levou vários membros da equipe do filme a testemunharem na Corte italiana, a fim de explicarem se houve ou não crueldade contra animais no filme. Os efeitos são assinados por Eugenio Ascani, Carlo De Marchis e Carlo Rambaldi, sendo este último o responsável por apresentar no tribunal os bonecos de cachorro usados no filme — e foi preciso fazer toda a demonstração deles “funcionando”. Ao que tudo indica, foi a primeira vez na História do Cinema que um artista de efeitos práticos teve que provar para um tribunal que seu trabalho era apenas criatividade e que não havia nada de real ali.

Uma Lagartixa num Corpo de Mulher (Una lucertola con la pelle di donna) — Itália, Espanha, França, 1971
Direção: Lucio Fulci
Roteiro: Lucio Fulci, Roberto Gianviti, José Luis Martínez Mollá, André Tranché (com colaboração de Ottavio Jemma)
Elenco: Florinda Bolkan, Jean Sorel, Stanley Baker, Silvia Monti, Alberto de Mendoza, Penny Brown, Mike Kennedy, Ely Galleani, George Rigaud, Ezio Marano, Franco Balducci, Erzsi Paál, Luigi Antonio Guerra, Gaetano Imbró, Leo Genn, Anita Strindberg
Duração: 104 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.