Crítica | Uma Noite no Madison Square Garden

  • Leiam, aqui, as críticas de todos os indicados à categoria de Melhor Documentário em Curta-Metragem no Oscar 2019.

Senti-me em uma encruzilhada quando acabei de assistir Uma Noite no Madison Square Garden, documentário de sete minutos composto unicamente de imagens históricas de um comício nazista em 20 de fevereiro de 1939, menos de sete meses antes da eclosão da 2ª Guerra Mundial, na famosa casa de eventos de Nova York. Concorrendo ao Oscar de Melhor Documentário em Curta-Metragem na cerimônia de 2019, o filme traz à tona uma embaraçosa situação que infelizmente vemos reverberar nos dias de hoje, ao mesmo tempo que ele se resume a exatamente isso: um trecho de um vídeo mais longo escolhido por seu diretor, com algumas legendas para dar um mínimo de informações e mais nada.

Muitos documentários por aí reúnem unicamente filmagens históricas de eventos importantes da História do Mundo para abordar esse ou aquele assunto em uma narrativa que segue a visão de seu diretor. São trabalhos de arqueologia fílmica ou de curadoria cinematográfica que, juntamente com inevitáveis restaurações e cuidadosas montagens, podem resultar em obras espetaculares. Marshall Curry, diretor de Uma Noite no Madison Square Garden, é exatamente isso, um curador, mas um curador de que exatamente?

Lembro-me de ter visto trechos desse mesmo terrível evento em minha tenra idade, sem, claro, compreender completamente o horror que ele representava e ainda representa. Não sei como tive acesso a eles em uma era pré-internet, mas creio ter sido em outros documentários ou, talvez, em peças jornalísticas. O vídeo contido no concorrente ao Oscar está, hoje (e há muitos anos) disponível muito facilmente nas mais variadas plataformas audiovisuais gratuitas sem que seja necessário muito trabalho para encontrá-lo e, em alguns casos, em ótima qualidade e vários bem mais longos do que a duração do documentário sob análise.

Então repito a pergunta: Curry foi curador de que? De um vídeo facilmente localizável na internet? E, se foi, o que mais, além de legendas, ele adicionou ao vídeo para torná-lo “seu”?

Em outras palavras, o verdadeiro valor de Uma Noite no Madison Square Garden é lembrar-nos que o nazismo não existiu só na Alemanha nos anos 30 e 40. Ele esteve – e está – potencialmente em todo lugar e o evento objeto do filme, organizado por Fritz Julius Kuhn, líder do German American Bund,  ou, em português claro, do Partido Nazista Americano, é uma das provas cabais disso. Não foi o primeiro dessa natureza, mas foi o maior – 20 mil supremacistas estavam na plateia – e o mais famoso, ganhando muita atenção na época.

O que vemos nos sete minutos escolhidos por Curry é parte do discurso de Kuhn, em que ele destila ódio contra os judeus, comunistas (basicamente a mesma coisa na visão deturpada de raiva dele) e todos os simpatizantes. Além disso, vemos a famosa tentativa de Isadore Greenbaum de invadir o palco que, ato contínuo, é arrastado para fora pelos nazistas e pela polícia.

Mas e o que não vemos no documentário e que poderia ter feito a diferença aqui e literalmente estabelecido uma obra que transformaria o filmete em algo realmente oriundo de Marshall Curry? Em uma palavra: contexto.

Se alguém assistir à obra partindo unicamente do conhecimento adquirido ao longo dos sete minutos da projeção pode ser levado a concluir, no pesado clima atual de divisão política no mundo, que os americanos eram simpatizantes do nazismo e que Greenbaum representou uma voz solitária. Aos anti-americanos, o documentário é festa e a “prova” de várias teorias da conspiração. Um pouco mais de ponderação levará à indagação sobre o que orbitou em torno desse evento e uma pesquisa de poucos minutos revelará a quantidade de protestos que ocorreram antes e durante o comício em Nova York, com várias tentativas de evitar que ele acontecesse. Um pouco mais de esforço relevaria até o que o então prefeito da cidade fez para minar o partido e o quanto de publicidade negativa o evento recebeu. Essa visão enriqueceria a narrativa. Mas, mesmo que Curry não quisesse abordar esse lado da questão, ele poderia ter trazido informações sobre Kuhn e sobre seu espúrio partido e, com isso, ampliado a discussão para além do que ele decidiu mostrar.

Portanto, em minha encruzilhada sobre como avaliar o documentário, deparei-me com uma escolha complicada. Ou eu o abordava tecnicamente, concluindo que ele não é mais do que um breve trabalho de edição e inserção de legendas em trechos de vídeo largamente disponibilizados por aí ou eu me deixaria levar pelo assunto em si e a relevância de não permitir que ele seja esquecido. No final, escolhi abster-me de estabelecer uma avaliação definitiva em estrelas simplesmente porque caminhar para um lado ou outro seria potencialmente errado. Afinal, esses sete minutos, como documento histórico, é imperdível. No entanto, como feito técnico, é banal.

  • Agradeço a inestimável ajuda de meu colega e co-editor chefe do Plano Crítico, Luiz Santiago (e Grão-Usurpador Mor, claro, mas esse é um título que ele modestamente prefere esconder) em conversas preparatórias sobre o assunto, sobre a forma de avaliar o documentário e na revisão da presente crítica. 

Uma Noite no Madison Square Garden (A Night at the Garden, EUA – 2018)
Direção: Marshall Curry
Com: Fritz Kuhn, Isadore Greenbaum
Duração: 7 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.