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Crítica | Urubu Agachado, Mergulhão Saltando, de Donna Andrews

por Luiz Santiago
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Eu fico imensamente espantado com queda de qualidade que a série Mistérios de Meg Langslow teve em relação ao seu início. Não que eu esperasse que todos os livros da grande saga fossem tais e quais a ótima estreia da personagem, em Assassinato com Pavões, mas como a boa toada de mistério, humor e maluquices também se confirmou no segundo volume, Assassinato com Papagaios-do-Mar, eu acreditei piamente que seria muito difícil pelo menos me decepcionar com os escritos de Donna Andrews. Pois é. Eu estava bastante enganado.

Foi no terceiro livro, A Vingança dos Flamingos de Ferro Forjado que eu bati com a cara no muro e vi cair pela metade o nível de diversão que essas aventuras me trouxeram inicialmente. Agora, em Urubu Agachado, Mergulhão Saltando, essa diversão não conseguiu nem alcançar a linha mediana, o que para mim é um sinal de que preciso me afastar da série por um bom tempo antes de continuar — de toda forma, meu fascínio pelos dois primeiros livros me fez ler as primeiras quatro entradas da série em pouco mais de um mês!

Nesta quarta aventura, Donna Andrews coloca sua “heroína” em um ambiente digital que é muitíssimo engraçado de se acompanhar na atualidade, pois estamos falando de uma representação tecnológica do início do anos 2000, e as rápidas mudanças que o tempo traz nessa área torna a leitura um bom caminho para a nostalgia. Pois bem, é nesse ambiente que a presente trama se passa. O jogo de RPG criado pelo irmão de Meg acabou se transformando num famoso jogo de computador (consequência daquilo que vimos no final do livro passado) e ele agora tem uma empresa de sucesso, muitos fãs atrás de seu material e ainda dá palestras sobre desenvolvimento de jogos e sobre sucesso profissional.

Por ter machucado a mão em algum momento antes do livro começar, Meg (que é uma das acionistas da empresa) está trabalhando temporariamente com Rob, e como era de se esperar, bem diante de seu nariz, acontece um assassinato. Um dos colegas de trabalho mais chatos do grupo, que vivia pregando peças em todo mundo e tinha hábitos que faziam os outros se afastarem dele é encontrado morto no escritório da empresa e todo o restante do livro irá trabalhar com a investigação completamente desajeitada do xerife local versus o lado “eu não quero ser detetive, mas sou mesmo assim” de Meg, que é quem acaba assumindo as rédeas da procura por pistas.

Um ponto que nos mantém presos ao livro é o fato de que Rob é o principal suspeito e chega a ser preso, de modo que Meg passa a investigar a morte do funcionário basicamente para livrar o irmão da cadeia. Mas as situações estranhas vão se escalando em torno dela e Donna Andrews procura inserir elementos de humor macabro na relação que o pessoal da tecnologia tem com os psicólogos que dividem o mesmo prédio com eles; dos animais presentes no prédio (a propósito, tive imensa dificuldade de me localizar geograficamente nessa empresa no decorrer de todo o livro) e de pequenos crimes reais e morais que são cometidos naquele espaço. A esteira dos suspeitos é inicialmente interessante, mas a quantidade de atalhos criados pela autora apenas estende a história mais do que deveria.

Contudo, ainda encontramos aqui a essência dos mistérios de Meg. O pai dela (meu personagem favorito da série) infelizmente aparece pouco, mas consegue protagonizar cenas deliciosamente engraçadas, especialmente na primeira metade do volume. Já o que não funcionou de jeito nenhum foi a relação à distância de Meg e Michael. Ele está longe, filmando um projeto para a TV, e fala com Meg por telefone, mas tudo parece muito artificial e a química entre os personagens simplesmente desaparece, deixando tudo muito protocolar. Até imaginei uma separação do casal ao final do livro.

Já a revelação do assassino não poderia ser mais sem graça. O que tem de positivo nesse momento do livro é que tudo no final está repleto de uma comédia sombria, então o leitor se diverte ao mesmo tempo que teme o que pode acontecer. Mas a revelação e o encadeamento para a punição de quem cometeu o crime nem faz jus à investigação e nem consegue garantir a estrela de “bom final” que a gente tanto esperava.

Entre referências às artes marciais e seus símbolos, incompetência policial, psicologia comportamental e imersão social no mundo digital, Urubu Agachado, Mergulhão Saltando tem alguns bons momentos de humor e certos elementos na apresentação do mistério que nos prendem de verdade e fazem alguns blocos da obra valerem a pena. Nosso lamento é que esses bons pontos estejam cobertos por um enredo que, no fim das contas, é tão esvaziado que chega a ser ruim.

Mistérios de Meg Langslow – Livro 4: Urubu Agachado, Mergulhão Saltando (Meg Langslow Mysteries: Crouching Buzzard, Leaping Loon) — EUA, 2003
Autora: Donna Andrews
320 páginas

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