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Crítica | Uma Noite na Ópera

por Guilherme Coral
246 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 5,0

Homenageado pelo disco de mesmo nome do QueenUma Noite na Ópera traz grandes mudanças dentro da carreira dos irmãos Marx. Primeiramente trata-se de seu primeiro filme na MGM, após a ruptura com a Paramount, em segundo lugar evidencia a nítida mudança narrativa em relação a seus trabalhos anteriores. Enquanto que, anteriormente, a comédia era tida como elemento central, unindo todos os aspectos das obras, o novo longa traria uma nova abordagem, com uma trama organicamente conduzida, com o humor percorrendo-a e, naturalmente, acrescentando conteúdo para sua construção. Por mais que tenhamos algumas esquetes aparentemente soltas, elas fazem parte de um quadro geral, que une cada ponto do roteiro.

Otis Driftwood (Groucho Marx) é um homem de negócios que busca alavancar sua carreira através de uma esnobe milionária que visa entrar na alta sociedade. Para isso, ele a apresenta para o diretor da ópera de Nova York, Gottlieb (Sig Ruman), outra figura cheia de si, para quem também trabalha. A situação começa a complicar, contudo, quando Driftwood conhece Ricardo (Allan Jones), Tomasso (Harpo Marx) e Fiorello (Chico Marx), o primeiro um cantor de ópera e os outros seus amigos. Não demora muito para terem suas carreiras praticamente arruinadas e passarem a precisar de um plano a fim de resgatarem o que foi perdido entre inúmeras trapalhadas.

Com um humor irreverente, repleto de ironias e sarcasmos, os irmãos Marx nos cativam para essa narrativa, aparentemente linear, mas que é tão repleta de situações inesperadas que nos chega a deixar tontos. Não que isso seja um aspecto negativo da obra, muito pelo contrário, essa inconstância da trama garante cada centelha de nossa atenção, fortalecendo a imprevisibilidade do roteiro e, é claro, funcionando a favor das inúmeras piadas nele presentes. E Uma Noite na Ópera é justamente isso: um amontoado de acontecimentos memoráveis, alguns deles emblemáticos dentro da história do cinema, basta assistirmos isoladamente a cena do quarto minúsculo no navio para termos tal percepção solidificada.

Mas limitar o filme à sua capacidade humorística seria, no mínimo, um desserviço à sua importância. Temos presente em sua narrativa ferrenhas críticas à chamada “alta-sociedade” e o desdém pelos menos afortunados. Além da óbvia vilanização dessas figuras, o texto emprega inúmeras situações para elevar as classes “inferiores”, colocando nelas toda a alegria que percebemos na obra. Para exemplificar esse fator basta pegarmos  a sequência da comida e música dentro do navio, algo de grande simplicidade, mas que acaba tocando o espectador de forma certeira – algo almejado posteriormente, de forma similar, por James Cameron em Titanic. Primeiro o piano cria um aconchego, risadas espontâneas e nos faz sentir como as crianças que o assistem tocar, muito similarmente ao que veríamos posteriormente em Amadeus. Depois, o som da harpa nos traz uma profunda calma, nos fazendo esquecer, como os personagens, que estão ilegalmente naquele barco.

A ênfase nessa luta de classes é tão evidente que até mesmo o amor se limita aos “não esnobes”. Basta observarmos a sinceridade da relação entre Rosa (Kitty Carlisle) e Ricardo em comparação à obsessão de Lassparri (Walter Woolf King) pela mesma mulher. Enquanto um declara todos seus sentimentos pela música o outro se recusa a cantar simplesmente porque não é pago. Curiosamente, ao mesmo tempo, temos em tais momentos a maior quebra de ritmo do longa-metragem, algo que claramente interrompe o fluxo narrativo a fim de construir o romance entre os dois personagens. Tais rupturas, porém, são bastante curtas e não chegam a quebrar nossa imersão e, acima de tudo, complementam para o sentido do título, que adota mais que apenas o significado óbvio. O filme, por si só, é uma estranha ópera mesclada com a comédia.

Esses elementos em conjunto fortalecem o conjunto da obra, com uma musicalidade de deixar qualquer um sorrindo após a projeção, não apenas pelo humor maravilhosamente construído e sim pela forma bem-amarrada como a trama se estabelece. Uma Noite na Ópera é uma verdadeira jornada, não só para seus personagens, como para o espectador. Um filme obrigatório não só pela sua importância histórica, como pela sua qualidade, trazendo umas das mais memoráveis cenas de comédia já feitas. Naturalmente não irei estragar a surpresa e deixarei adivinharem quais são, pois com certeza serão identificadas de imediato.

Uma Noite na Ópera (A Night at the Opera – EUA, 1935)
Direção:
 Sam Wood, Edmund Goulding
Roteiro: George S. Kaufman, Morrie Ryskind
Elenco: Groucho Marx, Chico Marx, Harpo Marx, Kitty Carlisle, Allan Jones, Walter Woolf King, Sig Ruman, Margaret Dumont
Duração: 96 min.

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