Home TVTemporadas Crítica | Undone – 1ª Temporada

Crítica | Undone – 1ª Temporada

por Ritter Fan
770 views (a partir de agosto de 2020)

Raphael Bob-Waksberg e Kate Purdy começaram suas carreiras televisivas há relativamente pouco tempo, notabilizando-se, principalmente, como escritores e produtores de Bojack Horseman para o Netflix. Expandindo seus horizontes e respondendo à alta demanda por séries novas que os canais de streaming criaram, a dupla concebeu Undone para o Amazon Prime Video que vagarosa, mas certeiramente, trabalha na ampliação de seu portfólio próprio sem prender-se a um gênero ou a uma técnica de se fazer série, ou seja, espelhando-se em seu concorrente que desbravou esse território.

Undone faz uso de rotoscopia, uma técnica antiga de animação que ganhou novo vigor em obras recentes como Acordar para a Vida e O Homem Duplo, ambas de Richard Linklater, que consiste em, grosso modo, “tracejar” quadro-a-quadro filmagens live-action, quase que como uma captura de performance mais simplificada. O resultado é uma animação que se aproxima muito das feições dos atores, ao mesmo tempo que permite arroubos imaginativos sem a necessidade de emprego de efeitos caros. Pessoalmente, nunca apreciei o uso da técnica para os fins que vemos nessa série ou nos filmes citados, pois a animação acaba chamando mais atenção para si própria do que para a história sendo contada, ainda que eu não vá “tirar pontos” de Undone por isso.

Apesar de ser uma série curtíssima de apenas oito episódios de pouco mais do que 20 minutos cada, ela é, estranhamente, de queima lenta, que exige calma do espectador. Na verdade, a impressão é de queima lenta, pois, narrativamente, a série vale-se de dúvidas sobre sua própria natureza. Saímos de um drama familiar para o flerte com a ficção científica que deságua em uma abordagem psicológica da percepção humana sobre o que é, afinal de contas, a realidade. Sem falar nada relevante sobre a trama para evitar spoilers, tudo realmente começa quando Alma Winograd-Diaz (Rosa Salazar, a Alita de Alita: Anjo de Combate), uma jovem que não se contenta com a rotina da vida e, por isso, não consegue se encaixar de verdade nos ditames da sociedade sobre relacionamentos, trabalho ou mesmo família, sofre um acidente automobilístico causado pela visão momentânea de seu pai, Jacob (Bob Odenkirk, o Saul de Better Call Saul), falecido há muitos anos. A partir desse ponto, Jacob torna-se um fantasma (ou não) constantemente ao lado de Alma tentando ensinar-lhe sobre a relatividade do tempo e como manipulá-lo para evitar sua própria morte.

Na medida em que a temporada progride, o mistério sobre o passado de Jacob vai se tornando cada vez mais intrigante e cheio de revelações, assim como percebemos que a série é bem mais do que apenas sobre esse seu lado de toques sci-fi. Sim, há muito sendo abordado nos espaços que são deixados pela história principal, especialmente o subtexto constante de preconceito racial, algo que é mais presente nas comparações entre a família de brancos ricos do noivo de Becca (Angelique Cabral), irmã de Alma, e o passado judaico-mexicano da família mais modesta (mas não pobre) Winograd-Diaz e com o que vemos de Sam (Siddharth Dhananjay), namorado indiano de Alma. Não é algo esfregado no rosto do espectador e nunca o assunto toma a frente da narrativa, mas ele está constantemente presente em comentários, olhares e atitudes, o que empresta um excelente grau de realismo – mas sem sermões didáticos – sobre o delicado assunto.

Além disso, há a relação familiar entre Alma, Becca e Camila (Constance Marie), mãe das duas. Percebe-se o amor entre elas, ainda que os roteiros sejam hábeis em criar uma relação verossímil, cheia de pequenos vícios e problemas, com Camila super-protetora, Becca tentando encaixar-se em um molde e Alma… bem, Alma é a rebeldia sem causa em pessoa, alguém que realmente não consegue vestir, com facilidade ou mesmo um mínimo de boa-vontade, qualquer tipo de exigência da sociedade, mesmo que isso signifique ferir os sentimentos de quem ela ama. Esse drama familiar conversa bem, suspeito, com muita gente e, quando a história principal começa a desenrolar-se e a tangenciar com a familiar, a situação fica ainda mais interessante e próxima da vida como ela é apesar de todos os arroubos temporais por que passa Alma em seu processo de investigação sobre a morte do pai e, principalmente, de amadurecimento.

Undone é uma caixinha de bonitas surpresas com ótimas atuações de todo o elenco, especialmente Salazar e Odenkirk. Apesar de técnica de animação escolhida e do começo relativamente lento e desfocado, a série longo prende a atenção e joga uma rede narrativa que é ampla, mas cujas peças encaixam-se muito bem. Devo dizer, porém, que desgosto profundamente dos últimos três ou quatro segundos do último episódio, já que eles só existem para permitir uma segunda temporada em uma obra que muito claramente deveria ser uma minissérie, mas vamos ver como a coisa se desenrola no futuro…

Undone – 1ª Temporada (EUA – 13 de setembro de 2019)
Criação: Raphael Bob-Waksberg, Kate Purdy
Direção: Hisko Hulsing
Roteiro: Kate Purdy, Raphael Bob-Waksberg, Lauren Otero, Joanna Calo, Elijah Aron
Elenco: Rosa Salazar, Bob Odenkirk, Angelique Cabral, Constance Marie, Siddharth Dhananjay, Daveed Diggs, Kevin Bigley, John Corbett, Jeanne Tripplehorn, Sheila Vand, Tyler Posey, Brad Hall, Nicholas Gonzalez
Duração: 22 min. aprox. por episódio (8 episódios)

Você Também pode curtir

16 comentários

Jorge Duete 6 de maio de 2020 - 13:07

Concordo contigo. O finalzinho ali só existe pra prejudicar o desenvolvimento da série. Ao meu ver, a série ocorre através da visão de uma pessoa com esquizofrenia, em como ela enxerga o mundo e reage a ele, experimentando e se descobrindo no processo. Exemplar. Mas vem o finalzinho e deixa uma pontinha no ar… Adoro finais abertos, mas quando convém… Não é o caso aqui.

Responder
planocritico 6 de maio de 2020 - 13:47

Pois é. A “continuíte aguda” que essas produções sofrem é irritante…

Abs,
Ritter.

Responder
Quark Ferengi 9 de janeiro de 2020 - 22:41

Lenta, lenta… muito lenta. Assisti os dois primeiros episodios me segurando pra nao dormir. Eles poderiam ter sido condensados em um só. Comecei o terceiro, pulei partes e nao aguentei: fui direto pro ultimo. E, mesmo pulando partes nele, ainda o achei lento, chato e repetitivo. Não me surpreendi, nem senti falta de nada enquanto avançava. Desde o começo da série eu suspeitava de algumas coisas que se revelaram verdadeiras na historia. E vai ter segunda temporada. Pra mim, felizmente, não.

Responder
planocritico 21 de janeiro de 2020 - 14:03

Ela é um pouco lenta sim, mas, no final das contas, acabei gostando.

Abs,
Ritter.

Responder
Marcele Sousa 4 de novembro de 2019 - 01:56

Ok. Segunda temporada, lá vamos nós!

Responder
planocritico 4 de novembro de 2019 - 08:23

Acho que deveria parar nessa.

Abs,
Ritter.

Responder
Felipe Augusto 12 de outubro de 2019 - 00:48

Waking Life p mim é uma obra de arte, um dos filmes q mudaram e moldaram mta coisa em mim e adoro rotoscopia, então p mim sem problemas nisso. A série é incrível, q belíssima surpresa! Esquizofrenia, misticismo, drama, realidade nua e crua, imaginação, Saul Goodman kkkk…enfim, amei pacaraleo e o final ambíguo é excelente, do jeito q gosto. Série perfeita, p mim 5 estrelas fácil. E tomara q não tenha 2a temporada.

Responder
planocritico 12 de outubro de 2019 - 13:10

Também espero que não tenha uma segunda temporada!

Abs,
Ritter.

Responder
Celso Ferreira 30 de setembro de 2019 - 23:28

Achei uma série incrível.
A pegada emocional dos produtores muito presente em Bojack aparece mais sutil e com mais drama, mas muito bem executada.
Cada episódio é uma obra de arte em 22 minutos.
Cada segundo é bem aproveitado.
Construção de personagens excelente.
Envolvimento dos personagens excelente.
Desenvolvimento da história excelente.
Eu daria um 4,5 estrelas.
Não dou 5 estrelas porque poderiam ter desenvolvido melhor a parte mística quando abordam a cultura xamânica.
Fora isso, excelente!
O hype pra última temporada de Bojack tá nas alturas!!

Responder
planocritico 1 de outubro de 2019 - 14:57

Que bom que gostou tanto!

Abs,
Ritter.

Responder
Diego Santos 24 de setembro de 2019 - 09:36

Uma das minhas series favoritas que vi esse ano, depois que estranheza inicial da rotoscopia foi superada eu curti demais, espero tb que não tenha uma segunda temporada e estou indicando pra todos que conheço.

Responder
planocritico 24 de setembro de 2019 - 17:42

Que bom que tenha gostado tanto!

Abs,
Ritter.

Responder
Paulo Luz 20 de setembro de 2019 - 15:59

Pra quem disse que evitaria spoilers, o final do último parágrafo da crítica foi meio broxante pra mim que ainda estou no 7º episódio, hehehe. Mesmo assim, muito boa crítica.

Responder
planocritico 20 de setembro de 2019 - 17:17

Não dei spoiler algum.

E obrigado!

Abs,
Ritter.

Responder
Luigi pimentel 19 de setembro de 2019 - 05:15

Não acho que vai ter uma segunda temporada, prefiro acreditar que o final é ambíguo

Responder
planocritico 19 de setembro de 2019 - 12:23

Também prefiro, mas hoje é raro uma minissérie permanecer como minissérie…

Abs,
Ritter.

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais