Número de temporadas: 1
Número de episódios: 220
Período de exibição: 16 de outubro de 1972 a 30 de junho de 1973
Há continuação ou reboot?: Sim, há remake da novela feito em 2010, pelo SBT.
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Bairro do Bexiga, em São Paulo. Um cortiço de imigrantes italianos, o boicote de um advogado golpista e a secretária que finge receber flores no escritório para esconder a solidão são situações que imediatamente prendem a atenção do espectador nessa abertura de Uma Rosa com Amor. Nesse recorte paulistano de 1972, Vicente Sesso encontrou o universo perfeito para sua comédia romântica, centrada em Serafina Rosa Petrone, personagem de Marília Pêra que sofre de um grande vazio afetivo e tem de lidar, todos os dias, com os lamentos da mãe para o fato de que ela não tem namorado, está muito magra e pode passar a vida como “solteirona“. Seu gesto de envio de flores para si mesma, em seu local de trabalho, ajuda a construir a protagonista com uma sensibilidade rara para a época: uma mulher comum, sem os atributos convencionais de beleza televisiva, alimentando fantasias românticas num país que vivia o auge do milagre econômico e dos anos de chumbo da ditadura militar, onde o escapismo da TV aliviava os dias e a mulher continuava tendo um único encaminhamento social: ser esposa e, obrigatoriamente, mãe.
Vicente Sesso escreve com muita delicadeza e crítica afiada (mas não didática) os núcleos familiares e profissionais da trama, sem debandar para os enredos exagerados e moralistas. Claude Antoine Geraldi, industrial vivido por Paulo Goulart, e Nara Paranhos de Vasconcelos, vilã de Yoná Magalhães (que retornava à Globo após um período na TV Tupi), encabeçam os conflitos principais através de diálogos naturais e um humor tão fino que impressiona ser de uma novela setentista. A família Petrone, no cortiço do Bexiga, é abordada de maneira crua pela direção de Walter Campos, que consegue tirar maravilhosas interpretações do elenco, deixando que a comicidade nasça das situações do dia a dia e não de caricaturas exageradas. Pimpinoni, interpretado por Grande Otelo, é o artesão de marionetes que traz conforto através da poesia e da sabedoria popular, representando uma visão humanizada da vida que contrasta com as ambições materiais da São Paulo industrial em expansão.
A força dessa comédia romântica está na honestidade e clareza com que o roteiro apresenta os personagens e contextualiza seus cenários e possibilidades. A protagonista, ciente de suas próprias limitações, decide assumir o controle da própria história e não se deixar levar pelos papéis que esperam dela. E, claro, isso é uma novidade. Marília Pêra, em sua primeira grande comédia para televisão, interpreta uma jovem terna, inocente (mas não boba) e relativamente triste, mas não miserável. A química com Goulart já se mostra forte, ainda que os personagens mantenham distância social e emocional nessa estreia. A produção em preto-e-branco, escolha técnica que logo seria abandonada pela emissora, dá uma cara quase documental à produção (vista com olhares de décadas depois, evidentemente), enquanto a abertura, com a maravilhosa Uma Rosa com Amor, de Kris & Cristina, explora o tom lúdico que abraça a trama. Cada núcleo aqui tem espaço para respirar e o espectador consegue compreender as motivações de cada personagem central, conectando-se rapidamente a eles.
Uma Rosa Com Amor trouxe um novo tom dramatúrgico para o horário das 19h, elencando personagens maduros e valorizando um uso cômico, irônico e crítico dos dilemas sociais e humanos que tinha em mãos. A exploração da dualidade entre tradição e modernização (muito clara no choque entre os valores do cortiço italiano e a São Paulo cosmopolita) vem de um projeto autoral consciente de seu tempo histórico, da cultura de sua cidade e dos valores de seu país. Sesso concebe uma narrativa leve, que diverte o público, mas que também faz um bom retrato de época, sem ser panfletário ou deixar a história chata com verborragias e choramingos que chamam a atenção demais para si. Esse primeiro capítulo de Uma Rosa Com Amor cumpre bem aquilo que promete, a despeito de suas limitações técnicas: entrega uma história charmosa sobre pessoas comuns buscando amor e dignidade.
Uma Rosa com Amor – Capítulo 1 (Brasil, 1972)
Criação: Vicente Sesso
Direção: Walter Campos
Roteiro: Vicente Sesso
Elenco: Marília Pêra, Tônia Carrero, Yoná Magalhães, Paulo Goulart, Leonardo Villar, José Augusto Branco, Wanda Lacerda, Marcos Paulo, Grande Otelo, Lélia Abramo, Felipe Carone, Ênio Santos, Nívea Maria, Ary Fontoura, Roberto Pirillo, Herivelto Martins Filho, Tamara Taxman, Gilberto Martinho, Jacyra Silva, Eleonor Bruno, Monah Delacy, Henriqueta Brieba, Nélson Caruso, Heloísa Helena, Jorge Cherques
Duração: 33 min.
