Crítica | Usagi Yojimbo – Livro 3: O Caminho do Andarilho

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O Caminho do Andarilho se assemelha bastante à estrutura de histórias que tivemos em O Ronin, primeiro livro da saga de Usagi Yojimbo, com a diferença de que aqui são seis histórias longas e uma bem curtinha, elencando, fora da continuidade, os personagens de Kevin Eastman e Peter Laird. Não pude deixar de ter um sentimento misto entre querer algo e curtir o que Stan Sakai se propôs a entregar. De um lado, imaginava que teríamos um arco maior de histórias, como antes, em O Samurai, completado por outros pequenos contos, mostrando andanças do habilidoso coelho guarda-costas. De outro, não pude deixar de ver alguns bons encontros e um aprofundamento maior dos dilemas de Usagi, inclusive com duas excelentes batalhas onde ele não consegue se livrar do inimigo assim tão fácil. E tudo começa com um encontro inesperado e a adição de um pet na vida do ronin.

A Torre conta a história de um tokage faminto. Para quem já vem de outras aventuras de Usagi, esses lagartos são companhias frequentes, aparecendo por todos os lados, em todos os tamanhos e com barulhinhos simpáticos que podem querer dizer diferentes coisas, dependendo do humor de quem está lendo. Esta talvez seja a história (canônica) mais diferente do livro, porque coloca Usagi em perigo, mas partindo de um princípio que normalmente não é aquele que esperamos dele, e isso em um sentido positivo. Depois de todo o estardalhaço feito na cidade, estava claro que o animal seguiria como companheiro do ronin, embora isso fosse durar pouco tempo…

O conto Amor de Mãe é o mais cru e trágico de todos os que vimos de Usagi até o momento. Ele começa com o protagonista, Spot (nome do tokage) e uma velha senhora comendo no alto de uma colina. Essa partilha de alimento e a felicidade e carinho aí representados são um presente do roteiro, que em pouco tempo retira toda a possibilidade de final feliz e esperanças do leitor. Existe um fator social bastante forte aqui e uma abordagem de laços familiares que vai por um caminho moral tão realista, que até podemos fazer uma aproximação desses eventos com algumas realidades de pais e mães honestos que possuem filhos criminosos e realmente não sabem o que fazer diante disso e nem têm um verdadeiro papel nessa situação. Uma aventura com final muito difícil de processar.

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Com as devidas desculpas a Sergio Aragonés.

E por falar em andarilho, eis que O Retorno do Porco Cego Espadachim traz de novo o personagem que é uma paródia (moralmente mais vilanesca) de Zatoichi. No último encontro que teve com Usagi, o também excelente espadachim Zato-Ino ficou sem o focinho e conseguiu que confeccionassem para ele um de madeira, algo também visto em aventuras anteriores. Aqui, seu retorno ganha ares elegíacos através do roteiro e também da arte de Sakai, que consegue fazer com que seus desenhos dialoguem, de maneira muito eficiente com os sentimentos dos animais representados. E o fato emotivo se torna ainda maior porque temos a partida de Spot, algo que só não recebi plenamente bem porque há quase um caráter de inteligência dado ao tokage, que “escolhe” seguir Zato-Ino porque este procura paz. Muita coisa dentro da fantasia pode ser aceita no Universo de Usagi, mas certas resoluções simplesmente parecem convenientes ou “humanas” demais para alguns desses personagens.

Lâmina dos Deuses é outra história onde a arte fala muito mais do que o texto. Conhecemos Jei, um samurai que se autodenomina enviado dos deuses para purificar aquelas terras, matando os homens maus. Mais uma vez temos uma atmosfera que nos lembra a obra de Akutagawa e a essência das histórias de fantasmas típicas do Japão. Há uma bela preparação visual para o que acontece no final da trama e assim como no livro anterior, o caráter de terror dessa história nos deixa com os olhos arregalados, pensando, ao fim, na possibilidade de ser ou não real a alegação de Jei; um mistério que, ainda bem, o autor deixa em aberto.

E olha só quem volta em A Xícara de Chá: o adoravelmente malandro Gennosuke, o rinoceronte “melhor amigo” de Usagi. Eu já falei antes, mas vou repetir: simplesmente adoro a amizade entre esses dois. E aqui, seguindo um pouco a linha de elementos emotivos do livro, temos duas crianças órfãs e famintas para “apimentar” a situação, algo que, no fim do livro, prova o quanto Gen é um rino de coração mole, mesmo que jamais queira deixar isso ser percebido. Eu ri com gosto quando ele ficou sem jeito ao contar o que fez com o dinheiro recebido como recompensa pela missão de entrega da tal “xícara de chá”. Definitivamente, os brutos também amam. Em tempo: a abertura dessa história faz uma homenagem visual às primeiras páginas de Groo, o Errante, série da qual Sakai era letrista. E sim, Groo também faz um cameo nesse livro, assim como fez em O Ronin!

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Quem vence?

O Presente do Shogun é a única história do livro da qual eu não gosto tanto de uma das partes, que no caso são as cenas no castelo do senhor Noriyuki. Primeiro, porque me dá uma impressão muito estranha quanto à temporalidade, já que este lord-panda era uma criança (não era?), quando foi guiado por Usagi e Tomoe Ame (serva e guarda-costas do clã) até o castelo dos Geishu, em Coelho Solitário e Filhote. Aqui, por mais que o desenho ainda mostre o lord panda de uma maneira um tanto infantil, existem atitudes que simplesmente parecem não se encaixar, o que me faz aproveitar menos a história, embora eu reconheça que isso deve ser birra minha. Em compensação, fui plenamente capturado pela linha de ação do tipo gato-e-rato entre Usagi e o ninja Shingen, onde Sakai se utiliza do fino humor para levar adiante a caçada pela espada Muramasa.

E por fim temos Sopa de Tartaruga e Guisado de Coelho, curto crossover entre este Universo com o das Tartarugas Ninja, história para a qual Sakai deixou claro desde o início que era apenas algo “para diversão“, feita sob convite dos criadores das TN para um especial em quadrinhos chamado Turtle Soup. O encontro entre Usagi e as TN, porém, se tornaria periódico. E a história aqui funciona mais como um fan service bem feito. Há bem pouca coisa sendo contada e a tartaruga de destaque (Leonardo) não sabe nada do que está se passando. Ele diz foi transportado para o Japão enquanto estava no meio de seu treinamento e a volta para casa acontece também sob igual mistério, fazendo desta Sopa um daqueles contos cômicos, inexplicáveis e com personagens importantes que a gente simplesmente adora ver. Uma boa escolha para terminar um livro chamado O Caminho do Andarilho.

Usagi Yojimbo – Livro 3: The Wanderer’s Road (EUA, 1989)
Contendo: Usagi Yojimbo Vol.1 #7 a 12 + a história curta Turtle Soup and Rabbit Stew (1987 – 1988)
Editora original: Fantagraphics
Roteiro: Stan Sakai
Arte: Stan Sakai
Capa: Stan Sakai
152 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.