Crítica | Uma Noite de Crime – 2ª Temporada

O conceito da franquia Uma Noite de Crime é simples, mas os seus desdobramentos são complexos. Basicamente, nos filmes e na primeira temporada da série, as autoridades vigentes demarcam um período específico do ano para a prática do expurgo, isto é, um espaço de tempo para as pessoas eliminarem as suas ansiedades e incertezas por meio de atos considerados criminosos no cotidiano. Desde o primeiro filme, esta é uma alternativa para que as pessoas canalizem os seus instintos mais animalescos. Conforme os dados internos da trama, a prática diminui vertiginosamente os índices de violência e criminalidade no país. As tramas buscam, então, apresentar estas aventuras horripilantes anuais, geralmente nos apresentando o embate entre vítimas e algozes, situados numa experiência conflitante.

Como não poderia deixar de ser, a proposta atinge apenas uma parte dos envolvidos, pois apenas para pincelar uma reflexão, onde ficam os menos favorecidos que não podem garantir a própria segurança diante do expurgo? Assim, os instintos são canalizados dentro de uma perspectiva darwinista social, com a suposta sobrevivência do mais forte. James DeMonaco, criador da franquia cinematográfica e também responsável pela tradução para o suporte televisivo, ciente do potencial, investiu em mais uma temporada em 10 episódios, desta vez, focada nos desdobramentos da noite de crime vigiada por câmeras de segurança espalhadas ao redor de todos os pontos de instalação possíveis da nação imperialista que encontrou nesta ação uma forma de driblar parte de seus problemas de ordem social, tema sedutor para a dramaturgia.

Para assumir a direção do segundo ano, foram escalados Tim Andrew e Tara Nicole Weyr como parte da equipe de orquestradores dos horrores, tramas interligadas pelos textos de Nick Zigler, responsável por todos os dez episódios, escritos em parceria com Nina Fiore, Lindsey Villareal, John Herrera, James Roland, etc. Com exibição na Amazon Prime, a segunda temporada de Uma Noite de Crime faz uma radiografia das vítimas desta versão do “evento”. Se no passado, acompanhamos a feira da carne, o angustiante culto religioso e os jogos de sobrevivência, desta vez mergulhamos em casamentos rodeados por incertezas, indivíduos do lado “oculto” da força inclinados ao lado social do processo, amigos que se deixam no momento de perigo e a evolução de uma vítima, transformada num psicopata com comportamentos sem precedentes.

Com muitos flashbacks como estratégia narrativa, um novo time de personagens representa a roupagem da segunda temporada. Observamos quem acertou, errou, os que não cumpriram as regras, quem cometeu atos ilícitos depois do toque das trombetas a finalizar o expurgo, dentre outras situações que mesclam o suspense, o terror e a investigação policial. Bandidos ocupam o lugar de mocinhos, pessoas indefesas se transformam em armaduras praticamente medievais, prova da força adquirida em momentos de tensões muito fortes, todos acompanhados pela imersiva trilha sonora de Tyler Bates, aliada do design de som de Cary Stacy. Com imagens captadas pela também eficiente direção de fotografia de Yaron Levy, os personagens trafegam pelos espaços do design de produção de Steve Wolf, profissional que divide o setor com outras pessoas, mas é majoritário da assinatura, isto é, gerenciador de quatro dos dez episódios.

No desenvolvimento da história, temos Tommy (Jonathan Medina), homem pego pelas câmeras do “olho do céu”, apontado como criminoso por ter ultrapassado o limite temporal estabelecido pelas tais trombetas de um sinalizar de som sintetizado. Ele faz parte de um grupo composto por ex-policiais, liderados por Ryan (Max Martini), decididos a realizar um assalto num banco. Erma Carmona (Paola Nuñez) é a funcionária da NFFA (The New Founding Fathers Of America), órgão responsável por supervisionar o expurgo. Ela infringe as regras e passa para o outro lado” com a ajuda de Vivian (Charlotte Schweiger), ambas sob o olhar inquisidor de Curtis (Connor Trinneer), um homem treinado para sacar pessoas balançadas pelos acontecimentos do evento.

Ainda temos o casal rodeado de incertezas, com Marcus (Derek Luke) e a sua companheira Michelle (Richelle Oytes), atacados durante a noite de crime de maneira um tanto suspeita, pois provavelmente é alguém que conhece os costumes internos da casa. Como ela teve um caso recente e balançou as estruturas do casamento, Marcus aumenta ainda mais as suas desconfianças. São conflitos impactantes e que ajudam a narrativa a ganhar força além do próprio conceito assustador, mas não distante de nossa realidade que disfarça e manipula dados sobre a violência. Um dos pontos mais intensos é a evolução de Ben (Joel Allen), abandonado pelo amigo Turner (Matt Shively) enquanto era acuado por um grupo em meio ao ato de expurgo. Ele escapa, mas para isso precisa matar. A morte inicial é o começo de um extenso rastro de sangue, ódio e muita violência, perpetrada pelo jovem durante a execução de seus crimes posteriores.

Diante do exposto, são personagens ameaçados pelas figuras mascaradas e trajadas por roupas inspiradas na cena urbana, setor comandado pela figurinista Eulyn Hufkie, também bastante detalhista no desenvolvimento de seu trabalho. Ademais, a segunda temporada de Uma Noite de Crime continua o seu processo de representação da violência como estratégia para os personagens expurgarem e liberarem as suas pressões internas, causadas por problemas psicológicos, profissionais, familiares, sentimentais, financeiros, etc. Ainda pertinente em sua abordagem, a série mantém o seu padrão estético e fornece a continuidade necessária para tópicos debatidos durante os filmes e os episódios da temporada anterior. O Brasil, inclusive, é citado por meio de uma personagem que viaja para os Estados Unidos com amigas, mas aparentemente possui planos de voltar sozinha, indo para o norte da América mesmo ciente do expurgo agendado durante a sua estadia. É tenso, assustador, mas não é diferente do que vivenciamos. Isso torna a ficção ainda mais intensa, catalisadora das nossas reflexões.

Uma Noite de Crime – 2ª Temporada/Estados Unidos, 2019
Criação: Nick Murphy, Michael Uppendahl
Direção: Nick Murphy, Michael Uppendahl
Roteiro: Nina Fiore, Lindsey Villareal, John Herrera, James Roland, Nick Zigler
Elenco: Max Martini, Derek Luke, Paola Nuñez, Joel Allen, Connor Trinneer, Rochelle Aytes, Charlotte Schweiger, Jonathan Medina, Matt Shively, Chelle Ramos, Jaren Mitchell, Cindy Robinson, Paul T. Taylor, Avis-Marie Barnes, Brittany Clark
Duração: 45 min. por episódio (10 episódios no total)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.