Crítica | Upgrade

“Você agora tem total controle novamente, Grey.”

Qual seria a evolução natural para o ser humano? A espera de milhões de anos se passarem, até que alguma característica sua se transformasse por readaptações, ou a união do orgânico com a tecnologia, entre o que é natural e o que é artificial? O quanto um homem digital ainda pode ser chamado de homem? E o quanto uma inteligência artificial ainda pode ser chamada só de inteligência artificial, quando passa a compartilhar do corpo de um ser vivo? O personagem Grey (Logan Marshall-Green) sofre por um processo que nos remete imediatamente a Robocop – O Policial do Futuro, porém, ao invés da reconstrução do corpo com partes robóticas, temos a presumida evolução do ser humano. O processo cirúrgico não é apenas de conserto, após um crime que deixa o protagonista tetraplégico. O experimento concedido a Grey envolve o aprimoramento das suas capacidades. Mas uma desumanização do personagem também irrompe.

O que Leigh Whannell, cineasta responsável pela direção e pelo roteiro de Upgrade, quer com o seu longa-metragem não é necessariamente alcançar uma novidade narrativa, a originalidade por excelência. Aqui, as temáticas estudadas, como o anseio indiscriminado por vingança e as vontades da inteligência artificial, são sempre retomadas pelo gênero de ficção-científica. O enredo que cerceia os personagens, no final das contas, é muito comum e pode sugerir que o projeto esteja se enxergando como mais esperto do que é. Upgrade é uma obra sobre vingança primeiramente, argumentada após a esposa de Grey, durante uma investida criminosa, ser cruelmente assassinada, enquanto o protagonista acabou sendo paralisado. O grande acerto de Whannell, no entanto, é desconstruir quais são as suas prioridades. Upgrade é, sobretudo, um projeto sobre o relacionamento entre Grey e o computador no seu pescoço, Stem (Simon Maiden).

Um importante twist reajusta certeiramente quais são essas intenções, expondo uma coerência enorme das propostas do longa-metragem e do que Whannel estava realmente desenvolvendo por quase duas horas. Os corretos objetivos envolvendo o casal principal, nada mais que corretos, poderiam ter existido nos primórdios da produção, em que Upgrade seria mais uma realização genérica a usar do seu impressionante visual como único motor de entretenimento. Essa trama em específico, porém, torna-se quase secundária, portanto escondida na memória do espectador, porque o que é realmente estudado pelo roteiro é a relação entre o orgânico e o artificial. Upgrade é um longa que permite ser essencial para si uma vertente que Venom, do mesmo ano, não conseguiu: o relacionamento entre os dois personagens, o que cada um deles quer um do outro, e o que significa a comunicação entre ambos, especialmente a toxicidade inerente a esse convívio.

Com uma câmera que reinterpreta a precedência quase automática do corpo que seria robótico, Whannel acorda o desenrolar do descontrole do protagonista sobre a sua própria carne com o charme que impregna nas cenas de ação. Os planos tornam-se um minucioso reflexo do que é a ação, não uma mera captação do que está acontecendo em cena. O acompanhamento de cada movimento que o protagonista apronta – ou seria a inteligência em sua cabeça – investe no envolvimento do espectador, sua captação do que é a automaticidade e a sua consequente empolgação. Um vigor é sentido enquanto visualiza movimentos ousados de câmera. E o crescente desconforto de Grey em vista do que acontece apenas engrandece a complexidade e a desumanização da ação. Logan Marshall-Green consegue oferecer a pantomima que Tom Hardy igualmente buscou. O corpo opõe-se às emoções que o rosto desse homem quer exprimir.

A construção da identidade de Stem é muito apropriada até, mas Upgrade não consolida um mundo próprio tão interessante quanto o de outras ficções-científicas similares. A apresentação de demais conceitos, como até mesmo o de um mundo parecido com o de Jogador Nº 1, soa apressada e muito menos imaginativa que o cerne – senão na proposta ao gênero de ação, que nos remete consideravelmente a um videogame. Mesmo assim, no quesito estético, alguma coisa competente está sendo desenvolvida pelo campo da arte, com visuais e cenários que agregam à criação de espaço em questão, pois, posteriormente, presenciamos cenas de pancadaria que exploram o ambiente. Já Cortez (Betty Gabriel) é só uma manivela narrativa mesmo. Upgrade conquista o nosso interesse porque sabe pelo que se interessar. Os investimentos estilísticos estão de acordo com o enredo. Qual seria, portanto, a evolução natural para as inteligências artificiais?

Upgrade – Austrália, 2018
Direção: Leigh Whannell
Roteiro: Leigh Whannell
Elenco: Logan Marshall-Green, Melanie Vallejo, Harrison Gilbertson, Betty Gabriel, Benedict Hardie, Simon Maiden, Linda Cropper
Duração: 100 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.