Crítica | Usagi Yojimbo – Livro 2: O Samurai

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Depois das 10 histórias publicadas em diferentes lugares e posteriormente reunidas pela Fantagraphics em Usagi Yojimbo – Livro 1: O Ronin (1987), o coelho guarda-costas de Stan Sakai ganhou um título próprio pela mesma editora, com um primeiro volume composto por 38 edições, divididas em seis livros, passando daí em diante para as mãos da Dark Horse. Neste segundo livro da saga, temos publicadas as edições #1 a 6 de Usagi Yojimbo Vol. 1, com nove capítulos narrando a história de vida de Usagi (originalmente publicados entre julho e novembro de 1987) e mais três histórias individuais: Kappa, Zylla e Feira da Seda; originalmente publicadas entre janeiro e fevereiro de 1988.

Confesso que abri o maior sorriso do mundo quando vi que a trama central do primeiro grande arco deste livro (O Samurai) seria uma narrativa de Usagi para o brutamontes Murakami Gennosuke, ou Gen, o rinoceronte caçador de recompensas que conhecemos no volume anterior. A relação entre Usagi e Gen já foi inicialmente concebida como explosiva, num tipo de laço onde um claramente confia e se afeiçoa ao outro, mas possui personalidade dura demais para deixar que isso esteja o tempo inteiro na mesa. E colocado da forma como o autor faz aqui, é algo que funciona perfeitamente bem, mesmo que a gente tome todo o primeiro bloco como uma “pacífica narrativa do passado“, com os dois começando a conversar após um duelo de Usagi contra o ex-companheiro Ginichi e terminando em uma taverna, após narrar com detalhes a história da qual conhecíamos apenas um pedaço, mostrada como lembrança no conto O Goblin de Adachigahara.

A grande questão é que de “pacífica” essa narrativa não tem nada. Em certos momentos o roteiro de Sakai adota um tom mais didático, mas isso se dilui rapidamente ao longo de intensos embates e das mais criativas histórias que envolvem um personagem como este vivendo no Período Edo — nesse caso específico, entre o final do século XVI e o início do século XVII. Toda a jornada de Usagi, desde criança, passando por sua formação como samurai, até o momento em que ele se torna um ronin, com a morte de seu senhor Mifune, é retratado com bastante graça e cuidado histórico pelo autor, sem contar que a arte de Sakai é daqueles de traços bem finalizados, arredondados e de aparência cartunesca/infantil que enche os olhos e certamente engana muita gente, talvez achando que esta é uma história para crianças. Pois bem… definitivamente não é.

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Depois de conhecermos toda a história de vida do personagem, passamos para três contos que mantêm o nível de qualidade da saga O Samurai, com a vantagem de não ter os já citados momentos didáticos (aliás, uma caraterística difícil de driblar aqui, porque vem da narração do protagonista sobre o seu passado), momentos que me fizeram retirar uma estrelinha da avaliação final, embora, em termos de diversão, isso não signifique nada: só serve para marcar mesmo o olhar de crítico chato… Dito isso, vamos para o primeiro conto solo, Kappa.

SPOILERS!

É evidente que eu me lembrei o tempo inteiro de Kappa e o Levante Imaginário, coletânea de contos de Ryunosuke Akutagawa, que trabalhou com um grande número de elementos sobrenaturais em suas histórias incríveis, algo que Stan Sakai aglutina aqui de maneira primorosa. Exceto por uma pequena confusão na primeira parte na luta entre Usagi e o Kappa, toda a saga (com pinceladas de O Gato Preto) é de nos fazer arregalar os olhos, especialmente com a reviravolta no final. Depois, temos o conto Zylla, uma brincadeira absolutamente adorável de Sakai com um icônico personagem da cultura japonesa (podem me chamar de lento, mas eu confesso que não fiz a real ligação até os momentos finais da história… sério mesmo) e que eu li três vezes seguidas, de tanto que eu gostei. Por fim, Feira da Seda, que é uma daquelas histórias calorosas, familiares e um pouquinho cínicas de uma vila de habitantes indefesos que acabam sendo ajudados por um espadachim extremamente talentoso, um eco de Os Sete Samurais com um ronin em cena.

De maneira muito fluída e apenas com pequenos probleminhas de organização de ritmo entre os flashbacks e o cenário presente (mais algumas nuances de didatismo), O Samurai dá continuidade de maneira louvável à saga de Usagi Yojimbo, agora revelando detalhes sobre sua vida e nos entregando excelentes “crônicas de passagem”, no melhor estilo “diários de um ronin“, o que torna tudo ainda melhor. Impossível não se viciar nessa série.

Usagi Yojimbo – Livro 2: Samurai (EUA, 1989)
Contendo: Usagi Yojimbo Vol.1 #1 a 6 (1987 – 1988)
Editora original: Fantagraphics
No Brasil: Via Lettera, abril de 1999
Roteiro: Stan Sakai
Arte: Stan Sakai
Capa: Stan Sakai
141 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.