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Crítica | Uma Vida Oculta

por Ritter Fan
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Franz Jägerstätter, um fazendeiro austríaco profundamente católico do vilarejo alpino de Sankt Radegund, recusou-se a fazer o juramento à Hitler e a lutar na Segunda Guerra Mundial, o que o levou a ser preso e executado. A história verdadeira, porém, tem muito mais, já que ele não só fora o único a votar contra a unificação – ou Anschluss – ocorrido em 1938 como também foi um cidadão vocalmente contra o nazismo. Terrence Malick, de certa forma, simplifica os fatos e foca especificamente em sua recusa em fazer o juramento e nas consequências para ele e para sua família, colocando nas telonas mais um de seus visualmente belíssimos filmes espirituais que dificilmente agradará quem não está acostumado e gosta do tipo de obra que o cineasta mais diretamente passou a fazer a partir de A Árvore da Vida.

Não há pressa e o fio narrativo não é repleto de acontecimentos que impulsionam a história de maneira tradicional. As imagens, como é comum na filmografia de Malick, comandam a progressão narrativa, mas Uma Vida Oculta é, muito provavelmente, pelo menos em termos comparativos, seu mais convencionalmente estruturado filme em muitos anos. E não afirmo isso de maneira negativa, mas sim neutra, como um constatação que me deixou surpreso. Há uma evidente linearidade no que vemos ao longo das quase três horas de projeção que, como de costume, exigem muito do espectador não pela complexidade, mas sim pela reflexão que a fita inevitavelmente nos obriga a fazer, independente da crença religiosa que se tem.

O cerne, claro, é a fé católica fervorosa de Franz, vivido de maneira angustiante e fantasmagórica por August Diehl. Sua posição é inamovível: ele até poderia se recusar a pegar em armas, aceitando uma posição em hospital de guerra, mas a questão mais importante para ele é a necessidade prévia de se fazer o tal juramento do soldado que era conhecido como o juramento a Hitler. Sua moral e sua fé não permitem que ele assim o faça, seja qual for a consequência direta para ele e indireta para sua esposa Fani, vivida por Valerie Pachner em outra atuação arrebatadora, e para suas três filhas pequenas. Mas Franz não é passivo exatamente. Antes que o pior aconteça, ele faz de tudo para encarar e estudar seu posicionamento, conversando diretamente com seu padre local e também com o Bispo da região.

O verdadeiro teste que Malick nos propõe é compreender o que se passa na cabeça de alguém como Franz. Um herói, sem dúvida, mas um herói entendido assim em retrospecto, considerando os horrores da Alemanha nazista. Mas nossa visão sobre ele seria a mesma em circunstâncias, hummm, normais? Em uma guerra “justa? Ou ele é covarde, egoísta e insensível ao sofrimento de sua família? E mais: como manter a fé em uma religião que, para todos os efeitos, se não se mostra – pelo menos ali em sua realidade – contra o nazismo em particular e a guerra em geral, no mínimo permanece passiva, condenando indiretamente atos de desobediência como esse de Franz? E seus amigos e concidadãos em Radegund, todos igualmente católicos, que transformam sua esposa – que fica quase que completamente sozinha trabalhando pesado no campo para alimentar suas filhas e sua sogra – em persona non grata?

Em sua proposta, o cineasta faz uso de imagens belíssimas, mas ao mesmo tempo assustadoras de um paraíso idílico transformando-se em um inferno. O trabalho de pós-produção demorou mais de dois anos e muito desse tempo foi dedicado à escolha das imagens e à montagem, com um efeito que muitas vezes descorporifica as vozes, deixando-as no ar quase que como uma narração descompassada, além do uso de lentes largas, quase grande angulares, com a manutenção de uma razão de aspecto esticada mesmo quando ele trabalha close-ups ou planos americanos, o que exige muito da composição cenográfica. Há uma tendência ao desnorteamento e ao estilo documental que emula a câmera na mão que por vezes leva a enquadramentos estranhos que cortam cabeças ou estruturas de maneira aparentemente aleatória e que, particularmente, me desagrada por não ter uma função maior na narrativa que não a estilística. É como se o diretor quisesse afastar o espectador ou pelo menos nos testar, ainda que o resultado de “pesadelo” funcione muitas vezes.

A trilha sonora original de James Newton Howard foi reunida à peças clássicas de compositores com Bach, Handel, Dvorak e outros, amplificando a abordagem espiritual quase sobrenatural que opõe o amor à fé na mesma proporção que torna patente que um é substancialmente o mesmo que o outro. As entradas e saídas para a trilha original são brilhantemente trabalhadas por Malick e seu trio de editores, mantendo uma suavidade perturbadora que incomoda na mesma proporção que afaga, mas sem jamais nos deixar esquecer do drama e das dúvidas de Franz e o que elas trazem para sua tão amada família.

Uma Vida Oculta não é um filme fácil, que pode ser visto de maneira corriqueira ou descompromissada. Nenhum filme de Malick é assim na verdade, já que todos exigem mais foco e atenção do que o convencional. Mas, se ele se perdeu razoavelmente em suas duas ou três obras imediatamente anteriores, ele voltou a se encontrar na significativa espiritualidade de um homem solitário tentando entender até que ponto deve manter-se convicto em sua moral e fé.

Uma Vida Oculta (A Hidden Life, EUA/Alemanha – 2019)
Direção: Terrence Malick
Roteiro: Terrence Malick
Elenco: August Diehl, Valerie Pachner, Maria Simon, Karin Neuhäuser, Tobias Moretti, Ulrich Matthes, Matthias Schoenaerts, Franz Rogowski, Karl Markovics, Bruno Ganz, Michael Nyqvist, Jürgen Prochnow, Joel Basman, Mark Waschke, Alexander Fehling, Martin Wuttke, Karl Markovics, Franz Rogowski, Max Mauff
Duração: 173 min.

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