Crítica | Under the Silver Lake (2018)

plano critico under-the-silver-lake

Temos sede de mistério porque ele não existe mais.

O que há debaixo de Silver Lake? Ou melhor, o que há debaixo de Hollywood? Ou por que não, o que há debaixo do entretenimento? Seria ele mesmo através das milhões de reflexões que proporciona, algo meramente descartável ao final de tudo? David Robert Mitchell, cineasta precursor da recente volta do terror psicológico com Corrente do Mal (2014), brinca com esses questionamentos em uma sátira conspiracionista surreal, de deixar David Lynch e Terry Gilliam bem orgulhosos, por seguir uma unidade deliciosamente aleatória de mistério com uma atmosfera neo-noir propositalmente confusa, mesclando diferentes repertórios culturais nas mais variadas vertentes artísticas, do clássico ao moderno, num bizarro passeio pelo submundo fantasioso de Los Angeles.

O gatilho hitchcockiano do suspense reside no desaparecimento de uma misteriosa figura feminina e no jovem Sam, que ficará obcecado em descobrir seu paradeiro, mergulhando cada vez mais fundo em um quase literal jogo de referências, onde pistas vão desbloqueando novos locais na cidade que levarão a novos passos para a resolução do mistério. Entretanto, a narrativa não necessariamente irá seguir uma linearidade de gameplay para resolvê-lo, ela está mais interessada em satirizar os desdobramentos do caminho e o propósito de sua criação, advindo da mente “vagabunda” de um adolescente sem responsabilidades e com o constante sentimento de vazio, em meio ao tédio da vida sexualmente ilícita que, ironicamente, ganha um novo tesão ao se deparar com um universo desconhecido idealizado em um propósito de grandiosidade maior. 

O filme acredita no mistério como um artifício meramente reconfortante, que mesmo com um propósito se perde ao ser descoberto, como um local antes inóspito e agora habitado, e faz questão até de reforçar isso em algumas linhas de diálogo. Portanto, a premissa é apenas uma porta de entrada para um mundo sem saída, ou ao menos sem saída lógica, mas recheada de estímulos momentâneos. Assim, a cíclica dos acontecimentos segue justamente a ilógica jovial que o próprio roteiro posiciona em seu protagonista, inconsequente e imediatista, procurando no entretenimento uma muleta existencialista, para justificar sua mente passivamente consumista a todos os artefatos disponíveis em sua geração, sem interesse na digestão intelectual por trás delas e mais preocupado nas motivações que o convém, porque quando não, simplesmente teoriza por cima de maneira que fique confortável.

É claro que quando se fala em longas de caráter temático aleatório, a linha tênue com a superficialidade é bem fina, algo que mesmo intrínseco ao roteiro pode vir a sancionar um aspecto pretensioso. Nesse caso, acredito que a pretensão não engula o resto, mas é inegável que ao soltar tantos comentários, transforme-os individualmente em pouco aprofundados, o que na prática contradiz o fogo ideológico não superficial das reflexões proporcionadas. Não incomoda pelo fato de que o texto é hábil o suficiente para ironizar até mesmo seu moralismo questionador de tudo, o que permite um uso promissor de humor ácido para qualquer direcionamento referencial, uma mescla de “Irmãos Coen” com Tarantino pelo tratamento pop. O que se torna cansativo é esse recurso de anulação que se repete conforme as imprevisibilidades, estendendo demasiadamente a experiência e tornando alguns trechos isoladamente bem gratuitos.

O terço final é o que mais sai prejudicado com isso, já que busca uma pseudoexplicação da trama principal que não era necessária, perdendo pelo menos umas três oportunidades de finalizar em uma nota mais ambígua como no restante, o clima de paranoia se esvazia antes de acabar, e assim as 2h20min pesam um pouco. Enquanto dura, Andrew Garfield entrega a melhor performance de sua carreira, divertindo-se diante da zoação da própria imagem que lhe foi criada, ao passo que representa fisicamente com perfeição a insobriedade de um jovem adulto perdido no mundo alucinógeno. Os demais do elenco também se enquadram bem na estranheza do projeto, preenchendo e figurando o particular e surreal universo com verossimilhança.

Se David Mitchell no seu primeiro terror discutia o medo feminino diante de olhares maliciosos e uma perseguição incessante por sexo, em O Mistério de Silver Lake ele abre a vitrine para os medos de uma geração automatizada por um contexto tecnológico, onde a ampla conexão cria um senso de desconfiança obsessivo em tentar buscar respostas, significados e ligações para todo o resto, sempre apontando culpados ao invés de olhar para si. Um mix de gêneros, questionamentos e metalinguagens, amontoados em uma das experiências mais curiosas do ano, daquelas de dividir opiniões para possivelmente ser um clássico cult num futuro próximo.

O Mistério de Silver Lake (Under the Silver Lake) – EUA, 2018
Direção: David Robert Mitchell
Roteiro: David Robert Mitchell
Elenco: Andrew Garfield, Riley Keough, Topher Grace, Callie Hernandez, Jeremy Bobb,  Riki Lindhome, Zosia Mamet, Patrick Fischler
Duração: 139 min.

IANN JELIEL . . . Um aspirante a engenheiro da computação que acabou descobrindo no cinema um refúgio para sair da engrenagem robótica da sociedade, como em "Matrix", onde tudo segue uma rotina protocolar implantada na mente. Olho a sétima arte como um quebrador desses paradigmas, capaz de nos fazer refletir sobre qualquer espectro existencialista da humanidade, e ao mesmo tempo nos encantar e entreter com suas milhares de histórias transcendentais em corpo e alma. Por isso, escrevo sobre ela, pois foi nos textos críticos que aprendi a olhá-la dessa forma libertadora, e espero libertar muitos da mesma forma.