Crítica | Uma Noite de Crime – 1ª Temporada

O que acontece numa sociedade quando as instituições deixam, por um período de 12 horas, de vigiar e punir qualquer ação considerada errôneas dentro de nossas convenções? A resposta, caro leitor, é simples: diante do nosso atual panorama de violência urbana e barbáries midiatizadas pela sociedade do espetáculo, as pessoas apenas legitimarão aquilo que já acontece cotidianamente, isto é, o derramamento de sangue que mancha absurdamente o nosso tecido social. Bem a cara da atual Era, apesar de alguns filmes da franquia já antecederem as questões antes mesmo de tal ameaça à sanidade das relações políticas estadunidenses. Produzida pelo canal USA Network, a série que ganhou segunda temporada quer debater, como foco central, a decadência estadunidense, uma nação imperialista e violenta.

Uma Noite de Crime aborda com maior número de personagem e tempo de exposição, os desdobramentos sociais, políticos e psicológicos do expurgo, noite em que as pessoas ganham a liberdade de liberar os seus instintos mais sanguinários sem sofrer qualquer penalidade. As regras, no entanto, são bem exatas: você não pode cometer qualquer ato um segundo sequer, antes ou depois, do tempo delimitado. Psicanaliticamente, os idealizadores do evento anual acreditam que os seres humanos necessitam de tal data para expurgar toda a carga de estresse, desejos, fetiches e demais coisas, consideradas monstruosas dentro da sociedade quando todos estão vivendo diante das aparências cotidianas. Como nos filmes, os ricos conseguem se proteger em suas fortalezas, diferente dos pobres, expostos aos ataques de seus semelhantes ou da elite fetichista que urra com o derramamento de sangue das massas.

Criada por James DeMonaco, responsável pela franquia fílmica, e produzido por Jason Blum, um dos nomes responsáveis pela revitalização do terror na contemporaneidade, Uma Noite de Crime, em sua primeira temporada, ganhou 10 episódios. Sem focar com muita exatidão nos perfis dos personagens, o que anula qualquer possibilidade de catarse mais profunda, a experiencia da série é a análise coletiva dos fatos, o que não impede que as subtramas dialogue entre si, na formação de um tecido narrativo único, conectado com as atrocidades cometidas na noite de expurgo. O interessante é que ao ser observado numa era de compartilhamento constante da violência por redes sociais e aplicativos, momento em que a violência é potencializada dentro de nossos lares, o expurgo parece apenas mais uma noite qualquer nas grandes metrópoles urbanas, afinal, basta assistir aos telejornais para ficar ciente do expurgo não legitimado de cada dia.

Encarado como um momento de libertação das ansiedades, a série distribuída pela Amazon Prime também nos mostra que diante da agressividade potencializada pelo evento, há traços de humanidade presentes em pessoas que ainda pensam no tratamento ao coletivo. Tal postura é representada por Pete (Dominic Fumusa), um dos idealizadores do abrigo produzido para proteção de alguns incautos, dispersos pelas ruas, sem rumo. Com intenções econômicas e sociais em pauta, o expurgo reforça a crise absurda de nosso contemporâneo, numa alegoria muito realista da nossa era dos extremos, tal nociva e violenta quanto os embates no Vietnã, a Segunda Grande Guerra Mundial, dentre qualquer outro evento entre seres humanos dentro de um grupo bem ou relativamente organizado. Como apontado, sem abordar especificamente indivíduos, a série faz uma colcha de bons retalhos com vários personagens em situações angustiantes.

Há Jane (Amanda Warren), mulher que contratou uma pessoa para eliminar o seu chefe opressor e cafajeste, interpretado por William Baldwin. Ademais, um ex-fuzileiro retorna de uma batalha em busca de sua irmã desaparecida, uma garota se junta a um culto suicida, além do casal empreendedor que decide se envolver com membros da elite local, sem sequer imaginar o antro de perdição que acabaram de adentrar. Construídos pelos roteiros escritos por DeMonaco, em parceria com Jeremy Robbins, Jamie Chan e Nick Zigler, os personagens foram guiados pela direção de Anthony Hemingway, Tim Andrew, Ernest R. Dickerson, Tara Nicole Weyr, dentre outros. Acompanhados pela condução sonora de Tyler Bates, a série traz figurinos interessantes, em especial, as abomináveis fantasias que dialogam propositalmente com o amadorismo, setor assinado por Lauren Bolt e Eulyn Collete Hufkie.

O design de produção de Sharon Lomofsky também é bastante eficiente, setor que conta com os cenários de Chuck Potter e a direção de arte de Elena Albanese, todos cientes dos adereços, peculiaridades e tons ideais para, juntamente com os diálogos, acontecimentos e trilha sonora, transmitirem a atmosfera de horror urbano ideal que tornam a primeira temporada de Uma Noite de Crime não apenas um entretenimento ligeiro, mas um painel gigantesco de discussões, tanto para o senso comum como para as investigações acadêmicas. Cultura do Medo, Sociedade do Espetáculo, Microfísica do Poder, etc. São várias as possíveis nuances, depende muito do grau de interação do espectador com as ramificações rizomáticas possibilitadas pelo programa.

Uma Noite de Crime – Primeira Temporada (The Purge, Estados Unidos/2018)
Criação: James DeMonaco
Direção: Adam MacDonald
Roteiro: James DeMonaco
Elenco: Gabriel Chavarria, Hannah Emily Anderson, Jessica Garza, Colin Woodell, Lee Tergesen, Derek Luke, Max Martini, Paola Nuñez, Joel Allen, Rochelle Aytes
Duração: 45 min. por episódio (10 episódios no total)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.