Crítica | Uma Sobre a Outra

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Levemente inspirado em Um Corpo que Cai, de HitchcockUma Sobre a Outra marcou um importante momento de virada na carreira do diretor Lucio Fulci. À parte o drama Gli Imbroglioni (1963) e o western spaghetti Tempo de Massacre (1966), o cineasta construiu sua carreira assinando comédias, de modo que é bastante impressionante a sua passagem de gênero tecnicamente tão apurada como a que vemos neste giallo de 1969, obra que segue excelente do seu início até sua meia hora final, momento em que vemos uma escalada impressionante dos pontos negativos da fita e consequentemente, sua progressiva queda de qualidade.

Como muitos gialli de final dos anos 1960, Una Sull’altra repousa sobre uma escrupulosa malha técnica, com abordagem visual cosmopolita (as filmagens foram majoritariamente feitas em São Francisco), personagens visitando diversos lugares, viagens de carro a perder de vista e um crime cheio de camadas que são imensamente mais interessantes que a própria resolução da obra — infelizmente, um problema não só deste curioso suspense. Aqui, acompanhamos o Dr. George Dumurrier (Jean Sorel), que juntamente com seu irmão administra uma clínica que passa por dificuldades financeiras. De imediato percebemos a atuação mais parada de Jean Sorel, com seus olhares perdidos no ambiente, mirando o nada, sem reação alguma diante de coisas que necessitavam reações, algo que definitivamente não me agradou, mas que não chegou a atrapalhar de fato o filme… até os seus 30 minutos finais.

Para completar o conjunto de premissas para o assassinato e posterior investigação, conhecemos a esposa doente do Dr. George (que é mais um charlatão dado a sensacionalismo na imprensa para divulgar sua clínica do que um médico de verdade), interpretada por Marisa Mell; e sua amante, uma fotógrafa de moda vivida por Elsa Martinelli. A montagem ágil e o bom uso de câmera em perspectiva reforçam toda a observação do público para esses indivíduos. Pequenas nuances de mistério são apresentadas na história, com atores e atrizes mirando-se com desconfiança ou sendo enquadrados em um primeiro plano que sugere maldade, algum plano oculto em andamento. A longo prazo, nos acostumamos com essa abordagem bem pessoal do diretor e vemos como cada mudança de atmosfera é fortemente marcada pela música (uma das melhores coisas desse filme) e pela direção de arte, bem mais do que pela fotografia, como acontece nos giallos de Dario Argento, por exemplo.

Fulci privilegia o escuro e nele exibe alguns dos momentos mais calmos e sexuais da obra, com destaque para a famosa cena sensual entre Marisa Mell e Elsa Martinelli. O roteiro, no entanto, não utiliza o sexo como uma porta de entrada para a punição. Os personagens possuem uma larga liberdade em relação aos laços pessoais e ao contato mais íntimo sem que isso lhes retorne como uma consequência negativa, algo comum em obras do gênero. A motivação para o crime é realista, o próprio crime é notadamente intricado, bem executado e escondido — resultando em uma investigação de tirar o fôlego, passo a passo revelando novidades –, mas a forma como o roteiro traz as respostas à tona é um verdadeiro show de didatismo e de negação da própria inteligência do enredo até ali.

Quando o diretor afirmou ter buscado referências em As Diabólicas, de Henri-Georges Clouzot, ele não estava mentindo. O roteiro de Uma Sobre a Outra não só destaca imensamente a presença feminina (a despeito da explicação final) como também faz com que a história seja mostrada pelo olhar e ações de diferentes mulheres. O ideal de manipulação aqui é elevado e bem escrito, funcionando em todos os aspectos. Tudo isso faz com que a grande revelação e a resolução do drama se tornem ainda mais enervantes, uma vez que toda a preparação para o grande momento foi simplesmente um deleite cinematográfico. Uma entrada e tanto do diretor nesse Universo de violência estilizada à la italiana.

Uma Sobre a Outra (Una sull’altra) — Itália, França, Espanha, 1969
Direção: 
Lucio Fulci
Roteiro: Lucio Fulci, Roberto Gianviti, José Luis Martínez Mollá (com colaboração de Massimo Castellani, Franco Ferrari, Massimo Franciosa)
Elenco: Jean Sorel, Marisa Mell, Elsa Martinelli, Alberto de Mendoza, John Ireland, Riccardo Cucciolla, Bill Vanders, Franco Balducci, Giuseppe Addobbati, Félix Dafauce, Jesús Puente, George Rigaud, Jean Sobieski, Faith Domergue
Duração: 108 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.