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Crítica | Uma Rosa com Amor (2010) – Capítulo 1

Metade da essência, pelo menos, foi preservada.

por Luiz Santiago
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Bem-vindos ao Plano Piloto, coluna semanal dedicada a abordar exclusivamente os pilotos de séries de TV.

Número de temporadas: 1
Número de episódios: 145
Período de exibição: 1º de março a 16 de agosto de 2010
Há continuação ou reboot?: Este já é um remake da novela de 1972.

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Adaptar Uma Rosa com Amor para o SBT era uma missão complicada desde o princípio, qualquer um entendia isso. Vicente Sesso havia criado na Globo, em 1972, uma comédia romântica de sucesso, com Marília Pêra e Paulo Goulart como protagonistas, e agora Tiago Santiago precisava transpor essa história para uma emissora que, há décadas, alternava entre adaptações mexicanas e fracassos na dramaturgia nacional. Santiago vinha da Record, onde A Escrava Isaura e Prova de Amor tinham dado boa audiência, mas encontrou no SBT os mesmos problemas de sempre: orçamento curto, equipamentos defasados, estrutura precária. A produção teve direção geral de Del Rangel, tentando equilibrar dois universos narrativos: o casarão velho (“cortiço”) italiano do Bixiga, onde vive a secretária Serafina Rosa com sua família, e os escritórios empresariais de Claude Geraldy, empresário francês com visto irregular no Brasil. Só que não há equilíbrio, convenhamos. Betty Faria e Edney Giovenazzi constroem personagens incríveis e envolventes como Amália e Giovanni Petroni, pais de Serafina, enquanto Cláudio Lins e o elenco dos ambientes corporativos se perdem em diálogos toscos e total artificialidade.

Santiago não mexe na estrutura básica da versão de 1972: Serafina envia rosas para si mesma fingindo ter um admirador secreto; Claude precisa se casar com uma brasileira para regularizar sua situação no país; e há alguém tentando sabotar tudo. A diferença entre os núcleos fica evidente nos primeiros vinte minutos. Na cena de abertura Claude, desce de helicóptero, conversa com Mr. Smith sobre negócios milionários, termina a noite numa festança, e nada disso cativa o público. Os atores parecem travados, os movimentos parecem sem acabamento, e o que sobra é toda uma abertura artificial que desperdiça tempo de tela. Depois vem o Bixiga. Betty Faria comanda uma longa cena matinal com a família e recupera tudo aquilo que faltava: timing cômico, diálogos orgânicos, personagens construídos com densidade e charme. Edney Giovenazzi completa a dupla com excelência, criando um patriarca birrento, mas afetuoso, que serve de contraponto à Amália de Betty. A cena corre como um rio calmo, tem ritmo e diverte, finalmente assumindo a cara de uma novela brasileira popular bem-feita.

As cenas do Bixiga preservam elementos da obra original de Sesso: imigrantes italianos, cortiços, o sotaque que Adoniran Barbosa eternizou e um senso muito forte de família e comunidade. Os ambientes empresariais, por outro lado, soam genéricos. Carlo Briani e Mônica Carvalho interpretam vilões rasos sem nenhuma camada adicional, e a gente já conseguia ver isso na balada da abertura. Por outro lado, Carla Marins, como Serafina, coloca-se muito bem nos dois cenários porque a personagem é simples e direta, mas isso não resolve o desequilíbrio geral. Santiago tinha experiência na Record, onde havia trabalhado com recursos melhores, e agora esbarrava nas mesmas fragilidades do SBT dos anos 1990, quando Silvio Santos fechou o departamento de novelas após o desastre de Brasileiras e Brasileiros. A pressa nas gravações, os cronogramas apertados, a falta de tempo para ajustar detalhes, tudo isso junto acabou atrapalhando a produção, que mesmo assim, nessa estreia, teve um resultado solidamente acima da média.

A produção do SBT tinha conseguido um material de qualidade para fazer uma boa novela, mas entregou meia novela boa. O Bixiga é a melhor parte porque ali há vida, família, atores que sabem o que estão fazendo e direção que entende comédia romântica e popular brasileira. Os escritórios e a parte da alta classe paulistana existem apenas porque a trama original de Sesso exigia, mas ninguém conseguiu fazer esses blocos ganharem densidade ou serem verdadeiramente atrativos. Del Rangel dirigiu as limitações técnicas do SBT como pôde, e o resultado… bem, como eu já disse, é uma estreia muito boa e divertida, a despeito de seus piores núcleos dramáticos. A versão de 1972 tinha um equilíbrio inocente e charmoso, com menos falhas; já essa, tem apenas metade funcional.

Uma Rosa com Amor – Capítulo 1 (Brasil, 2010)
Criação: Tiago Santiago (baseado na novela de Vicente Sesso)
Direção: Del Rangel
Roteiro: Tiago Santiago
Elenco: Carla Marins, Cláudio Lins, Mônica Carvalho, Betty Faria, Edney Giovenazzi, Carlo Briani, Isadora Ribeiro, Lúcia Alves, Etty Fraser, Clarisse Abujamra, Joana Limaverde, Luciana Vendramini, Rubens Caribé, Maria Cláudia, Roberto Arduim, João Acaiabe, Jussara Freire, Nilton Bicudo, Renato Scarpin, Gisele Fraga, Paulo Goulart Filho, Cidinha Milan, Pathy Dejesus, Toni Garrido, Daniel Uemura
Duração: 55 min.

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