Crítica | Uma Mãe Tem que Ser Amada

É importante começar a presente crítica com uma ressalva: não há, que seja de meu conhecimento (e eu pesquisei), nenhuma cópia integral de Uma Mãe Tem que Ser Amada. A mais completa cópia existente foi lançada em vídeo doméstico pelo British Film Institute – BFI e é ela, com 70 de 93 minutos totais, o objeto da presente crítica. Decidi fazer uma avaliação completa, inclusive com nota, pois o que não mais existe são os primeiro e último rolos de filme, pelo que o miolo é integral e, com a inserção de inter-títulos explicativos no começo e no fim, essa obra de Yasujiro Ozu é perfeitamente compreensível a apreciável.

Claro que o ritmo narrativo acaba sofrendo com o início repentino, que não constrói em nada o personagem do pai, vivido por Yukichi Iwata, que teve sua participação integralmente perdida, assim como impede uma conclusão que ritmicamente equivalha à narrativa razoavelmente lenta da fita que lida com a dissolução de um núcleo familiar a partir da morte do patriarca e a descoberta, por um dos irmãos, anos mais tarde, de que sua mãe é, na verdade, sua madrasta. Seja como for, se o espectador estiver preparado para as circunstâncias que cercam a cópia sobrevivente do filme, esses aspectos terão impacto reduzido.

É interessante notar que Yasujiro Ozu é mais notoriamente conhecido como um diretor que aborda a relação entre pai e filho ou filha como em sua obra imediatamente anterior, Coração Caprichoso, além de, claro, Era uma Vez um Pai, que ele viria a dirigir em 1942. Uma Mãe Tem que Ser Amada, portanto, é uma espécie de “anomalia” na filmografia do cineasta que carrega uma triste ironia embutida: seu pai morreu justamente durante a produção da fita, o que empresta um significado pessoal a ela, especialmente se lembrarmos que é a morte de um pai que leva uma família à lenta fragmentação.

O cuidado na narrativa íntima, marca de Ozu, é muito presente aqui, com cada composição de cena ganhando o devido peso e preparando o terreno para o que está por vir. É bem verdade, porém, que essa obra carrega fortemente no melodrama novelesco, mantendo o trio central de dois filhos (Den Ohinata como Sadao e Kōji Mitsui, creditado como Hideo Mitsui, como Kosaku) e a mãe (Mitsuko Yoshikawa como Chieko) em uma relação complicada, cheia de “vai-e-vem” e de choros de um filho a outro, normalmente em cima da aparentemente preferência de Chieko por seu enteado. Yoshikawa é retratada com frieza pelas lentes de Ozu, o que ajuda a filtrar o melodrama e a distanciar um pouco esse relacionamento conturbado, mas, por vezes, a atriz deixa de demonstrar a emoção que talvez devesse em algumas cenas.

A cenografia é particularmente importante na obra, já que a morte do patriarca deflagra também a derrocada econômica da família, que começa abastada e acaba humilde. É evidente a correlação entre o dinheiro e a infelicidade, mas não como causa e consequência e sim como um comentário social de Ozu, que tenta fazer a rima poética entre os dois tipos de desagregação social e familiar. Nesse ponto, o lado melodramático funciona particularmente bem e deixa clara a complexidade da vida ali nesse núcleo ferido de morte por segredos mantidos assim talvez desnecessariamente.

O final, porém, que só podemos ler e não ver, parece reverter o quadro falimentar da trinca principal e trazer uma resolução iluminada e feliz, com um arrependimento de último minuto sem, possivelmente, uma construção perfeitamente crível. É uma escolha estilística, sem dúvida, e Ozu já abordou esse tipo de dilema antes, notadamente em seus dramas policiais, mas, aqui, talvez tivesse sido o caso de manter a linha narrativa e abordar a dureza da situação abordada.

Uma Mãe Tem que Ser Amada é uma obra peculiar de Ozu que carrega ainda o peso de não contar com uma cópia completa (quem sabe um dia?). Mesmo assim, é um filme pessoal, cuidadoso e delicado, com a pegada estilística e a composição cenográfica típicas do cineasta.

Uma Mãe Tem que Ser Amada (Haha wo kowazuya, Japão – 1934)
Direção: Yasujiro Ozu
Roteiro: Kôgo Noda, Tadao Ikeda, Masao Arata (baseado em romance de Yasujiro Ozu escrevendo como Shuutarou Komiya)
Elenco: Yukichi Iwata, Mitsuko Yoshikawa, Den Obinata, Seiichi Kato, Kōji Mitsui, Hideo Mitsui, Akio Nomura, Shinyo Nara, Kyoko Mitsukawa, Chishū Ryū, Yumeko Aizome, Junko Mastui, Choko Iida
Duração: 93 min. (originalmente); 70 min. (duração sobrevivente)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.