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Crítica | Uma Noite de Crime: A Fronteira

por Iann Jeliel
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Uma Noite de Crime: A Fronteira

Poucas franquias têm o privilégio de ter uma premissa tão boa quanto Uma Noite de Crime. O conceito desse experimento de matança aberta em sociedade fictícia, abre margem para inúmeras discussões temáticas acerca da sociedade verdadeira. Debates que propriamente, o criador da saga, James DeMonaco, nunca conseguiu se apropriar direito em termos de imagem, deixando as boas ideias no papel cair em um território de exagero, que de tão inverossímil, se torna forçado, não conseguindo converter esse exagero num impacto visual correspondente a crítica social destacada. Sei que Uma Noite de Crime nunca quis ser exatamente complexo, mas pelo menos a primeira trilogia, nunca conseguiu através da superficialidade provocativa do cenário da anarquia, trazer um exercício de gênero decente, seja no terror limitado do primeiro, seja na ação espalhafatosa dos dois sucessores.

Isso começa a mudar, pelo menos a meu ver, a partir do “quarto” – cronologicamente o primeiro e meu favorito com sobras –, na saída do seu criador da direção e presença apenas no texto, dando liberdade a outros cineastas apadrinhados por ele – numa cultura ala James Wan – do cinema independente a aplicarem suas visões de cinema de modo correspondente a proposta da franquia, provando sua qualidade num filme com destaque garantido. Foi o que aconteceu com Gerard McMurray e agora com o mexicano Everardo Gout. O bom, é que a história entre eles permite essa diferenciação de abordagem, pois não passa por uma cronologia interligada aos mesmos personagens, ainda que não seja totalmente uma antologia porque segue uma sucessiva de desdobramentos políticos da distopia que se reflete nos outros, mas que pode ser subvertida sem tantas dificuldades, além de ter o benefício da mudança de cenário e temporalidade.

Se 12 Horas Para Sobreviver: O Ano da Eleição acabava com o fim do expurgo, Uma Noite de Crime: A Fronteira que se passa depois, trás um salto temporal curto mostrando como isso não se sustentou pelo forte apoio popular a sua continuidade. Nesse ponto é que este quinto capítulo concentra sua originalidade. Antes o conflito socialmente falando ficava resumido muito ao espectro “ricos vs pobres”, mudando no quarto para algo menos maniqueísta e nesse quinto adentrando em um ponto mais expansivo. A grande tensão não está entre classes ou etnias, mas entre um pensamento nacionalista radical que toma conta do “povo” como um todo, fazendo um paralelismo muito claro ao crescimento de pensamentos da extrema direita como uma resposta inversão e rebate de valores antagônicos dominantes em um certo período.

Historicamente, vivemos esses ciclos, onde uma ideologia fica muito tempo no poder vai acumulando seu antagonismo que em algum momento vai explodir e propor uma revolução. Então dentro desse universo, o expurgo ter invadido o campo de apenas uma noite, é acima de tudo uma resposta ao seu encerramento de modo revolucionário. Dentro daquela distopia exagerada é crível mesmo intervalo curto sem ter uma, considerando a transformação animalesca daquela sociedade, acostumada em planejar ano a ano a matar naquela noite aqueles que lhe eram um problema em suas vidas e não podiam mais. Então, porque não desprender da noite e matar logo todo mundo “problemático” para sobrar só aqueles complacentes com a ideologia discursada como “tradicionalista”, “pela américa”, mas na prática posicionada criticamente, de modo obvio com a premissa exagerada, a um retrocesso da natureza humana a completa barbárie.

O acompanhamento de uma familia branca e rica em conjunto de um casal mexicano empregado dela, no sul Texas, fundamentalmente posiciona aquela queda ética independente de classe e ainda propõem uma jornada para atravessar a fronteira do México como solução, naturalmente invertendo as posições de seus personagens enquanto estereótipo representativo de suas nações ao final – a última cena, que beleza de justiça poética em? Apesar de nos importarmos com cada um ali envolvido, falta Uma Noite de Crime: A Fronteira aprofundar mais nos relacionamentos particulares, além de decair um pouco na ação pela nova direção. Gout não tem a mesma habilidade de McMurray na condução geográfica dela – pelo menos, é melhor nisso que DeMonaco –, não a conduzindo com tanto entusiasmo ou visceralidade. Empolga somente em alguns momentos, de confrontos diurnos aproximando os contornos do exercício de gênero mais a um faroeste do que um terror, além de outras perto do clímax que abraçam mais o exagero da ação e maniqueísmo das representações de seus personagens, com efeitos práticos e carros malucos que remetem até mesmo aos Mad Max antigos.

Contudo, falta elaboração mais concisa do suspense, resumida a alguns jumpscares vagabundos que nem se encaixam a proposta e estão ali só para dizer qual a origem da franquia, além de faltar a aplicação de urgência constante do caminho traçado pela trama, aproveitando o cenário passível de completa vulnerabilidade. A violência, por sua vez, também é diminuída, o que é bom pensando na diluição do exagero que as vezes dificulta um pouco da conexão a aquele universo, mas é ruim pensando no grafismo do momento de revanche, onde geralmente concentra o ponto alto da ação. De modo geral, Uma Noite de Crime: A Fronteira valoriza melhor as premissas desse rico universo ainda não tão bem aproveitado, mas que vem crescendo de qualidade filme a filme.

Uma Noite de Crime: A Fronteira (The Forever Purge | EUA, 2021)
Direção: Everardo Gout
Roteiro: James DeMonaco
Elenco: Ana de la Reguera, Tenoch Huerta, Josh Lucas, Cassidy Freeman, Leven Rambin, Alejandro Edda, Will Patton, Sammi Rotibi, Will Brittain, Zahn McClarnon, Jeffrey Doornbos, Susie Abromeit, Cindy Robinson
Duração: 104 minutos.

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