Crítica | Urbanized

Quando discutimos meio ambiente, precisamos dialogar com o processo de urbanização e seus impactos na natureza, discussão empreendida pelo documentário Urbanized, escrito e dirigido por Gary Hustwit, o mesmo de Helvética, ótimo percurso no mundo da tipografia. De maneira abrangente e preocupada com os debates em torno da relação entre habitação, seres humanos e natureza, a produção que engloba a Trilogia do Design versa sobre a importância dos projetos ligados aos ambientes urbanos, isto é, o desenho das cidades e como tais linhas traçadas não apenas por um pequeno grupo, mas por amplos participantes, podem condenar ou salvar a humanidade de problemas não apenas no campo da sustentabilidade, mas também no campo do emocional e das relações humanas.

Diante do exposto, Urbanized oferta ao espectador o que já podemos esperar da proposta realizada em seu título: um documentário que reflete as cidades e os seus desafios, tendo como ponto de partida diversos desenhos urbanos ao redor do planeta, inclusive o Rio de Janeiro, Brasília e Curitiba. Com opiniões registradas pela elegante direção de fotografia de Luke Gussbuhler, o filme traz urbanistas, políticos e outros convidados para falar sobre a importância do cuidadoso desenvolvimento urbano para adequada manutenção da vida. Oscar Niemeyer, Rem Kaolhoas, Amanda Burden, Michael Sorkin, dentre outras “autoridades” no assunto desenvolvem os seus pensamentos sobre o conceito de urbanização e suas aplicações.

Lançado em 2011, na ocasião do 36º Festival Internacional de Filmes de Toronto, o documentário expõe projetos oriundos da realidade de metrópoles mundialmente conhecidas, delineadas em seus aspectos positivos e negativos. Enquanto Curitiba é um modelo inspirador e apontado como local a ser seguido, Brasília é criticada por ser um projeto estético que não funciona bem como deveria, haja vista os problemas de mobilidade nas largas avenidas, ausência de calçadas e quadras muito distantes, o que dificulta a transição de pedestres entre uma via e outra.

Dentre os depoimentos mais importantes estão as considerações de Enrique Peñalosa, político que traz em sua experiência como prefeito de Bogotá, responsável por priorizar pedestres e permitir melhoria na qualidade de vida. Para o “gerenciador” com reputação “aurática”, “todos os cidadãos são iguais perante a lei”, algo que segundo o seu ponto de vista, “não é apenas poesia”. Uma cidade sul-africana aponta que a regularização dos projetos de trânsito permitiu a diminuição em 40% na criminalidade. Na Alemanha, os habitantes de uma cidade chamada Stuttgart lutavam com todas as forças contra a derrubada de árvores bicentenárias, dizimadas para atender aos projetos de construção de edifícios.

Na condução sonora de Kristian Dunn não faltam sons ambientes e planejados para ilustrar as informações que são transmitidas pela narração e pelos entrevistados, editados pela dupla formada por Michael Culyba e Shelby Siegel. Os efeitos visuais elaborados sob o gerenciamento de John Szot apresentam alguns gráficos e justaposição de imagens que transmitem as informações de maneira mais didática. A equipe, juntamente com o cineasta, revela ao longo de seus 85 minutos, a necessidade dos projetos sobre cidades abordarem a sobrevivência dos seres humanos, não apenas como meras ilustrações arquitetônicas para registros em livros de História da Arte. Doha e Dubai, por exemplo, não são citadas, mas cabem bem nesta afirmação oriunda das reflexões após a contemplação do filme em questão.

Uma das críticas mais contundentes é o delineamento de algo que também já deixamos de desconfiar há tempos, imersos no campo da certeza: o desinteresse do Estado pela regularização das comunidades ditas marginalizadas, isto é, as favelas. Como ressaltado por um dos depoentes, o mercado da construção civil se interessa apenas pela elite, sem vocação para oferecer estruturas habitacionais adequadas para pessoas de baixa renda, algo que promove uma cadeia de desequilíbrio que vai do humano ao meio ambiente, num rastro de poluição e degradação que adentra numa zona crítica a cada ano.

Proposta de intervenção? Criação de cidades com bairros que atendam os moradores em serviços mais básicos, tendo em vista evitar grandes deslocamentos, o que por si só já traz estresse e dor de cabeça no trânsito. O meio urbano, como apontam os especialistas, é o espaço onde as relações humanas constroem suas vivências em meios aos recursos naturais. O crescimento desordenado, como sabemos, afeta a dinâmica dos recursos naturais e estabelecem crises que deveriam ser contornadas, tais como os congestionamentos e a poluição. Gary Hustwit e seus entrevistados deixam as dicas.

Urbanized — Alemanha/Brasil/China/Itália/Suiça, 2011.
Direção: Gary Hustwit
Roteiro: Gary Hustwit
Elenco: Udo Andriof, Alejandro Aravena, Jon Bird, Amanda Burden, Ricky Burdett, Candy Chang, Yung Ho Chang, Noah Chasin, James Corner, Mark Covington, Joshua David, Ellen Dunham-Jones, Kathryn Ewing, Sir Norman Foster, Grady Gammage Jr., Jan Gehl, Alastair Graham, Robert Hammond, Jacqueline James, Bruce Katz, Tarna Klitzner, Rem Koolhaas, Rahul Mehrotra, Grover Mouton, Oscar Niemeyer, Sicelo Nkohla, Eduardo Paes, Sheela Patel, Enrique Peñalosa, Edgar Pieterse
Duração: 125 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.