Crítica | Undone – 1ª Temporada

Raphael Bob-Waksberg e Kate Purdy começaram suas carreiras televisivas há relativamente pouco tempo, notabilizando-se, principalmente, como escritores e produtores de Bojack Horseman para o Netflix. Expandindo seus horizontes e respondendo à alta demanda por séries novas que os canais de streaming criaram, a dupla concebeu Undone para o Amazon Prime Video que vagarosa, mas certeiramente, trabalha na ampliação de seu portfólio próprio sem prender-se a um gênero ou a uma técnica de se fazer série, ou seja, espelhando-se em seu concorrente que desbravou esse território.

Undone faz uso de rotoscopia, uma técnica antiga de animação que ganhou novo vigor em obras recentes como Acordar para a Vida e O Homem Duplo, ambas de Richard Linklater, que consiste em, grosso modo, “tracejar” quadro-a-quadro filmagens live-action, quase que como uma captura de performance mais simplificada. O resultado é uma animação que se aproxima muito das feições dos atores, ao mesmo tempo que permite arroubos imaginativos sem a necessidade de emprego de efeitos caros. Pessoalmente, nunca apreciei o uso da técnica para os fins que vemos nessa série ou nos filmes citados, pois a animação acaba chamando mais atenção para si própria do que para a história sendo contada, ainda que eu não vá “tirar pontos” de Undone por isso.

Apesar de ser uma série curtíssima de apenas oito episódios de pouco mais do que 20 minutos cada, ela é, estranhamente, de queima lenta, que exige calma do espectador. Na verdade, a impressão é de queima lenta, pois, narrativamente, a série vale-se de dúvidas sobre sua própria natureza. Saímos de um drama familiar para o flerte com a ficção científica que deságua em uma abordagem psicológica da percepção humana sobre o que é, afinal de contas, a realidade. Sem falar nada relevante sobre a trama para evitar spoilers, tudo realmente começa quando Alma Winograd-Diaz (Rosa Salazar, a Alita de Alita: Anjo de Combate), uma jovem que não se contenta com a rotina da vida e, por isso, não consegue se encaixar de verdade nos ditames da sociedade sobre relacionamentos, trabalho ou mesmo família, sofre um acidente automobilístico causado pela visão momentânea de seu pai, Jacob (Bob Odenkirk, o Saul de Better Call Saul), falecido há muitos anos. A partir desse ponto, Jacob torna-se um fantasma (ou não) constantemente ao lado de Alma tentando ensinar-lhe sobre a relatividade do tempo e como manipulá-lo para evitar sua própria morte.

Na medida em que a temporada progride, o mistério sobre o passado de Jacob vai se tornando cada vez mais intrigante e cheio de revelações, assim como percebemos que a série é bem mais do que apenas sobre esse seu lado de toques sci-fi. Sim, há muito sendo abordado nos espaços que são deixados pela história principal, especialmente o subtexto constante de preconceito racial, algo que é mais presente nas comparações entre a família de brancos ricos do noivo de Becca (Angelique Cabral), irmã de Alma, e o passado judaico-mexicano da família mais modesta (mas não pobre) Winograd-Diaz e com o que vemos de Sam (Siddharth Dhananjay), namorado indiano de Alma. Não é algo esfregado no rosto do espectador e nunca o assunto toma a frente da narrativa, mas ele está constantemente presente em comentários, olhares e atitudes, o que empresta um excelente grau de realismo – mas sem sermões didáticos – sobre o delicado assunto.

Além disso, há a relação familiar entre Alma, Becca e Camila (Constance Marie), mãe das duas. Percebe-se o amor entre elas, ainda que os roteiros sejam hábeis em criar uma relação verossímil, cheia de pequenos vícios e problemas, com Camila super-protetora, Becca tentando encaixar-se em um molde e Alma… bem, Alma é a rebeldia sem causa em pessoa, alguém que realmente não consegue vestir, com facilidade ou mesmo um mínimo de boa-vontade, qualquer tipo de exigência da sociedade, mesmo que isso signifique ferir os sentimentos de quem ela ama. Esse drama familiar conversa bem, suspeito, com muita gente e, quando a história principal começa a desenrolar-se e a tangenciar com a familiar, a situação fica ainda mais interessante e próxima da vida como ela é apesar de todos os arroubos temporais por que passa Alma em seu processo de investigação sobre a morte do pai e, principalmente, de amadurecimento.

Undone é uma caixinha de bonitas surpresas com ótimas atuações de todo o elenco, especialmente Salazar e Odenkirk. Apesar de técnica de animação escolhida e do começo relativamente lento e desfocado, a série longo prende a atenção e joga uma rede narrativa que é ampla, mas cujas peças encaixam-se muito bem. Devo dizer, porém, que desgosto profundamente dos últimos três ou quatro segundos do último episódio, já que eles só existem para permitir uma segunda temporada em uma obra que muito claramente deveria ser uma minissérie, mas vamos ver como a coisa se desenrola no futuro…

Undone – 1ª Temporada (EUA – 13 de setembro de 2019)
Criação: Raphael Bob-Waksberg, Kate Purdy
Direção: Hisko Hulsing
Roteiro: Kate Purdy, Raphael Bob-Waksberg, Lauren Otero, Joanna Calo, Elijah Aron
Elenco: Rosa Salazar, Bob Odenkirk, Angelique Cabral, Constance Marie, Siddharth Dhananjay, Daveed Diggs, Kevin Bigley, John Corbett, Jeanne Tripplehorn, Sheila Vand, Tyler Posey, Brad Hall, Nicholas Gonzalez
Duração: 22 min. aprox. por episódio (8 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.