Crítica | Uma Noite Mágica

Então é Natal. E o que você fez ao longo do ano? Para muitas pessoas nas redes sociais ultimamente, a resposta é humorada: “fiz o que deu”. Para o personagem de Michael Keaton na comédia dramática natalina Uma Noite Mágica, a resposta é a mesma, com algumas variações. Ele é o patriarca de sua família, por isso, provedor, trabalha com música, algo não considerado “sério” e espera há anos a sua chance com algum empresário, tendo em vista a decolagem de sua banda. O problema é que toda essa dedicação o impediu de manter contato mais próximo com o filho, uma criança que mesmo antes da morte do pai, sente que não teve a conexão que sempre desejou. Assim, talvez o natal seja uma oportunidade para se redimir. Será?

Dirigida pelo veterano Troy Miller, cineasta que teve como direcionamento, o roteiro de Jonathan Roberts e Mark Steven Johnson, a produção retrata a necessidade de desprendimento quando um ente querido está ausente, num diálogo com a importância da aceitação diante da morte, uma condição natural da própria existência humana, tema que já deixou muito filósofo elucubrando por décadas sem chegar à uma conclusão definitiva sobre o assunto que em si não possui uma resposta exata. Aos que se sentem ofendidos com a entrega de um acontecimento tão importante, isto é, a morte do pai do garoto, adianto que essa é uma informação que já consta na sinopse, afinal, será apenas diante de sua “partida” que teremos a tal “noite mágica” do filme.

Lançado em 1998, Uma Noite Mágica é uma produção que descortina, ao longo de seus 101 minutos, a história de Jack Frost (Michael Keaton), um homem que passa pelas condições descritas acima e certo dia, antes de uma viagem inesperada de trabalho, responsável por cancelar o passeio de natal em família, ele sofre um acidente e morre. Um ano depois, retorna como um boneco de neve para viver aventuras com Charlie Frost (Joseph Cross), seu filho. Os dois vivem diversas aventuras, fazem coisas que deveriam ter sido parte de suas vidas nos momentos em que o personagem ainda estava vivo, mas enfim, não foi possível, até porque os filmes não conseguem demonstrar que na vida real, em muitos casos, torna-se quase impossível conciliar a educação e zelo ideal aos filhos e cônjuges diante das dinâmicas econômicas e sociais de nossa existência nua e crua, sempre cheia de obstáculos, desafios e muitas, muitas dificuldades, afinal, no bojo do capitalismo, privilégios é para poucos, não é mesmo?

Diante dos conflitos, perdidos diante de um roteiro e direção que pecam na perda do ritmo da história, os personagens precisam compreender as suas necessidades dramáticas para avançar em mais uma etapa de suas respectivas vidas. O jovem Charlie é quem mais aprende neste processo, inclusive a lidar com o bullying que sofre cotidianamente, um tema explorado sem muita profundidade, mas de maneira eficiente pela narrativa. Gaby Frost (Kelly Preston), inicialmente muito paciente, começa a acreditar que o filho está com distúrbios psicológicos gravíssimos, algo que a faz demorar para compreender que vive uma espécie de situação ao estilo Ghost – Do Outro Lado da Vida, salvas as suas devidas proporções, obviamente.

Assim, em seu processo narrativo, Uma Noite Mágica conta com imagens adequadas para a sua temática natalina, haja vista o bom design de produção de Mayne Berke, responsável por estabelecer os traços visuais que compõem o filme, numa mescla de cenários amadeirados, contraste entre neve e as luzes e objetos em tonalidades vermelhadas, as cores que geralmente fazem parte da dinâmica natalina, paletas e objetos coordenados pela direção de arte e cenografia, assinadas por Gary Diamond e Ronald R. Reiss, respectivamente. Os efeitos visuais da equipe de Mark Franco também cumprem a sua missão, sem grandes momentos na apresentação do boneco de neve, exposto de maneira “apenas suficiente” ao dar conta das cenas em que é protagonista, centro ou parte das imagens captadas pela direção de fotografia de Laszló Kovács.

De volta ao filme, o natal está próximo ao fim e Jack precisa se despedir do filho, afinal, está prestes a derreter. É a hora da despedida e da aceitação dos seus destinos. Ademais, o filme cumpre o seu propósito na seara das ficções natalinas que pregam sentimentos que deveriam ser parte das nossas preocupações ao longo de todo ano, mas que por questões conservadoras, o que nos leva às invenções das tradições, torna-se parte da nossa agenda nas datas festivas do final do ano, época de balanços e fechamentos de ciclos. Uma Noite Mágica amargou desaprovação da crítica especializada quando lançado, mas fez sucesso nas exibições televisivas e não é, de fato, um filme tão ofensivo quanto se pensa, ao menos se tivermos como referencial as análises sem humor dos espectadores “de sua época”.

Uma Noite Mágica (Jack Frost/Estados Unidos, 1998)
Direção: Troy Miller
Roteiro: Jeff Cesario, Jonathan Roberts, Mark Steven Johnson, Steven Bloom
Elenco: Andrew Lawrence, Benjamin Brock, Cameron Ferre, Eli Marienthal, Joe Rokicki, Joseph Cross, Kelly Preston, Mark Addy, Michael Keaton, Mika Boorem, Taylor Handley, Will Rothhaa
Duração:  88 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.