Crítica | Uma Mulher em Guerra

Filmes sobre ativismo são normalmente um perigo em termos de construção de roteiro, porque o dilema dos autores é o de fazer com que a personalidade (real ou fictícia) que se engaja diante de algo pareça relevante para o espectador, tenha sua causa exposta de maneira clara e ainda ganhe um sólido argumento dramático. Não é fácil, como se vê. Em Uma Mulher em Guerra, porém, Ólafur Egilsson e Benedikt Erlingsson, que também dirige o filme, tornam extremamente interessante a jornada de Halla (Halldóra Geirharðsdóttir) uma mulher solteira de 50 anos que tem uma vida tranquila e “livre de qualquer suspeita“, mas que tem trabalhado ativamente em causas ambientais, focando, no momento, em uma guerra de sabotagem contra a indústria local de alumínio.

Em seu modelo narrativo, Erlingsson incorpora um forte elemento musical, étnico e fantasioso que não é sem motivos lembrarmos um pouco de Emir Kusturica ao longo do filme, embora em um ambiente de menos contrastes fotográficos, tons mais escuros (destaque para o verde da paisagem, que propositalmente predomina, ressaltando visualmente a luta da ativista ambiental) em um pendor para o absurdo ligado a questões políticas contemporâneas, incorporando problemas econômicos, sociais e diplomáticos do mundo globalizado, na linha principal de ação.

Os passos de Halla são guiados por um acompanhamento musical esplendoroso, numa trilha sonora composta por Davíð Þór Jónsson (o mesmo do drama anterior de Erlingsson, Cavalos e Homens) que está colocada de diversas formas no filme. O espectador vai perceber a música como antecipação de algo — uma espécie de oráculo em sopros e percussão –; como representação emocional de um momento significativo para a vida da protagonista; como contraponto ao que ela está fazendo ou sofrendo e como reafirmador de atmosferas, mas este aspecto só vemos quando a música é aliada às belas paisagens da Islândia e às poucas cenas gravadas na Ucrânia.

Numa visão crítica geral do produto, a trilha também é interpretada como um chamado cômico, já que os músicos participam simbolicamente de algumas situações pelas quais Halla passa e a acompanham para todos os lados. O foco na percussão é um outro elemento de destaque aqui, porque nos mantém em estado de alerta, como se algo grave, uma descoberta, uma grande revelação fossem acontecer a qualquer momento. E entre a fuga, entre inesperados encontros e um contraste muito interessante entrelaçamento (ainda cômico, mas já com uma abordagem política) com a vida civil da ativista, temos a chegada de uma surpresa familiar para ela, algo que mudará bastante a sua perspectiva das coisas.

A partir desse ponto, outra camada musical se adiciona à fita (as cantoras tradicionais ucranianas) e o roteiro trabalha muito bem com essa outra preocupação, selando o tom da metade final da obra. A busca para mudar o mundo, em dado momento, se choca com a busca de mudança interior, de alterações na dinâmica da vida pessoal, e de crise em crise, vemos como a protagonista vai crescendo à medida que precisa enfrentar cada uma dessas coisas. O tom fantasioso nem sempre encontra pleno caminho para agir, mas as rusgas que apresentam são mínimas. Uma Mulher em Guerra é uma comédia imaginativa que une diferentes linhas de ação em um só espaço, nos fazendo rir e nos conscientizando sobre um perigo que mora a poucos metros de nós e a todos nós ameaça. Um filme sobre resistência, sobre maternidade, família, laços e empatia. Caloroso exemplar de como o cinema pode nos lembrar a constantemente e apagada alegria de ser humano. Ainda há muita bondade, vidas e amores pelo que lutar. Ainda há esperança.

Uma Mulher em Guerra (Kona fer í stríð) — Islândia, França, Ucrânia, 2018
Direção: Benedikt Erlingsson
Roteiro: Ólafur Egilsson, Benedikt Erlingsson
Elenco: Halldóra Geirharðsdóttir, Jóhann Sigurðarson, Juan Camillo Roman Estrada, Jörundur Ragnarsson, Solveig Arnaldsdottir, Helga Braga Jónsdóttir, Charlotte Bøving, Iryna Danyleiko, Vala Kristin Eiriksdottir, Magnús Trygvason Eliassen, Saga Garðarsdóttir, Jón Gnarr, Galyna Goncharenko, Omar Gudjonsson, Thorstein Gudmundsson, Hilmir Snær Guðnason, Albert Halldórsson, Halldór Halldórsson, Haraldur Stefansson, Björn Thors
Duração: 101 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.